Do impacto da pandemia à esperança pela vacina: um ano para entrar na história

Com uma intensidade inédita, a covid-19 fez ruir as economias e mudou relações de trabalho.

Da redação,

veja3VEJA

2020 já vai tarde

No ano que entrou para a história por causa da pandemia, não há muito a celebrar - mas ao menos 2021 começa com a esperança luminosa da vacina, atalho para a retomada da vida normal

O tradicional Dicionário Oxford não conseguiu escolher a palavra do ano. Entre “coronavírus”, lockdown e “reabertura”, e mais algumas que entraram na seleção final, os lexicógrafos decidiram ficar com todas. Um único termo não faria jus a um ano tão conturbado como foi 2020. Em praticamente todos os lugares do mundo, a rotina foi alterada e o modo de vida mudou. Algumas mudanças serão passageiras e outras talvez tenham vindo para ficar, mas só saberemos o que é o “novo normal” — outra expressão reverberada à exaustão — no decorrer da próxima década.

No fim de fevereiro, bastou a última escola de samba terminar o desfile para a crise já se apresentar na avenida: saíram mestre-sala e porta-bandeira, entraram álcool em gel e máscara — não de Carnaval, infelizmente. Antes utilizado quase que exclusivamente por profissionais da saúde, o acessório passou a ser exigido de todos os frequentadores de espaços públicos, inclusive sob pena de multa. Para quem está esperando pela vacina para se livrar dele, aconselha-se aguardar mais um pouco. Mesmo com a imunização, é possível que a recomendação de uso persista por um bom tempo. À parte o exagero da comparação, a gripe espanhola, que eclodiu em 1918, só desapareceu três anos depois — sem vacina, é verdade.

Na sequência dos acontecimentos, países começaram a levantar barreiras em portos e aeroportos como forma de evitar a propagação da covid-19. Os aviões, no entanto, logo voltaram aos céus com novas regras de viagem. Além de exigir máscara, as companhias implementaram protocolos de segurança, como medição de temperatura e exigência de atestados médicos, além de higienização reforçada de aeronaves. Essas medidas devem ser mantidas no decorrer de 2021. Quanto aos cruzeiros marítimos, é melhor não contar com eles antes do verão de 2022.

Mal o ano letivo havia começado, e as escolas e universidades foram forçadas a paralisar as aulas. Algumas retomaram depois, outras não, e muitas adotaram o ensino a distância, principalmente as particulares. Uma pesquisa conduzida pela Catho Educação apontou um aumento de 45% no interesse por cursos remotos já no começo da pandemia. Ao que tudo indica, o recurso sairá fortalecido da crise. Em julho, enquanto cada instituição de ensino tomava um rumo diferente, restaurantes e bares voltaram à ativa em alguns estados, ainda que com exigência de espaçamento entre grupos, horário de funcionamento controlado e número limitado de clientes. Estabelecimentos não conseguem sobreviver assim por muito tempo. Por isso, provavelmente os donos nunca mais vão querer ouvir falar de pandemia, mas o álcool em gel continuará nas mesas.

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istoe3ISTOÉ

2020 - Um ano em luto

Quase duzentas mil vidas foram ceifadas pela covid no País. É uma tragédia que jamais será esquecida. Mas há uma luz no fim do túnel: a vacina já é uma realidade no mundo e em breve será aplicada no Brasil. A expectativa é de alívio e dias melhores. A angústia está acabando

Quando se cavam covas e mais covas com a certeza de que corpos vão lotá-las é porque se está em uma guerra. E foi assim ao longo de 2020: uma cruel guerra travada contra o vírus da Covid-19. Covas para mortes em série, covas para mortes idênticas, covas para mortes pasteurizadas, covas para morte besta — rasas e pequenas e escuras covas para gente morta, gente a quem, agora, já não fazia diferença se tinha família grande, pequena ou se nem a possuía em vida. Motivo: para a esmagadora maioria dos que partiram pelo coronavírus não houve despedida, nem velório, nem antífonas porque seria inevitável a infecção. Houve, sim, choro coletivo, porque só os seres de coração petrificado (e eles existem) conseguiram se manter impassíveis. Aos trancos e barrancos, o mundo dos vivos teve de se acostumar com a vida solitária — e só restava chorar pela solitária morte que ia acontecendo em um alucinante ritmo. Hoje, quando esse texto está sendo escrito, é quinta-feira, 17 de dezembro. Quantas pessoas morreram em todo o mundo pela Covid até essa data? É o mesmo que indagar: até aqui, quantas covas abrigam os que faleceram de Covid no planeta? Resposta: 1.652.906. Esse era, então, o número total de valas do vírus.

