Eu vejo o futuro repetir o passado?

Monique Pimentel,

Me considero uma pessoa privilegiada. Tenho três avós vivos. Os dois paternos, ele com 95 anos e ela com 80 anos. E minha avó materna Regina, que sempre morou conosco e tem 94 anos.

Convivo, me alegro, me entristeço e me questiono com essa rica experiência em conviver de perto, diariamente, com um idoso. Vovó Regina dizia que só queria viver até quando tivesse lucidez. Quando cogitávamos uma pessoa para acompanhá-la, devido à idade, ela logo retrucava: “Não preciso de babá.” Ativa, cozinhava, tinha as “mãos de fada”, que faziam os pães de queijo mais deliciosos que já comi, fazia crochê, uma costureira de “mão fina”, como ela mesma se definia e sempre com um sorriso no rosto, quando alguém dizia: “Como a senhora é linda!”, ela respondia, graciosamente: “Sempre fui.”

Hoje, vovó tem duas cuidadoras que se revezam no seu cuidado, a lucidez já não existe e o sorriso, muitas vezes dá lugar a um choro ou à inquietação constante, perguntando pela sua mãe, querendo ir para a casa do seu passado, fantasiando um mundo que não mais existe. Ela já não nos reconhece. Ela já não se reconhece. E eu sinto muito por isso.

Às vezes penso que a demência senil é uma estratégia adaptada dos idosos, para não ter contato com uma realidade tão dura, com tantas perdas. Perda da vitalidade, perda da autonomia, perda de amigos, familiares, perda da identidade.

E o que fazer diante dessa realidade? Me angustio por ela, me entristeço por algumas vezes não dar a devida atenção e ter paciência quando, eu, atolada de afazeres, a recebo na sala me fazendo repetidamente a mesma pergunta.

Ora me entristeço pela sua situação, ora me alegro por tê-la por perto, por sentir o amor dela. Isso, não há Alzheimer ou demência senil que acabe. O amor é indelével. Mas, eis que eu me questiono: “Será que, se eu viver tudo isso, mais de 90 anos, ficarei assim também? Sem nem me reconhecer? Será que meu futuro repetirá o passado?

Não sei. Não queria. Quero uma "morte boa", quero lucidamente ter minha autonomia, quero poder, forte e consciente, "acenar na janela dos olhos de Deus" (Carpinejar). E me despedir da vida, sabendo o que fui e o que sou.

Mas, se a lucidez me faltar, espero ter pessoas ao meu redor, como vovó tem a nós. Pessoas que a amam, que a acolhem, que a entendem e respeitam seu “ser idoso”. O amor verdadeiro não precisa de identidade, é gratuito, é generoso, é eterno.

E que eu não fique longe de mim. Que o meu futuro não se perca do meu passado!


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