Trump marca o fim do mandato com afronta à maior democracia do Ocidente

Ao incitar a invasão do Congresso, o presidente republicano deixa um legado assustador e vergonhoso.

Da redação,

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O ataque dos bárbaros

Ao incitar apoiadores a invadir o Congresso, Donald Trump termina seus dias na Presidência dos Estados Unidos com um legado assustador - e vergonhoso - para a mais vigorosa democracia do Ocidente

De tuíte em tuíte, de comício em comício, Donald Trump passou os últimos dois meses esticando a corda imaginária da eleição que dizia ter conseguido “de lavada” mas que lhe foi roubada por meio de fraudes e manobras espúrias. Todas as acusações e tentativas de ação legal para anular a vitória de Joe Biden ruíram diante dos fatos, mas o presidente persistiu na cruzada, instigando seus apoiadores — que são multidões — a resistir até o fim, com violência, se fosse preciso. Na quarta-feira 6, dia da confirmação do resultado eleitoral no Congresso, Trump subiu o tom: falando a manifestantes em um parque próximo à Casa Branca, bateu seguidamente na tecla do resultado fraudulento, denunciou “traidores” e estimulou a turba a marchar para o Capitólio, de modo a renegar a eleição de novembro. Uma horda virulenta disposta a tudo tomou conta dos solenes salões onde têm assento os representantes do povo na mais sólida democracia do planeta.

Em cenas chocantes, inimagináveis, simultaneamente agressivas e constrangedoras, manifestantes se aproximaram do prédio, escalaram paredes, derrubaram portas e entraram no Capitólio, enfrentando minguada reação da polícia. A insurreição com cheiro de golpe de Estado no país da Constituição exemplar, formulada pelos founding fathers em 1791, símbolo indelével das liberdades individuais e da blindagem das instituições democráticas, escancarou o risco embutido no populismo ao modo Trump, imitado por governantes autoritários mundo afora: sem controle, transborda em desprezo pela ordem estabelecida.

“A tese da fraude martelada por Trump foi absorvida por grupos radicais, e as consequências, como se vê agora, são trágicas”, diz Brian Klaas, professor de política internacional da University College de Londres. Vídeos mostravam manifestantes circulando à vontade pelos corredores do Congresso. Um grupo entrou no plenário do Senado, recém-esvaziado, e um “viking” de peito de fora, com jeitão de figurante do grupo Village People, foi fotografado no pódio da presidência, de onde o detentor do cargo, o vice Mike Pence, escapulira às pressas. Foi como se — numa comparação exagerada, mas didática e necessária — Roma fosse tomada pelos bárbaros. Numa palavra: vergonhoso.

No usualmente bem guardado gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, um homem descansava com o pé na mesa e um cartaz escrito a mão anunciava: “Não vamos recuar”. Agentes de segurança tiveram tempo de levar os deputados e senadores para local seguro, mas, nas galerias, visitantes e funcionários se escondiam sob as poltronas. Houve roubos, depredações e confronto armado. Uma mulher levou um tiro quando entrava por uma janela quebrada e morreu no hospital. A prefeitura decretou toque de recolher, a Guarda Nacional e outras forças foram convocadas e, no fim do dia, um cordão de isolamento cercava o Capitólio. 

Por uma tarde, os Estados Unidos assumiram contornos de república bananeira. Insista-se: foi um dia sombrio para a civilização ocidental. Líderes do mundo todo condenaram a afronta à democracia. O ditador Nicolás Maduro, uma espécie de Trump da esquerda, tripudiou: “A Venezuela expressa sua preocupação com os atos de violência em Washington”.

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Pede pra sair

Bolsonaro volta da farra na praia no Ano Novo e reconhece o óbvio: ele não governa e o País está sem rumo. A crise na Saúde piora, o auxílio emergencial acaba e o desemprego aumenta. A culpa é do presidente , que sempre negou a gravidade da pandemia e jamais cuidou da economia. Ele está levando a Nação a décadas de atraso

Desde a posse de Jair Bolsonaro, a sociedade espera ações concretas para combater os graves problemas nacionais. Em vez disso, o que se viu foi um ataque contínuo à democracia, o desmonte do Estado e um show de incompetência. Mais de dois anos depois, não se vislumbrou nenhuma grande estratégia para a retomada econômica, além das promessas extravagantes de Paulo Guedes. Pior, a pandemia ampliou os desafios e já custou a vida de mais de 200 mil brasileiros. O rombo fiscal vai empobrecer milhões. Tudo isso não é obra do acaso. São consequências das ações do presidente.

Enquanto os brasileiros enfrentaram um fim de ano dramático, preocupados com a crise e isolando-se para evitar a Covid, ele aproveitou um descanso de 17 dias em praias do litoral de Santa Catarina e São Paulo pescando e promovendo aglomerações. Mais uma vez debochou dos cuidados básicos com a doença. Na volta a Brasília, deu seu diagnóstico para a situação: “O Brasil está quebrado. Não consigo fazer nada”. A declaração, feita para seu público preferido, a claque postada no cercadinho do Palácio da Alvorada, é o reconhecimento do seu fracasso.

Dívida explosiva

Além de a economia não ter reagido na atual gestão, a dívida pública explodiu com a pandemia, trazendo dúvidas aos investidores sobre a solvência do País. Há R$ 1,3 trilhão vencendo da dívida pública neste ano e a equipe econômica quer encerrar o ano com um rombo de R$ 247,1 bilhões — o oitavo ano consecutivo no vermelho. Existe pouca confiança sobre a trajetória da dívida e as dúvidas só crescem. Guedes tem reafirmado o compromisso com a disciplina fiscal, mas há pressão no governo pelo abandono do teto de gastos para tocar obras que garantam a reeleição.

