Prisão de Queiroz leva o escândalo das rachadinhas ao Palácio do Planalto

Destino do governo Bolsonaro passa pelo que o ex-policial, detido numa casa do advogado do presidente, pode revelar.

Da redação,

veja1VEJA

Acharam. E perto demais.

A prisão do ex-policial Fabrício Queiroz numa casa do advogado do presidente Bolsonaro leva o escândalo das rachadinhas à rampa do Palácio do Planalto

O mais potente de todos os golpes desferidos até agora em direção ao presidente da República ocorreu na quinta-feira (18), com a prisão do ex-policial Fabrício Queiroz, suspeito de ser laranja da família Bolsonaro e considerado testemunha-chave na investigação do esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje senador. A prisão, por si só, já representaria um fator de desgaste para o presidente Jair Bolsonaro, que sempre reclamou do uso do caso para desestabilizar o seu governo. Mas ela tem uma agravante: Queiroz foi detido numa casa em Atibaia, no interior de São Paulo, que pertence ao advogado Frederick Wassef, defensor de Flávio no inquérito da rachadinha e detentor de uma procuração assinada pelo presidente lhe dando amplos poderes para representá-lo na Justiça. Ou seja, dependendo do que vier a ser descoberto de agora em diante, ficará cada vez mais difícil estabelecer uma barreira separando Queiroz e suas transações financeiras suspeitas dos ex-­patrões Flávio e Jair Bolsonaro.

Não é exagero dizer que o destino do governo passa pelo que o ex-po­licial pode revelar. Desaparecido desde que explodiu o escândalo das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no fim de 2018, Queiroz virou uma espécie de assombração. A suspeita das autoridades é de que ele recolhia parte dos salários dos funcionários do gabinete de Flávio e repassava os valores ao próprio deputado. As investigações já revelaram que ele movimentou 7 milhões de reais entre 2014 e 2017. Para não deixar rastros, o dinheiro era arrecadado e depositado em espécie.

O Ministério Público também encontrou um repasse de Queiroz para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro (24 000 reais). O presidente, em entrevista, disse que se tratava de pagamento de um empréstimo. Na única vez que se pronunciou sobre o caso, Queiroz disse que ganhou dinheiro comprando e vendendo carros. Depois disso, sumiu do mapa. Não deu mais entrevistas, mudou de endereço, trocou o número dos telefones e o máximo que se sabia dele, revelado por Veja em agosto de 2019, é que estava em São Paulo, submetendo-se a tratamento de um câncer.

A retórica de Bolsonaro: o que revelam os discursos na pandemia

Vem do grego Aristóteles (384 a.C-322 a.C.) a primeira manifestação conhecida da relevância da escolha correta das palavras, no clássico Retórica, no qual estabeleceu os princípios básicos de um recurso humano, demasiadamente humano. Os séculos que se seguiram comprovariam o papel da fala bem encaixada em toda e qualquer situação, mas principalmente quando ela sai da boca de líderes, e mais ainda se os ouvidos que a escutam passam por algum cataclismo — e poucos se comparam à pandemia do novo coronavírus que, com 8,4 milhões de casos confirmados (beirando 1 milhão no Brasil), alcança o infeliz título de a maior crise humanitária do planeta desde a II Guerra Mundial. Impulsionada pela catástrofe, a palavra oral retumba sem parar na internet, caixa de som de extraordinária potência, favorecendo abusos, por um lado, mas permitindo, também, análises aprofundadas do discurso das autoridades. Com o objetivo de melhor compreender o modo de pensar e agir do presidente Jair Bolsonaro, a quem calhou de capitanear o Brasil em meio à tormenta, Veja esmiuçou cinquenta discursos proferidos pelo presidente ao longo de oitenta dias de pandemia, de 12 de março, o marco zero da quarentena nacional, a 30 de maio.

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istoe1ISTOÉ

Terroristas de direita

O Brasil é tomado por grupos criminosos que alimentam o projeto autoritário bolsonarista e passam a afrontar, cada vez com mais violência, os poderes constituídos. À frente deles, a ativista Sara Winter comandou o ataque ao STF, hostilizou ministros da Corte , invadiu o Congresso, foi presa e converteu-se na nova face do extremismo político

Quando o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) foi alvo de uma bateria de fogos de artifício no sábado (13), uma ativista comemorou. Esse foi o maior feito da obscura Sara Winter, pseudônimo de Sara Giromini, à frente do grupo 300 do Brasil. Seria apenas mais um episódio bizarro levado a cabo por personagens pitorescos, que abundam no entorno bolsonarista, não fosse a ameaça concreta que as células extremistas e os grupos subterrâneos representam. Eles podem gerar ações desastrosas para a democracia. E, por isso, o STF está encarando o risco bem a sério. A prisão de Sara foi apenas um passo para desbaratar um esquema criminoso que só agora ganha contornos mais nítidos.

“A gente vai infernizar a tua vida. Vai descobrir os lugares que o senhor frequenta. Vai descobrir tudo da sua vida” Sara Winter, dirigindo-se ao ministro Alexandre de Moraes, do STF

A nova líder da guerrilha bolsonarista, Sara Winter, costumava sair à rua aos 14 anos munida de soco inglês. “A cada ano que passa ela está pior e mais radical”, diz seu irmão Diego Giromini, um lutador de MMA e motorista que mora em São Carlos. “Ela é fria e calculista em todos os seus movimentos na vida.” Segundo ele, Sara é perversa e exibicionista. “Ela integra um movimento político, mas, dentro de sua cabeça, é como se integrasse uma gangue de rua”, diz.

