Witzel responsabiliza Bolsonaro por mortes e diz que governo atuou contra governadores

Presença do ex-governador do Rio de Janeiro na CPI durou cerca de 4 horas e 30 minutos e nem todos os senadores presentes puderam fazer perguntas.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Jefferson Rudy/Agência Senado
Mesmo assistido pela decisão do STF, Witzel resolveu depor. Ao longo de seu depoimento, ele centrou suas falas a críticas ao governo Jair Bolsonaro.

O ex-governador Wilson Witzel deixou hoje (16) o depoimento à CPI da Covid durante pergunta do senador Eduardo Girão (Podemos-CE). O presidente Omar Aziz leu habeas corpus deferido pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu ontem (15) à Witzel o direito de não comparecer na comissão.

Girão foi o segundo senador da base governista a fazer perguntas no depoimento. Antes dele, o senador Jorginho Mello (PL-SC), disse em sua pergunta que Witzel "envergonhou a magistratura". Ele respondeu que, nos 17 anos em que exerceu a função de juiz federal, ele nunca respondeu a nenhum tipo de processo ou advertência.

O ex-governador também frisou, em outro momento do depoimento, que sempre buscou por uma "justiça restauradora". Durante a sua campanha, entretanto, Witzel dizia que a Polícia Militar poderia "mirar na cabecinha". Em agosto de 2019, já governador, ele comemorou a morte do sequestrador de um ônibus no Rio de Janeiro. Ao chegar ao local de helicóptero, fez gestos de comemoração e parabenizou a Polícia Militar.

Mesmo assistido pela decisão do STF, Witzel resolveu depor. Ao longo de seu depoimento, ele centrou suas falas a críticas ao governo Jair Bolsonaro e usou o espaço na CPI para se defender das acusações de corrupção que levaram ao seu impeachment, em abril. Também bateu boca com o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), que, mais cedo, interrompeu as falas de Witzel e perguntas do relator Renan Calheiros (MDB-AL). Witzel deixou a sessão sem concluir o depoimento, mas deve voltar à comissão para falar de maneira sigilosa.

A CPI será retomada amanhã (17), e deve ouvir o auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, autor de um estudo paralelo que indicou uma supernotificacão de mortes por covid-19 no Brasil; na ocasião, o TCU negou a autoria, mas uma investigação interna apontou que Marques realizou a pesquisa nas dependências do tribunal.

Bolsonaro seria responsável por mortes

Durante o depoimento, Witzel insinuou que o presidente Jair Bolsonaro seria o responsável pelas mais de 450 mil mortes por covid-19. O governador cassado disse também que o governo federal criou uma narrativa para fragilizar os governadores por terem tomado medidas restritivas.

"Como é que você tem um país em que o presidente da República não dialoga com um governador de estado? E o presidente deixou os governadores à mercê da desgraça que viria. O único responsável pelos 450 mil mortos que estão aí tem nome, endereço e tem que ser responsabilizado aqui, no Tribunal Penal Internacional, pelos fatos que praticou".

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Witzel acusou o governo federal de agir de caso pensado para deixar governos estaduais em situação de vulnerabilidade, sem condições de comprar insumos e respiradores. 

"Os governos estaduais ficariam em situação de fragilidade, porque não teriam condições de comprar os insumos, respiradores e, inclusive, atender os seus pacientes no Sistema Único de Saúde, que, embora seja um excelente sistema para um país como o nosso, tem dificuldades. Como é que eu vou requisitar ao governo da China receber respirador? Isso é uma negociação internacional, e não foi feita", assinalou Witzel. 

Calvário

Durante a sua fala, Wilson Witzel disse que corre "risco de vida" ao depor na CPI da Covid por conta de milícias ligadas à gestão de Saúde no Rio de Janeiro. O ex-governador também disse que seu "calvário"começou quando avançaram as investigações do caso do assassinato da então vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. O atentado completou três anos em março e, até agora, não se sabe quem foi o mandante do crime.  O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Ronie Lessa e Élcio de Queiroz como os assassinos. Os ex-PMs estão presos.

Witzel seguiu criticando Bolsonaro. "Quantos crimes de responsabilidade esse homem vai ter que cometer para a gente parar ele? Essa República se tornará chavista ao contrário", disparou.

