Fracasso do governo na pandemia acentua a urgência por vacinação e reformas

Epicentro mundial da covid-19, Brasil enfrenta crise na saúde e na economia: bate recordes diários de mortes e, com falta de investimentos, despenca no ranking dos maiores do planeta.

Da redação,

Veja-capaVEJA

Doente e mais pobre

Na saúde, o país bate recordes diários de mortes pela covid-19, tornando-se o epicentro mundial da pandemia. Na economia, o dólar alto e a falta de investimentos nos fazem despencar no ranking de maiores nações do planeta. Diante de tal quadro, só há uma receita: vacinação em massa (rápida) e aprovação de mais reformas.

O Brasil vive, triste e inelutavelmente, uma dupla pandemia — a do novo coronavírus, multiplicada pela atávica postura negacionista do governo do presidente Jair Bolsonaro, e a econômica, alimentada pela compulsória freada das atividades, em quarentena, atalho para que o país despontasse em inglória 12ª posição no ranking das nações mais ricas do mundo em 2020, e tudo indica que poderá cair ainda mais em 2021. Nos últimos doze meses, a crise sanitária impôs perdas imensas. Há, por trás da frieza da estatística, dor e sofrimento no cotidiano dos lares, e haveria como reduzi-­los. Bastaria bom senso, racionalidade e lógica na lida com o vírus.

Covid-19 e a Vacinação

Na terça-feira (16), um ano depois da primeira morte, o país bateu um melancólico recorde: foram 2 841 mortes em apenas 24 horas, o equivalente a duas por minuto. No total, são mais de 282 000 óbitos e 12 milhões de casos. Não se trata, definitivamente, como previu Bolsonaro, de uma “gripezinha”.

Desde o dia 22 de fevereiro, a média móvel de mortos, calculada a partir da ocorrência dos sete dias anteriores, não para de crescer — chegou a 1 965. O país acumula 10% das mortes notificadas em todo o mundo, mas tem apenas 3% da população global. Na semana passada, foi responsável por 20% das mortes pelo vírus no planeta. Segundo levantamento da Fundação Oswaldo Cruz, vive-se o “maior colapso sanitário e hospitalar da história”. O Distrito Federal e 24 estados estão com taxas de ocupação de leitos de UTI iguais ou superiores a 80% (quinze têm média igual ou superior a 90%). Salvam-se apenas Rio de Janeiro e Roraima, e no limite.

Leia mais em Veja.

Istoé-capa1ISTOÉ

O inominável

Bolsonaro enfrenta uma tempestade perfeita ao levar caos à Saúde, desestabilizar a economia e patrocinar o fim da Lava Jato. A escalada assustadora  de mortos (quase 300 mil), provocada por sua negligência, o transforma no mais perverso mandatário da história. Ele perdeu as condições de governabilidade

Até recentemente, Bolsonaro era o favorito para as próximas eleições. Podia se dar ao luxo de animar os bolsonaristas radicais com suas frases estapafúrdias sem medir as consequências, contando que teria um lugar garantido no segundo turno e, dali, a uma reeleição segura. Tudo mudou. O agravamento da pandemia fez despencar os índices de popularidade, mostrando que apenas a aceleração na vacinação poderá evitar que a tragédia na Saúde fique associada diretamente a ele.

Segundo o Datafolha, 56% dos brasileiros já consideram que o presidente é incapaz de liderar o País e 54%, que sua atuação na pandemia foi ruim ou péssima — um recorde. O Centrão, que Bolsonaro levou à direção do Congresso com farta distribuição de emendas e cargos, já sente o cheiro de queimado e tenta assumir o controle do governo, do Orçamento à gestão da Saúde. Empresários estão decepcionados com a intervenção na Petrobras e com a PEC Emergencial, que significaram na prática o enterro melancólico da agenda reformista.

Por fim, a volta de Lula ao cenário já provoca um rearranjo das forças políticas que, seja qual for a configuração final, desfavorece o presidente. Bolsonaro está cada vez mais ameaçado e sem sustentação política.

O Brasil assiste diariamente a recordes de óbitos, e o presidente continua a reboque da crise. Na última semana, 21% das mortes por coronavírus no mundo ocorreram no Brasil, segundo a OMS. O Brasil virou o epicentro global da covid. Lidera o número de novas contaminações, na contramão do mundo.