Quando jovem, Sara trancava-se no quarto acompanhada de livros sobre o regime nazista. Aos 15 anos, chegou a tatuar no peito uma cruz de ferro, condecoração militar alemã. Nascida em São Carlos, no interior de São Paulo, abandonou o sobrenome Giromini assim que deixou a casa dos pais, aos 16 anos. Foi prostituta entre os 17 e 20 anos, segundo o irmão — ela só admite dez meses. Winter é uma homenagem a uma socialite inglesa que apoiava o movimento fascista e foi acusada de ser espiã nazista.

Já vai tarde

Abraham Weintraub, que destruiu a Educação no Brasil, já é carta fora do baralho ­— e isso é bom para o País. Ele sabe que há algo de muito podre no reino do Planalto. Em troca disso, ganhou um cargo no Banco Mundial

Venceu o prazo de validade do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e ele caiu na quinta-feira (18). Jair Bolsonaro segurou um pouco a sua demissão porque precisava dar-lhe uma saída honrosa. Weintraub já vai tarde, e ocupará uma vaga no Banco Mundial. O clã Bolsonaro faz isso por gratidão em troca da lealdade que o ex-ministro sempre demonstrou? Não, claro que não. Era muito arriscado defenestrá-lo sem compensá-lo, porque Weintraub sabe que há algo de muito podre no reino do Planalto. E é sabedor do fato graças a sua proximidade com o gabinete do ódio tocado pelos filhos do presidente. Somente por tal motivo a sua despedida foi cozinhada lentamente: Weintraub manteve-se como quem estava de malas prontas, mas sentado sobre elas, esperando o trem da história passar.

Assim, deixa a Esplanada dos Ministérios mas segue para uma boa função. Como ministro, pode-se dizer que Weintraub foi um razoável humorista: quem, a não ser ele, para chamar asseclas de acepipes? Quem, a não ser ele, para transformar o genial escritor Franz Kafka na iguaria árabe Kafta? Mas nem tudo são graças. Weintraub vai embora e vai tarde para aqueles que prezam a área da Educação, simplesmente porque o ministro arrasou com ela feito gafanhoto na lavoura – não restou nada, nem esperança.

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epoca1ÉPOCA

Terra arrasada

Fundos de trilhões de dólares começam a tirar dinheiro do Brasil por causa da tragédia ambiental

Se o investimento do futuro tende a ser guiado pelo respeito à tríade ambiental, social e de governança, o mandato de Jair Bolsonaro parece seguir uma espécie de antimanual da atração do dinheiro. Aos olhos de investidores globais, sobretudo europeus, a negligência com o desmatamento da Amazônia, os ataques frequentes à democracia e, mais recentemente, o descaso com a pandemia do novo coronavírus atropelam toda a cartilha de boas práticas, agrupadas na sigla ASG, um recente jargão do mercado financeiro. A despeito da cantilena pró-mercado de Paulo Guedes e do silêncio da Faria Lima aos desfeitos do governo, as instituições reagem penalizando o Brasil com veemência cada vez maior.

Na últimas semanas, Época conversou com representantes de sete gestoras europeias que já vetaram a compra de ações brasileiras ou mesmo da dívida pública e participaram de mobilizações coletivas para criticar a política ambiental do governo ou pressionar o Congresso em temas sensíveis. Como ironizou um observador, são ativistas ambientais que não abraçam árvores, mas têm argumentos bastante persuasivos — R$ 14 trilhões deles no bolso, mais precisamente.

Embora não faltem razões para críticas em múltiplas esferas, a dimensão ambiental é ainda a que monopoliza as atenções. O ponto de virada na eloquência desses agentes ocorreu no fim do ano passado, depois que queimadas destruíram 42 mil quilômetros quadrados da Amazônia em apenas dois meses. Em um passo sem precedentes, 230 investidores com portfólio de US$ 16,2 trilhões — equivalente a quase nove vezes o PIB do Brasil — emitiram um comunicado conjunto pressionando empresas investidas a implementar políticas contra o desmatamento em suas cadeias de fornecedores.

As lições da reabertura no exterior para o Brasil

Países como a Nova Zelândia e a China são bons exemplos de relaxamento da quarentena — e os dois casos são bem diferentes do nosso

Desde o estouro da pandemia do novo coronavírus, poucos países trilharam caminhos mais opostos do que Brasil e Nova Zelândia. Foi assim logo no início, quando o governo neozelandês, mesmo tendo poucos casos, decretou um lockdown radical que não permitia nem a circulação de entregadores de comida. E continua sendo muito distinto do caso brasileiro no período de relaxamento da quarentena.

No dia 8 de junho, enquanto o Brasil confirmava cerca de 20 mil novas infecções e quase 900 óbitos em 24 horas, o governo da primeira-ministra Jacinda Ardern, de apenas 39 anos, anunciava a erradicação da covid-19. Ardern aproveitou a oportunidade para dizer que o país avançaria para a última fase de seu plano de contenção do vírus. A partir daquele momento, todos poderiam retornar sem restrições ao trabalho, a escolas, fazer esportes e viagens domésticas e se reunir com quantas pessoas quisessem. As exceções eram as pessoas vindas do exterior, que precisariam ficar duas semanas em quarentena.

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carta1CARTA CAPITAL

O cerco se fecha

Acharam o Queiroz: A prisão do ex-PM em São Paulo aumenta a pressão sobre Bolsonaro e seis filhos. A rachadinha é só um ponto da investigação.

Golpe no golpismo: O STF resolve dar um basta nas constantes ameaças das milícias bolsonaristas, estridentes, mas cada vez menos representativas.

Cronistas da tragicomédia: Aroeira, Adnet, Duvivier, Laerte e outros falam do papel do humor em tempos sombrios.

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Tags: Carta Capital Época Istoé revistas semanais Veja
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