Confira os desafios dos estados do Brasil que começam a flexibilizar a quarentena

Mesmo com altos números de casos e mortes, SP, RJ e outras regiões aumentam a expectativa de que a vida possa, enfim, normalizar-se.

Da redação,

VEJAVEJA

Uma delicada reabertura

Mesmo com altos números de casos e mortes, SP, Rio e outros estados iniciam uma flexibilização da quarentena, aumentando a expectativa de que a vida possa, enfim, começar a se normalizar

Desde o começo da crise sanitária, grande parte da atenção do Brasil está voltada para o que acontece em São Paulo. A capital do estado serviu como a porta de entrada do coronavírus no país, quando um homem de 61 anos, vindo da região da Lombardia, na Itália, acusou os sintomas, procurou o hospital Albert Einstein e recebeu o primeiro diagnóstico de Covid-19. Um mês antes, com base no que já ocorria fora do país, o governador João Doria (PSDB) começou a formar um comitê de gestão prevendo a crise que fatalmente chegaria por aqui. Em março, São Paulo foi um dos primeiros estados do país a adotar a quarentena com o objetivo de tentar conter a velocidade de expansão do vírus e ganhar tempo para preparar o sistema de saúde a fim de evitar um colapso, e acaba de anunciar parceria para a fabricação da primeira vacina no país. Passados três meses, continua sendo o epicentro da doença em território nacional, concentrando 25% das mortes do país. Mas essa participação chegou a ser de 88% no início da crise. O índice de ocupação das UTIs, que ficou perto de 90% no fim de maio, encontra-se hoje em torno de 70%. Outro dado animador: a taxa de contágio da Covid-19 caiu de quase seis pessoas para menos de duas depois que medidas de distanciamento social foram adotadas.

Na última quarta (10), os olhares se viraram mais uma vez para os paulistas, quando o estado passou a fazer parte de um movimento do país de uma retomada cautelosa que abriu a esperança de que a vida possa começar a se normalizar em um futuro não muito distante. Complexa mesmo em países com muito mais recursos, essa reabertura gradual ganha contornos ainda mais delicados no Brasil. Ao contrário das nações do exterior, que só entraram nessa fase com a queda nas estatísticas, São Paulo deu o passo com números ainda altos de registros da doença. No mesmo dia em que liberou a abertura do comércio de rua e de shoppings em algumas cidades, o estado registrou pelo segundo dia seguido o número mais alto de óbitos (340).

Coronavírus: as consequências do apagão estatístico do governo

A tentativa de mudar a metodologia de contagem de vítimas da covid-19 aumentou ainda mais a confusão de informações relacionadas à doença no País

A informação é uma das armas mais preciosas de um governo no combate a uma pandemia — ajuda a organizar as forças necessárias para vencer o inimigo, como a distribuição de recursos e a definição de prioridades. Nesse aspecto, o Brasil está sem poder de fogo desde o início da crise. Há evidências robustas de uma grande subnotificação devido ao baixo número de exames realizados por aqui (apenas 6 400 a cada 1 milhão de brasileiros foram testados, índice dez vezes menor que o dos Estados Unidos). De acordo com os especialistas, há duas vezes mais casos que os anunciados oficialmente, no mínimo. Na direção contrária, o presidente e sua tropa lançaram a teoria conspiratória de que estados inflam de propósito as estatísticas para desestabilizar a gestão de Jair Bolsonaro, uma sandice completa.

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ISTOEISTOÉ

Manipulações e ocultações - a nota tática do governo

Repetindo a prática de regimes autoritários, Bolsonaro inaugura a fase de maquiagem dos números para falsear a realidade, sem o mínimo pudor e ao espanto do mundo, chocado com o retrocesso no País, ele vai desprezando vidas e a saúde. A democracia depende da transparência de informações

Os militares que povoam a pasta da Saúde, comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello, pressionaram os técnicos a maquiar os números da pandemia. A pressão também chegou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que produz relatórios para o governo. A desinformação começou na apresentação cada vez mais tardia dos dados, de forma a evitar o uso durante os telejornais noturnos — “acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente. E se agravaou na sexta-feira, 5, quando o governo passou a alterar a forma de apresentação dos números. Foi uma ordem do presidente, que determinou que a cifra não deveria exceder os 1.000 óbitos diários — esse montante se aproximava de 1,5 mil. O Brasil já superou a marca de 40 mil mortes e 775 mil casos confirmados, e assumiu a liderança mundial em número de fatalidades diárias, superando EUA e Reino Unido. O novo método usou uma sugestão feita pelo empresário Luciano Hang, um bolsonarista investigado pela Polícia Federal no inquérito das Fake News.