Cooperação

Em resposta ao relator Renan Calheiros (MDB-AL), o ex-governador do Rio de Janeiro disse que não existiu cooperação por parte do Ministério da Saúde com os governos estaduais. Segundo ele, diversos pedidos em ofício de hospitais de campanha e insumos enviados pela secretaria estadual de Saúde do Rio de Janeiro não foram respondidos.

Witzel também disse que foi um dos primeiros governadores a implementar o isolamento social, e que conversou com o governo federal sobre a demora no auxílio emergencial, mas que não havia respostas claras aos governadores.

Estrume

Questionado pelo relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), sobre se o presidente Jair Bolsonaro pediu a ele que ficasse contra o isolamento social como política para frear o contágio pela covid-19, o ex-governador do Rio Wilson Witzel respondeu que "o presidente me chamou de estrume, ditador, leviano. Fez várias afirmações inaceitáveis que eu jamais faria em relação a ele".

Witzel seguiu dizendo que a postura de Bolsonaro foi de "isolamento" em relação a ele. O ex-governador contou ainda que pediu reuniões com o presidente para tratar da pandemia, mas que não foi recebido no Palácio do Planalto.

Bate-boca

O senador Flávio Bolsonaro (Patriota) interrompeu, sem inscrição, perguntas do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), e o depoimento do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. O vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que há uma clara "intimidação" ao depoente.

Witzel e Flávio começaram a trocar farpas; o ex-governador chamou Flávio de "mimado e sem educação", e os senadores pediram que o presidente da sessão, Omar Aziz (PSD-AM), garanta a palavra ao depoente. "Aqui o senhor é senador, não filho do presidente", falou Rogério Carvalho (PT-SE).

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Inimigo político da família, Witzel afirmou a Flávio que não é "porteiro para ser intimidado", em uma referência direta às investigações relativas ao assassinato da então vereadora Marielle Franco (PSOL).  "Senador, o senhor pode ficar tranquilo que eu não sou porteiro. Não vai me intimidar, não." O porteiro do condomínio onde o presidente tem casa no Rio falou à polícia que os executores da vereadora (presos durante o governo de Witzel) haviam entrado no local após autorização de Jair Bolsonaro. Depois da divulgação desse depoimento, ele voltou atrás em sua afirmação.

Flávio também tentou impedir que Renan fizesse perguntas que envolvessem seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, fora do contexto da pandemia. E teve garantida sua fala pelo senador Omar Aziz. Ao utilizar seu tempo, Flávio surpreendeu ao pedir licença para tirar a máscara. Segundo o parlamentar, ele tem dificuldades para ler com a máscara, pois seu óculos fica embaçado. O gesto do senador foi então advertido por Randolfe Rodrgues, que fez questão de reforçar que no Senado e na CPI da Covid, especificamente, o uso da máscara é obrigatório.

Carreatas

O ex-governador Wilson Witzel declarou em resposta ao vice-presidente Randolfe Rodrigues (Rede-AP) que deputados estaduais e federais foram os principais articuladores e organizadores de carreatas pró reabertura do comércio no Rio de Janeiro, e pelo chamado isolamento vertical: essa ideia foi defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores, que argumentavam que apenas idosos deveriam ficar em casa para evitar a contaminação pela covid-19, e que outros poderiam circular livremente.

Witzel falou que o deputado estadual Filippe Poubel era um dos organizadores "mais violentos". "Esse cidadão invadiu hospital de campanha em Nova Iguaçu", relembrou o ex-governador sobre o episódio em maio de 2020, quando o parlamentar invadiu as instalações do hospital acompanhado por seguranças armados. Anderson Moraes e Alana Passos, ambos do PSL, foram outros nomes que Witzel diz serem os principais organizadores dos protestos que iam contra as medidas sanitárias estaduais.

O ex-governador falou ainda que o primeiro pronunciamento oficial do presidente Jair Bolsonaro no início da pandemia, em que ele disse que a covid-19 seria uma "gripezinha", foi algo que ajudou a "gerar o caos" nos estados. "O governador pede para ficar em casa. O presidente vai lá e diz outra coisa em pronunciamento oficial. O caos se instaura".


Confira o vídeo da sessão:

DD.

Tags: CPI Wilson Witzel
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