Leite vegetal explode com variedades sem soja e público consciente

Startups aquecem consumo com leites de aveia, castanhas e coco; enquanto soja cai, outras opções veganas crescem 540% em cinco anos.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Divulgação
Brasil já conta com cerca de 44 marcas de leite vegetal, atuando no mercado em nível nacional, e ao menos 14 matérias-primas, além da soja.

Leite de aveia, amêndoas, castanhas, coco, arroz. Não faltam opções de bebidas vegetais além da soja. A cultura, que por muito tempo dominou esse mercado, com o peso do agronegócio e dos transgênicos, vem perdendo espaço para novas alternativas que crescem com a pegada vegana e sustentável e a promessa de melhor experiência de consumo, para atender um público mais consciente.  

O surgimento de foodtechs (startups de alimentação) no País a partir de 2014, tais como Positive Brands (A Tal da Castanha), VidaVeg e NotCo, abriu o leque de possibilidades no setor ao trazerem inovações em ingredientes, rótulos limpos (clean label), sabores e texturas mais similares ao leite animal, inclusive no aspecto nutritivo, alcançando grupos de consumidores além de veganos, vegetarianos e alérgicos.

Pesquisa feita pela Dupont na América Latina, em 2020, indica que 67% dos brasileiros têm interesse em proteínas vegetais, o que explica o crescimento do consumo e de empresas no País nos últimos anos. Somando gigantes de alimentos, como Ades, Vigor, Batavo, Danone e Nestlé, hoje há 44 marcas no Brasil atuando no mercado de bebidas vegetais em nível nacional, segundo mapeamento realizado em agosto pelo The Good Food Institute (GFI).

Embora predominante, o consumo do leite de soja caiu 64% em volume nos últimos cinco anos (2016-2021), enquanto bebidas feitas com outras matérias-primas, como amêndoas e castanha-de-caju, cresceram 540% no mesmo período no Brasil. É o que mostram dados atualizados da Euromonitor International obtidos com exclusividade pelo Estadão. A previsão, até 2026, é de alta de 84%, enquanto a soja amargará uma queda de 52%.

"Hoje, o consumo das bebidas de soja ainda é superior às demais alternativas, que são categorias recentes no Brasil. Mas a perspectiva é que nos próximos anos esses volumes vão se igualar com a queda da soja, puxada por uma mudança na motivação do consumo", explica Gregory Ribeiro, analista de pesquisa da Euromonitor International. “Houve uma mudança de percepção em relação ao impacto ambiental da soja, associada ao agronegócio não sustentável.”

As projeções indicam que as novas matérias-primas devem valer mais do que o dobro das bebidas de soja até 2026, o equivalente a R$ 376,9 milhões, com alta de 103%, ante R$ 148,7 milhões da soja (baixa de 50% entre 2021 e 2026).

China, EUA, Alemanha, Espanha e Reino Unido lideram a corrida de leites vegetais, mas o Brasil segue acompanhando a tendência e tem oportunidade de evolução. A marca mineira Vida Veg, por exemplo, aumentou em 85% a venda de bebidas à base de plantas de janeiro a julho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2020. A previsão é dobrar o faturamento do ano passado, que já foi superado.

Na última semana, a empresa, no mercado desde 2015 com portfólio de produtos à base de plantas, recebeu aporte de R$ 18 milhões da X8 Investimentos, gestora que tem Bill Gates e Pierre Omidyar, fundador do site eBay, como parceiros.

Segundo Anderson Rodrigues, sócio-diretor da Vida Veg, os recursos serão usados em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, tecnologia e ampliação da fábrica em Lavras, no sul de Minas Gerais.

Inaugurado em 2020, o espaço tem, atualmente, capacidade produtiva de 900 toneladas por mês, sendo 565 toneladas de leite vegetal, que são distribuídos para 4 mil pontos de venda em todo o País, além de e-commerce.

“Temos a perspectiva de, até 2025, crescer dez vezes o faturamento em relação a 2020”, diz o sócio-diretor da Vida Veg, que não revela cifras. A companhia ainda planeja iniciar as exportações para a Europa até o fim do ano.

