Medo do coronavírus faz obscurantismo abrir espaço para ciência

Veja mostra que as pessoas têm procurado informações em fontes confiáveis e ignorado 'fake news'.

Da redação,

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Um efeito positivo: na pandemia, o obscurantismo começa a perder terreno
O discurso de ódio e das 'fake news' vem cedendo lugar a decisões baseadas no bom senso, no equilíbrio e na ciência.

Ainda é cedo para contabilizar o impacto da Covid-19, mas ela também tem potencial para proporcionar mudanças estruturais profundas. As convicções mais extremas e radicais que correm sérios riscos de ser atingidas em cheio pelo terremoto do coronavírus. Em meio ao lamentável rastro de destruição provocado pela Covid-19, é possível notar os primeiros sinais de um efeito colateral positivo. Ele se dá na formação de uma onda com potencial de solapar uma cultura de poder dominante até aqui na qual vicejava uma certa ignorância orgulhosa, sempre disposta a confrontar a ciência, a razão e a política de convergência.

A casa das 1 000 mortes e os milhares de pessoas infectadas registrados começam a impor um choque de realidade que empareda e desconstrói o modus operandi do bolsonarismo, que cresceu buscando o conflito, o radicalismo, a construção de verdades imaginárias e a deslegitimação das instituições, da democracia e dos grupos que não rezam por sua cartilha. Por outro lado, o temor real da doença desperta sentidos de preservação que tendem a empurrar cada vez mais as pessoas em direção ao pragmatismo, à moderação, ao conhecimento e à busca de consensos.

Como a cloroquina se transformou em instrumento de guerra ideológica
Lá na frente, quando o olhar retroativo autorizar alguma razão, quando a pandemia de coronavírus passar, o mundo lembrará com espanto de um tempo, o nosso, durante o qual um medicamento virou droga a serviço da ideologia — embate que, no Brasil, se disseminou como vírus. A cloroquina (e sua versão menos tóxica, a hidroxicloroquina), comumente usada no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide, e com supostos bons resultados em casos graves de Covid-19, é o nome da substância que alimentou os maus humores. Direto ao ponto, porque a contenda partidária atual não oferece sutilezas, infelizmente: a defesa da cloroquina virou coisa de direita radical, extremada; combatê-la é obrigação da esquerda. Assim está posto o jogo, por mais absurdo que seja.

Luto pela metade: o vírus extingue ritos e torna a despedida mais dolorosa
Isolado em um leito de UTI, cuidado por gente de quem não vê o rosto, o paciente contaminado pelo novo coronavírus dá seu último suspiro longe de todas as pessoas que ama e conhece. O corpo envolvido em plástico, ainda vestido com a bata hospitalar, vai para o necrotério e de lá, em caixão lacrado, segue para o cemitério. Um ou outro parente próximo acompanha o enterro de longe. Não há despedida, não há ritual, não há velório. Presa em casa, afastada do ambiente de trabalho que poderia preencher seus pensamentos, impedida de se distrair na academia, no cinema, em uma viagem, a família mergulha em um luto que a sensação de irrealidade torna ainda mais doído. A pandemia que esmaga o planeta e corta o convívio pessoal tem provocado enormes transformações no mundo tal qual o conhecíamos, e esta é uma das mais pungentes: a perda de pessoas queridas, sempre dilacerante, ter de ser absorvida sem os ritos que confortam e ajudam a atravessar os momentos que se seguem à morte.

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istoeIstoé

Mandetta venceu
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tornou-se o pivô da maior crise já enfrentada pelo governo Bolsonaro. O presidente tentou demiti-lo na segunda-feira (6). Mas, ao invés de sair, ele recebeu o apoio do Congresso, do Judiciário, do núcleo militar do Planalto e dos principais ministros. Num cordão de isolamento histórico que redesenhou o quadro político em Brasília, saiu fortalecido e o presidente perdeu ainda mais a sustentabilidade.

Mandetta saiu do episódio fortalecido. Conquistou em 24 horas quase 100 mil seguidores nas redes sociais. Com a popularidade em alta e comandando a maior batalha que o País enfrenta em muitos anos, ele pode ambicionar um novo curso para a carreira política se não ceder à ação irresponsável de Bolsonaro — até sonhar com a Presidência. Será algo bem maior do que a prefeitura de Campo Grande (MS), que ambicionava, ou a Secretaria da Saúde de Goiás, oferecida pelo seu colega do DEM, o governador Ronaldo Caiado. Mandetta protagonizou uma reviravolta.

