Negociações com o Butantan nunca foram canceladas, diz Élcio Franco

Ex-número dois de Pazuello no Ministério da Saúde, militar se disse favorável ao tratamento precoce.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Edilson Rodrigues/Agência Senado
"O médico me recomendou e eu tomei hidroxicloroquina na fase viral", contou o ex-número dois do Ministério da Saúde Elcio Franco aos senadores.

Confrontado pelo relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), sobre o episódio público em que o presidente Jair Bolsonaro disse ter ordenado ao então ministro da Saúde Eduardo Pazuello o cancelamento da compra da Coronavac, o ex-secretário Élcio Franco declarou que as negociações com o Instituto Butantan nunca foram canceladas; na época, Pazuello disse em uma das lives prsidenciais que "um manda e outro obedece" sobre o cancelamento da compra. "Não houve cancelamento, as vacinas seriam adquiridas desde que aprovadas pela Anvisa".

"As tratativas continuaram. Haveria em caso de dificuldade de comunicação por parte do Butantan terem conversado comigo. Não entendi como ordem do presidente e pelo o que me lembre não consultei o ministro sobre esse aspecto. As tratativas não pararam e continuamos cobrando do Butantan dados técnicos dos estados clínicos, que eles demoravam a nos reportar".

De acordo com Élcio, deve ter sido um “problema de percepção” de Dimas Covas (presidente do Butantan) esse entendimento de que as negociações haviam sido interrompidas.

Antônio Élcio Franco Filho, ex-número dois de Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, foi o convocado da vez para a CPI da Covid, nesta quarta-feira (9).

Kit Covid

O ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde disse desconhecer a solicitação de “kits covid”, coquetel de remédios que não conta com aval médico, por secretários municipais de Saúde à pasta. À CPI da Covid, Franco afirmou que a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a covid-19 e defendida pelo presidente e apoiadores como alternativa às medidas de prevenção, estava prevista na relação do Ministério da Saúde para ser usada no tratamento da malária e do lúpus.

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Segundo narrou o relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), "em janeiro de 2021, secretários de Saúde dos municípios foram procurados por parlamentares bolsonaristas, entre eles Bibo Nunes (PSL-RS), para que fizessem a solicitação ao Ministério da Saúde para receberem o 'kit covid' para tratamento precoce".

Franco respondeu que "o kit de tratamento precoce não é utilizado pelo ministério" e reforçou que os remédios eram fornecidos mediante a demanda de Estados e municípios.

Intubação

O Senador Humberto Costa (PT-PE), que já foi ministro da Saúde, quis saber do secretário sobre a falta do kit intubação para estados e municípios. Élcio Franco explicou que o ministério, quando teve informação da falta de medicamentos, mapeou, com apoio da Anvisa, onde estavam os estoques e auxiliaram na procura dos representantes de laboratórios para favorecer a aquisição. Mas salientou que "cabe aos estados e municípios a compra e a verificação no nível de estoques de medicamentos".

Franco lembrou que, após colocada a crise dos medicamentos pelo Ministério da Saúde, ocorreu remanejamento dos remédios entre os estados e importação por meio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

Sem arrependimento

Representante da bancada feminina, Eliziane Gama (Cidadania-MA) perguntou a Élcio Franco se ele se arrependeu de vídeo gravado por ele em dezembro de 2020 com fortes críticas ao governador João Doria (PSDB-SP), onde dizia que o governador estava "vendendo sonhos que não poderia cumprir", ao divulgar datas de vacinação.

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"Não me arrependo, de forma alguma. Nesse vídeo me referia a data de início da imunização pelo governo de São Paulo quando sequer havia liberação da Anvisa. São as incertezas que me referi anteriormente às fases clínicas".

Eliziane também perguntou ao ex-secretário sobre a sua relacão Carlos Wizard, com quem ele diz ter relação de amizade; ambos já trabalharam na Operação Acolhida, de apoio a refugiados venezuelanos. Franco confirmou que ambos se encontraram duas vezes para conversar sobre a aquisição de vacinas por meio do setor privado, mas que ele explicou que as doses deveriam ser direcionadas ao SUS.

Hidroxicloroquina

Em seus questionamentos, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) lembrou que o ex-secretário foi acometido pela covid-19, e perguntou se ele fez o chamado tratamento precoce pela doença. "O médico me recomendou e eu tomei hidroxicloroquina na fase viral", contou. Ele disse ainda que o seu tratamento teve ainda ivermectina, anticoagulantes e dexametasona injetável.

Franco contou que foi internado e teve de 25% a 50% do pulmão comprometido; os senadores lembraram que isso ocorreu mesmo com o uso de coquetel dos remédios. Élcio acrescentou: "meu quadro poderia ter sido mais acelerado e eu teria ido mais cedo ao hospital".

Tratamento precoce

O ex-secretário do Ministério da Saúde Élcio Franco se disse favorável ao tratamento precoce, mas igualou a prática ao atendimento médico rápido. "Tratamento precoce é a melhor medida preventiva para qualquer morbidade, nós partimos para o diagnóstico precoce em qualquer situação médica". Franco complementou dizendo que, se o atendimento for seguido por medicações que o médico julgar necessárias, ele é, sim, a favor de tratamento precoce.

A fala aconteceu após exibição de um vídeo durante a sessão da comissão em que Franco defendia o chamado tratamento precoce contra a covid-19. "Ao sentir o sintoma, procure um médico, vá a um posto de saúde, vá a uma rede de atenção de saúde e o médico vai realizar o diagnóstico, identificar se você está acometido de covid e vai prescrever os medicamentos que lhe são adequados para o tratamento. E inicie o mais rápidamente possível esse tratamento. Nós temos evidências científicas de eficácia de determinados medicamentos. Aqueles que dizem que não há evidência científica são os verdadeiros negacionistas", falou Franco, no trecho do vídeo destacado na sessão.

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Para ele, o uso de medicamentos off label (que não estão indicados em bula), desde que discutido entre médico e paciente, é válido. O uso de remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina são ineficazes no tratamento, mas preconizado por uma grande rede de médicos pelo País, batizada de "Médicos pela Vida", comandada por Antônio Jordão. Franco disse na resposta que nunca esteve reunido com o especialista.

Gabinete paralelo

Questionado pelo relator  da CPI da Covid, senador Renan Calheiros, se teve contatos com integrantes do suposto “gabinete paralelo”, o coronel Élcio Franco, ex-secretário do Ministério da Saúde, afirmou que lembra ter se encontrado com a médica Nise Yamaguchi por uma ou duas vezes na pasta. A oncologista é defensora do chamado tratamento precoce e participaria do grupo que aconselharia o presidente Jair Bolsonaro de forma extraoficial.

O ex-secretário afirmou que teve contato na pasta também com o empresário Carlos Wizard, que teria passado um mês despachando em Brasília sem ter cargo. Segundo o coronel, o encontro que teve com Wizard foi para tratar de vacinas - o empresário estaria procurando dados para vacinar seus funcionários.

Da lista de nomes citados, Élcio ainda apontou ter tido contato com o deputado federal Osmar Terra, mas para tratar de emendas parlamentares. O parlamentar seria um dos organizadores do "gabinete paralelo".


Confira a sessão: 



DD.

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