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Leite com o mesmo teor de cálcio


O mais novo produto da Vida Veg, que chega aos supermercados neste mês, é o Veg Milk, um blend de castanha-de-caju e coco fresco que se propõe a ter o mesmo valor nutricional do leite de vaca. A produção é feita na fábrica da companhia, de onde também saem os outros quatro tipos de leites vegetais: aveia, coco, amêndoas e castanha-de-caju.

“O nosso diferencial é que, além de comercializar o leite longa vida (UHT), que é padrão do mercado, desenvolvemos a tecnologia de leites frescos”, destaca Rodrigues. Ao contrário do UHT, a bebida fresca tem um tratamento térmico mais brando, o que, segundo ele, ajuda a preservar os micronutrientes, a cremosidade e o sabor.

Para lançar o Veg Milk, a empresa fez uma pesquisa entre consumidores que ainda não substituíram a bebida de origem animal. Os motivos apontados foram a quantidade de proteínas e cálcio e a cremosidade presente no leite de vaca.

“A partir desses três fatores, lançamos o que chamamos de um produto igual, só que melhor, porque tem 70% menos carboidrato e não contém lactose, caseína e colesterol, além de ter selo vegano e ser sustentável”, explica o executivo.

Em termos nutricionais, o Veg Milk traz o mesmo valor de proteína e cálcio de um leite de vaca, e é enriquecido com biocálcio orgânico, magnésio e vitaminas D e K2. Por usar tecnologia própria, chega ao mercado a um custo aproximado de R$ 9,98 (700ml), valor inferior à média do mercado plant-based.

Atenta à demanda do mercado, as indústrias têm focado no desenvolvimento de produtos que proporcionem experiência sensorial similar aos de origem animal e que contenham aspectos nutricionais normalmente esperados para democratizar o acesso.

Foi o que observou a cearense Positive Brands, foodtech pioneira no mercado de leites vegetais no Brasil com A Tal da Castanha (ATDC). Em julho deste ano, a marca lançou a linha Possible com 40% da necessidade diária de cálcio e valor inferior às demais da companhia. A caixinha de Possible custa cerca de R$ 13,90, enquanto o ATDC tem preço médio de R$ 19,90.

Nos sabores original e chocolate, a bebida, à base de castanha-de-caju orgânica e clean label (com ingredientes naturais), chega aos supermercados como um produto mais acessível, segundo Rodrigo Carvalho, sócio-fundador da marca, em termos de custo e por ter sabor e textura mais parecidos com o leite de vaca. A ideia é atrair consumidores que ainda não conseguiram encontrar um substituto para a bebida animal.

Além do Possible, a foodtech, que nasceu como uma startup dentro da indústria de castanha-de-caju em Fortaleza, tem outros nove tipos de leite com bases vegetais variadas. Entre os lançamentos mais recentes, estão a bebida de aveia e uma linha infantil vegana. Ainda estão previstos para este ano novos produtos prontos para beber.

“Tivemos um crescimento muito expressivo na pandemia. De 2019 para 2020, o faturamento passou de R$ 27 milhões para R$ 45 milhões. Para este ano, a expectativa é chegar aos R$ 90 milhões, uma alta de quase 100% ao ano”, revela Carvalho.

A joint venture com o Grupo 3Corações em 2020, que detém 50% da Positive Brands, ajudou a companhia, diz o executivo, a ganhar capilaridade e velocidade para penetração no mercado. De 2019 para 2020, aumentaram de 7 mil para 22 mil pontos de venda e devem chegar aos 30 mil até o fim do ano, fora o e-commerce e negócios fechados com marcas estratégicas, como Starbucks.

Assim como a Veg Milk, a Positive Brands também pretende iniciar, até o próximo ano, o processo de internacionalização da marca, inicialmente, para os Estados Unidos e alguns países da Europa.

Tags: leite vegetal pegada vegana sustentabilidade
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