Faça-se um corte, do mundo para o Brasil, do Brasil para a cidade de São Paulo, da cidade para um modesto bairro da zona leste e, nele, para um cemitério: o de Vila Formosa, o maior da América Latina. A mídia nacional e estrangeira expuseram a imagem aérea de valas abertas na terra seca. Era maio. Chega-se a dezembro, ao mesmo dia 17, com 183.735 óbitos no País. E a morte, em todos os cantos, seguia na espreita. Para que se lembrassem da dor e sofrimento em enterros sem adeus, cruzes foram fincadas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em memória às vítimas. Também correu o planeta fotos de outras terríveis situações, como, por exemplo, na Itália. Atingiu-se um ponto no qual ou se morria nas ruas ou se morria em casa, tal a lotação hospitalar. Vizinho sentia cheiro do vizinho morto, nas ruelas cadáveres foram empilhados. Os veículos frigoríficos já não davam conta de recolher as vítimas fatais. E ela, lá, espreitando em sua forma de vírus. A Itália fechou o ano com cerca de setenta mil mortos. E, em forma de vírus, ela, lá, espreitando.

Volte-se, aqui, ao mundo de forma geral. Calejados coveiros repetiam cenas de choro. Coveiro chorando ao enterrar morto? Sim, senhor, coveiro chorando porque, até então, por mais triste que fosse, a morte embutia relativa naturalidade. Com a pandemia, não. Passou a ser antiestética. Cabisbaixos coveiros rezavam baixinho nos enterramentos, vimos repetidamente essa cena. Eles foram golpeados na emoção; e milhares, nos pulmões.

Trabalham com precários instrumentos de proteção individual. Morrem de Covid-19. Nesse ponto, foi a história que copiou a si mesma, replicou-se: em meio à pandemia do coronavírus repetiram-se episódios de 1918, quando outra pandemia, a da gripe espanhola, matou setenta milhões de pessoas na face da Terra. À época, foi tanta a morte de coveiros que gente das mais diversas profissões passou a ser convocada para substituí-los. Em 2020, muitos coveiros sepultaram seus colegas de trabalho. É muita dor. E, cá no Brasil, em meio a isso, o presidente Jair Bolsonaro desvalorizava, como desvaloriza tudo aquilo que frequenta a sua boca, essa humilde profissão.

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epoca3ÉPOCA

Dossiê 2021 - Reconstruir o futuro

Os avanços tecnológicos forçados pela pandemia; o imperativo da agenda ambiental na era Biden; as razões para não temer uma onda de reinfecção; as lições para evitar outro ano perdido nas escolas

Desde o dia 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde declarou a Covid-19 oficialmente uma pandemia, as peças do dominó começaram a cair com uma velocidade comparável à da propagação do coronavírus. O mundo parou como se tivessem desligado um interruptor e, com ele, um sistema econômico global interligado e interdependente, construído ao longo de décadas.

A expectativa é que a economia global encolha 4%, a mais profunda recessão em 75 anos. As consequências serão sentidas por muitos anos nas economias nacionais e também pelas empresas e pelos trabalhadores, os elos mais importantes dessa cadeia. Mas houve alguns pontos positivos. O principal deles é a aceleração da transformação digital.

A internet nunca teve um papel tão central em nossa vida. As compras, o trabalho, os encontros com parentes e amigos, tudo transformou-se em pacotes de bits viajando pela rede. Com a vacina no horizonte, a vida vai aos poucos voltar ao normal — mas ela será um pouco diferente do que conhecíamos.

Pode ser difícil pensar em vencedores e perdedores em uma pandemia que já infectou 77,5 milhões de pessoas e causou mais de 1,7 milhão de mortes, mas desde os primeiros dias de lockdown estava claro: quem se preparou para essa vida digital — ou teve o luxo de ser preparado — estará em vantagem quando o planeta decretar vitória sobre o vírus.

Os economistas olham para os gráficos das grandes crises econômicas e tentam enxergar letras. O cenário mais otimista é o “V”, ou seja, uma queda brusca seguida de uma recuperação igualmente rápida. Outra possibilidade é um retorno em forma de “U”, com um repique um pouco mais demorado.

Infelizmente, os sinais apontam, cada vez mais, para uma letra “K”. A perna superior indica as grandes companhias, aquelas que fazem parte da economia digital, e também a parcela da população mais rica e com mais educação formal. A perna inferior representa as pequenas e médias empresas e os trabalhadores menos qualificados. “A pandemia colocou a desigualdade em primeiro plano, e isso vale também para as empresas”, disse Ned Smith, professor da Kellogg School of Management, uma das mais prestigiosas escolas de administração de empresas dos Estados Unidos. “As companhias sem acesso ao capital e à infraestrutura necessários perderam semanas, às vezes meses, para fazer os ajustes exigidos.”

Fazer compras pela internet, algo que era eventual para muita gente, tornou-se questão de sobrevivência. As lojas puramente virtuais e os varejistas tradicionais que estavam prontos para continuar atendendo on-line registraram um crescimento vertiginoso nos negócios. Considere a Amazon, gigante mundial do comércio eletrônico. As vendas da empresa no terceiro trimestre deste ano aumentaram 37% em relação ao mesmo período do ano passado.

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carta3CARTA CAPITAL

2020 - o ano em que perdemos contato

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