De 196 nações da ONU, 108 já barram a entrada de brasileiros. O País vive o maior colapso sanitário e hospitalar da história, segundo a Fiocruz. Mesmo assim, o presidente apoiou caravanas contra o lockdown no domingo (14), em São Paulo, Rio, Brasília e outras cidades. Manifestantes voltaram a pedir a intervenção militar e defenderam remédios sem comprovação científica. “Logicamente eu fiquei feliz, o Brasil todo gostou, mostra que o povo está vivo”, declarou Bolsonaro sobre os atos. Nesse dia, o Brasil ultrapassou 278 mil óbitos.

Ao invés de projetar a força do presidente, cada vez menor, essas manifestações funcionaram como um mecanismo de proteção. Estamparam que o presidente está cada vez mais isolado com sua claque. A demissão de Eduardo Pazuello, que foi exigida pelo Centrão e tinha o objetivo de circunscrever o problema ao general, apenas deixou claro que a política bolsonarista na Saúde não vai mudar. A única transformação prevista é a aceleração da vacinação, mas a falta de imunizantes — por culpa exclusiva de Bolsonaro — não resolverá o problema de imagem do governo.

Diante da resistência do Executivo em assumir suas responsabilidades, os gestores regionais e os outros Poderes tentam tomar as rédeas da situação. Os governadores e prefeitos aceleraram as medidas de isolamento e procuram comprar vacinas, driblando a inação federal. Reagem porque estão lidando com a tragédia em seus próprios estados — e a maioria já à beira do colapso.

Leia mais em Istoé.

poca-capa1ÉPOCA

União instável

O que a queda de Pazuello revela  sobre o poder do Centrão e a frágil relação entre Bolsonaro e sua base aliada

Na tarde do último sábado (13), que encerrou mais uma semana trágica de recordes no número de mortos pela covid-19 no Brasil, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), adentrou o Palácio do Planalto como porta-voz de um Congresso ávido pela cabeça do ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello. O recado a ser dado ao governo havia sido combinado com líderes partidários horas antes na residência oficial do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM).

Três argumentos do deputado foram apresentados a Jair Bolsonaro: defender Pazuello tornara-se insustentável porque, dos 38 milhões de doses de vacinas prometidas para março, apenas 10% haviam sido entregues pelo Ministério da Saúde; não seria mais possível conter a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde diante de tantos fracassos na gestão da pasta; era um absurdo ele, Lira, ter de exercer o papel do Executivo ao enviar uma carta para a embaixada chinesa pedindo um “olhar solidário” do país que produz a matéria-prima dos imunizantes do Instituto Butantan e da Fiocruz.

O presidente da Câmara saiu do encontro convicto de que emplacara em Brasília mais uma vitória de seu grupo político. O combinado passava pela indicação da cardiologista Ludhmila Hajjar para o lugar de Pazuello nos dias seguintes. A médica havia atendido Lira, além de outros políticos, e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) quando enfrentaram a covid-19. Após a nomeação, a expectativa dos partidos da base do governo era de ocupação de cargos do segundo e terceiro escalão da pasta, tomada por militares ligados a Eduardo Pazuello.

Em 24 horas, o acordo com Lira foi implodido. Bolsonaro implicou com a cardiologista ao tomar conhecimento de um áudio em que ela o chamava de “psicopata”. Hajjar também implicou com o presidente depois de se ver bombardeada nas redes sociais pelas hordas digitais bolsonaristas. Indo na contramão de Lira, que já havia postado elogios à cardiologista no Twitter como se sua nomeação fosse um fato consumado, o Planalto acabou anunciando na segunda-feira (15), o nome de outro cardiologista, o médico Marcelo Queiroga, para o Ministério da Saúde.

O centrão não ficou de fora da negociação, já que o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, deu aval à nova escolha. Embora Lira esteja em silêncio desde que a escolha foi feita, Época apurou que ele ficou irritado com o episódio a ponto de afirmar a interlocutores que retaliações ao governo de Bolsonaro virão pela frente. Nogueira teve de pedir ajuda a aliados para acalmar o correligionário.

Leia mais em Época.

Carta-Capital-capa1CARTA CAPITAL

Campeão mundial

O Brasil é recordista de mortes por covid. Na saúde sai um general, entra um médico, nada muda

- Glenn Greenwald: O extraordinário jornalista que desvendou a conspiração urdida por Moro e Dallagnol para acabar com Lula e seu partido junta-se a nós graças às afinidades eletivas

- Educação: Demora nas vacinas contradiz urgência da volta às aulas, diz ex-ministra da educação do Equador - Rosa María Torres aponta problema educacionais que precisam ser enfrentados no pós-pandemia: 'Estamos todos aprendendo, ou deveríamos estar'

Leia mais em Carta Capital.

Tags: Carta Capital Época Istoé revistas semanais Veja
A+ A-