A xenofobia contra os chineses
Postagens ofensivas de ministros do governo e declarações agressivas dos filhos do presidente expõem a orientação ideológica errática da diplomacia brasileira: relações comerciais com a China estão em risco.

O viés ideológico que caracteriza a política externa brasileira desde o início do governo Bolsonaro dá mostras de que a insensatez dos responsáveis pela nossa diplomacia coloca em risco os negócios do País no exterior, sobretudo com a China, nosso maior parceiro comercial. A mais recente barbeiragem das autoridades brasileiras em relação ao país asiático partiu do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e pode levar o Brasil a perder milhões de dólares. De forma imprudente, Weintraub ridicularizou os chineses.

O governo chinês reagiu com contundência, dizendo que as declarações do ministro eram “absurdas e desprezíveis, com cunho fortemente racista”. Para a Embaixada da China no Brasil, esse tipo de comentário, que tem se tornado frequente por parte das autoridades brasileiras, “tem causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”. Traduzindo a mensagem diplomática: o Brasil pode sair prejudicado. Afinal, essa postura agressiva em relação aos chineses não se limita ao ministro, que mal sabe escrever em português.

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epocaÉpoca

Depois da tempestade: o que será o amanhã depois da pandemia
Uma nanopartícula, o novo coronavírus, provocou mudanças abissais e tectônicas na sociedade, no trabalho, no amor e até no poder dos governos. Elas vieram para ficar.

Que o novo coronavírus denominado sars-CoV-2, tenha se transformado no maior inimigo de nossa espécie e afetado tudo que fazemos, temos e somos, já seria o bastante para pôr no devido lugar qualquer delírio de grandeza ou onipotência a turvar o pensamento humano. Que tenha contribuído para exacerbar divisões, insuflar medos e ressuscitar fantasmas, não surpreende. É assim que tentamos nos defender do risco representado pelo desconhecido — e nosso conhecimento real sobre a ameaça ainda é hoje quase tão diminuto quanto seu próprio tamanho. Diante do incerto, cada um corre para sua própria zona de conforto mental.

O cientista elabora teorias sobre a melhor forma de derrotar o inimigo, escondidas sob o léxico acadêmico, impenetrável ao comum dos mortais. O mercador de ilusões se põe a trombetear soluções milagrosas, alardeia remédios em fase experimental. O mercado financeiro especula com o dinheiro alheio. O economista, imbuído de seu idioma também peculiar, se arroga a tarefa de reduzir a destruição de riqueza, proclama elaborar um modo “justo” de distribuir as perdas. O empresário de sucesso, tão rico quanto ignorante, procura negar ou evitar os fatos, enquanto os cadáveres se amontoam nos cemitérios. O banqueiro liberal se esconde na barra da saia da mãe — e corre para pedir ajuda ao Estado. O governo abandona toda a fantasia de austeridade, mas não tem ideia de onde nem de como gastar. O político demagogo desdenha a ciência e aponta o dedo a seus bandidos de estimação. O candidato a autocrata aproveita para tentar expandir seu poder. O religioso roga aos céus por uma saída. O ateu se desespera com a perspectiva do fim. O artista entra em parafuso. O filósofo não sabe o que pensar. Todos perdidos, inconformados, perplexos, como a ecoar o refrão de canções que já se tornaram lugares-comuns. Nada será como antes amanhã. Será o fim do mundo que conhecemos — mas, não, não dá para se sentir nada bem.

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Este posto não funciona
Na contramão do Mundo, as medidas emergenciais do ministro da Economia, Paulo Guedes, são insuficientes, privilegiam os bancos e não alcançam milhões de trabalhadores e pequenas empresas… Uma maneira de sabotar o isolamento social.

A que preço?
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fica no cargo, em uma aparente derrota do presidente Bolsonaro, mas topa flexibilizar as regras de quarentena, conforme a vontade do ex-capitão. Enquanto isso, o lobby da cloroquina ganha fôlego e os aloprados do governo arrumam nova confusão com a China.

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