Chave está nas pessoas não na tecnologia

As ameaças ao fim da humanidade e o controle absoluto das máquinas servem apenas como parâmetro do que não está acontecendo.

Glauco Arbix*, Estadão Conteúdo,
Estadão
Novas tecnologias invadem espaços reservados aos profissionais mais qualificados; mudanças reforçam busca de maior capacidade cognitiva.

Variações demográficas, os mercados e o perfil da economia promoveram, ao longo da história, profundas transformações na natureza do trabalho. A tecnologia quase sempre esteve na linha de frente dessas mudanças. O que distingue a época atual é que vivemos o nascimento de uma constelação de tecnologias que prenuncia a remodelagem da vida das pessoas, das economias, das cidades e do trabalho em níveis inéditos na história da humanidade.

Nada a ver com a última versão do Exterminador do Futuro. As ameaças ao fim da humanidade e o controle absoluto das máquinas servem apenas como parâmetro do que não está acontecendo. A rápida evolução da inteligência artificial, que se configura como a principal alavanca de uma sociedade digital, teve seu desenvolvimento acelerado nos últimos 10 anos graças ao imenso volume de dados disponível e dos avanços inéditos de mecanismos de sua coleta, armazenagem e processamento.

A sofisticação das técnicas de Machine Learning (ML) tem patrocinado incríveis avanços na saúde, na educação, no lazer, na economia e em todos os poros da vida em sociedade. É a aprendizagem de máquina (ML) que está na raiz do sucesso da inteligência artificial e que tem nos dados sua fonte de energia.

As novas tecnologias afetam tarefas, não apenas os empregos. A digitalização da economia e da sociedade, que recém começou, muda a qualidade do que e do como as pessoas fazem no trabalho, transformado em um consórcio de tarefas e constante mutação. Por isso os programas de treinamento mostram-se insuficientes para promover a migração de trabalhadores para áreas de maior produtividade. Além disso, as novas tecnologias invadem também o espaço reservado aos profissionais mais qualificados, contrariando o senso comum. Advogados, jornalistas, técnicos, gerentes começam a ter seu emprego ameaçado, para além da tradicional base da pirâmide. A internet e a economia virtual, com seus aplicativos e plataformas on-line, aumentaram a fragmentação do trabalho e questionaram os tradicionais conceitos legais, funcionais e espaciais. Empregos são segmentados em projetos que podem ser terceirizados para empresas ou especialistas. Além do trabalho, os ambientes tendem a se tornar temporários. E bens pessoais são agora incorporados ao processo de trabalho como carros, bicicletas, casas, cômodos, motos e patinetes. São ferramentas de uma atividade pública.

É o trabalho que perde o padrão, torna-se um fora-da-lei e alvo de infindáveis disputas legais. Pesquisas recentes indicam que essa informalidade tende a se consolidar, apesar de inicialmente ter sido vista como trampolim para o mercado de trabalho regular. Claro, continua sendo alternativa para desemprego. Mas com todas as consequências que salários menores, baixa cobertura previdenciária, ausência de férias podem acarretar para as pessoas.

E com as dificuldades que a informalidade traz para a reconfiguração do trabalho promovida por tecnologias inovadoras que, como regra, tendem a combinar habilidades mais embebidas de conhecimento e mais flexíveis para se adaptar às mudanças. Aqui reside o drama da baixa qualificação dos trabalhadores brasileiros para a elevação da competitividade do país. O ritmo da digitalização, da automação e da integração da economia certamente será menor e mais instável aqui no Brasil.

Ou seja, a transição para um patamar superior será certamente mais penosa, dado o nosso atraso tecnológico e a baixa qualidade da nossa educação.

As mudanças também reforçam a busca de maior capacidade cognitiva da força de trabalho, dado o aumento substantivo das interações entre humanos e as máquinas. Razões que levaram especialistas ao conceito de simbiose, para explicar a formação de novas ocupações e profissões híbridas, que mesclam competências hoje em áreas distintas como a matemática e a filosofia, a química e a antropologia, a sociologia, a computação. Estudos preveem que 70% dos alunos que estão hoje na pré-escola trabalharão em ocupações hoje inexistentes, relacionadas à robótica, nanotecnologia, computação quântica, genômica e inteligência artificial.

Ganham força as habilidades de julgamento e decisão, de criatividade e gestão de pessoas, de negociação e inteligência emocional. Essas são características que as máquinas não têm e que definem interações em que a tecnologia não é a chave, os humanos é que são.

*Professor titular de Sociologia da USP, coordenador do Observatório de Inovação do Instituto de Estudos Avançados. Ex-presidente do IPEA e da Finep

Tags: tecnologia trabalho
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