Além disso, a popularidade do presidente será afetada pelo fim do auxílio emergencial, que acabou em janeiro. O cenário era insustentável e já se sabia que seriam necessárias mudanças após o pleito municipal. A fala de Bolsonaro, assim, não é uma surpresa. Apenas verbaliza um movimento que era inevitável. Para sobreviver politicamente, ele é empurrado para o aumento dos gastos. Como dispõe de cerca de R$ 100 bilhões de gastos não obrigatórios no Orçamento, ou “fura” o teto, ampliando o déficit, ou arruma mais dinheiro. Guedes apostava na volta da CPMF para isso, mas o mandatário não quis arcar com o ônus de ampliar os impostos. Sobra então o controle dos gastos públicos, mas essa opção também é bloqueada por Bolsonaro, pois não deseja mexer em interesses corporativos. Além disso, a falta de articulação política no Congresso por sua inépcia inviabiliza as reformas.

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Gritos contra o silêncio

As inquietações do nosso tempo na ficção de 20 escritores

Ficção | A máscara

No começo, Lizandra ia com a irmã para uma esquina movimentada no Morumbi, a irmã abria o porta-malas do carro, penduravam uma plaquinha, “máscara R$ 8”, e esperavam. Tinham modelos estampados e lisos, todos de pano, feitos a partir de roupas velhas e tecidos baratos. Quem as costurava era a mãe delas. Lizandra estava com trinta anos, não trabalhava, e a irmã tinha perdido o emprego pouco tempo antes.

“Já pode mergulhar na represa?”, Lizandra perguntava, todos os dias, enquanto aguardava sentada no para-choque do automóvel. Paciente, ou tentando esconder a impaciência, a irmã respondia que por enquanto não, que logo iriam mergulhar. Em Guarapiranga, onde costumavam passar alguns sábados na infância, a mais velha sempre fingia ser a salva-vidas e Liz, era esse seu apelido na família, a que precisava de socorro. Uma vez quase se afogou de verdade, mas a outra a tirou de lá, gritando pelos pais; talvez não se lembre que, em meio aos gritos, a irmã usou a palavra proibida. “Essa retardada quase se afogou”, disse, “essa retardada”, enquanto a mãe dava tapinhas na bochecha de Liz e perguntava se estava tudo bem.

Venderam uma média de quinze máscaras por dia no primeiro mês. Na hora da transação, Lizandra apertava o spray com álcool na máscara diante do cliente e a irmã entregava o produto. Um dia, ela pegou uma nova para si e em dado momento baixou a máscara no pescoço para acender um cigarro. O isqueiro encostou na superfície ainda úmida de álcool, que logo se inflamou, a chama percorreu sua orelha até chegar ao cabelo e ela gritou alto, e enquanto berrava olhava para a irmã, esperando que ela dissesse aquela palavra, porque merecia, porque deveria ter previsto, mas de início a outra ficou muda, demorou um minuto inteiro até pensar em pegar o pano que cobria o banco do motorista e bater, bater, bater até o fogo se extinguir.

Ficção | O coro de gritos

Nunca foi a maior fã de história. Nunca ouvira o grito até quase os 30 anos. A televisão estava ligada e lhe pareceu que alguém apenas dizia, em voz baixa, a letra “a” de forma contínua: aaa. Uma voz baixa fazendo aquecimento vocal na televisão. Falavam de temer. Ela imaginou que fosse o filme de terror que a namorada via. Talvez já tivesse ouvido antes?

Não lia muito jornais. Era 2016. Ao andar na rua, era como se alguém no fundo estivesse em dúvida do que falar. Como se alguém parasse no meio da frase: “eu… ahn…” Um “ahns” prolongado. Irritante. Talvez um chiado quando ela e a namorada foram ao cartório. Talvez o atendente tivesse dito ahn. Ignorou assim como ignorava comediantes preconceituosos quando a televisão estava ligada.

Não tinha Twitter. 2018 começava. Em algumas das entrevistas dos comediantes, o “ahn” ganhava força. Quando esbarrava nas entrevistas — um vídeo enviado por um tio no WhatsApp, de fundo na casa de um primo num churrasco —, fazia força para ouvir o que diziam. O mesmo tom de voz, mas o aaa contínuo. Mas como uma criança, que enquanto você fala, fala ao mesmo tempo e continua falando.

Ela nunca havia participado de grupos no WhatsApp porque só se irritava com a quantidade de “Bom dia”: saía de imediato. Era setembro de 2018. Quando foi buscar a esposa no hospital, o aaa seguiu. A esposa estivera com um casal de amigos esperando um Uber às três da manhã. Foram vistos por dois bêbados — um com uma camiseta do Coringa e outra com a caveira do Justiceiro. Quando a esposa tentou separar, também apanhou. Foi chamada de sapatão de merda. Ela não conseguia olhar a esposa sem ouvir o aaa. Em casa, ao cuidar dos roxos, das feridas, cada “ai!” dela era coberto pelo aaa.

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Sem vacina e sem rumo

O País não tem um plano de imunização, mas vive como se a pandemia estivesse controlada. Bolsonaro: "O Brasil quebrou e não posso fazer nada"


- EUA: Impedido de trapacear nas eleições, Donald Trump incita suas milícias a tentar um golpe de Estado e transforma o império em republiqueta

- Sustentabilidade: Anos de governo Bolsonaro são os piores em alerta de desmatamento na Amazônia. Dados do sistema Deter reforçam o registro de recordes de destruição no bioma, mesmo após operações milionárias do Exército.

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