A maquiagem consistia em registrar apenas as mortes do período, eliminando os óbitos que estavam pendentes de checagem. Além de impedir o acompanhamento da evolução diária da doença, o truque contábil contraria a norma adotada em praticamente todos os países. Os números acumulados de contágios e mortes, assim como as taxas de infecção e letalidade pela média populacional, também sumiram do boletim oficial. No domingo, 7, usando os novos critérios, o Ministério da Saúde conseguiu reduzir o número de óbitos em 24h de 1.382 para 525.

Essa pedalada na saúde pública chocou os especialistas e foi denunciada na imprensa mundial. Lembrou um dos períodos mais sombrios do governo Emílio Garrastazu Médici, em 1974, quando a ditadura militar censurou as informações sobre uma epidemia de meningite. Como reação, os principais jornais e sites noticiosos brasileiros formaram um consórcio para compilar dados das secretarias estaduais e divulgar dados confiáveis diariamente.

Senhor das armas

O deputado Eduardo Bolsonaro transformou-se em lobista para a instalação de uma nova fábrica de pistolas no Brasil, criando atritos com o Exército, que reclama da interferência política do filho do presidente em um assunto de competência exclusiva dos militares

O filho 03 do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, é tão fissurado em armas que promoveu uma festa em sua casa no Rio de Janeiro para comemorar a chegada de seu primeiro filho com a psicóloga Heloísa Wolf e, para saber se o bebê será menino ou menina, estendeu um varal com bexigas azuis e cor de rosa no quintal e disparou tiros nos balões com uma poderosa espingarda, apesar de estar cercado por inúmeras crianças. Explodiu uma bola rosa. Por sorte, ninguém saiu ferido da brincadeira de mau gosto. A relação de Eduardo com armamentos é tão intensa, quase que umbilical, que ele acabou virando garoto-propaganda da fabricante de pistolas e fuzis SIG Sauer, com sede na Alemanha e filial nos Estados Unidos, e está fazendo um gigantesco lobby para que essa empresa instale uma fábrica de armamentos no Brasil. Ocorre que a normatização do setor é feita pelo Exército e os militares não estão gostando nem um pouco dessa ingerência do filho do presidente.

O lobby no Brasil não é legalizado e sua prática sempre levanta suspeitas de favorecimento político. Até porque, a nova fábrica só poderá ser instalada no País com o consentimento dos militares. Exatamente por isso, o deputado procura viabilizar uma parceria da empresa alemã com a Indústria de Materiais Bélicos do Brasil (Imbel), uma estatal ligada ao Exército e que necessita de subsídios do governo da ordem de R$ 152 milhões anuais para sobreviver.

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EPOCAÉPOCA

Os aprendizados com a pandemia na visão de nove pensadores

A convite de Época, eles refletem sobre as transformações que estamos vivendo e seus desdobramentos em escala global

“Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. E você, o que faz?” A tirada bem-humorada e atribuída ao economista britânico John Maynard Keynes costuma ser citada para ressaltar a importância de basear um ponto de vista em evidências. Esse compromisso com a busca da verdade ganhou uma nova dimensão em 2020, ano para sempre marcado como o da primeira pandemia globalizada. Os fatos nunca mudaram tanto e tão rapidamente para tanta gente em tantos lugares ao mesmo tempo. Para complicar esta situação de calamidade mundial, líderes de grandes países, como Brasil e Estados Unidos, vêm negando sistematicamente evidências científicas.

Neste momento único da história, quando temos uma doença que parece ter sido transplantada da Idade Média para a era digital, Época decidiu ouvir nove estudiosos de renome mundial a partir de uma mesma premissa: o que aprenderam com a pandemia? Os entrevistados incluem nomes como o britânico Timothy Garton Ash, professor da Universidade de Oxford e um dos maiores especialistas em história da Europa; a ensaísta americana Camille Paglia; o filósofo francês Luc Ferry, um conservador que defende que a filosofia pode desempenhar o papel antes ocupado pela religião; Steven Levitsky, professor de ciência política em Harvard e autor do best-seller Como as democracias morrem; e a psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, autora de biografias de Sigmund Freud e Jacques Lacan.

Em comum, todos os intelectuais — cujo contato foi viabilizado pelo ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento — se dispuseram a analisar como a Covid-19 e a transformação dos fatos nos últimos cinco meses impactaram o mundo em que vivemos.

Muito além da cloroquina: o que mais se estuda como alternativa ao medicamento

Numa busca frenética, médicos e pesquisadores testam novos tipos de tratamento na tentativa de salvar vítimas da covid-19

Distante dos holofotes e do debate público mais estridente, uma legião de cientistas e agentes de saúde do país vem buscando alternativas de terapia para os doentes com Covid-19, num esforço que vai muito além da cloroquina. Embora só no Brasil estejam em andamento mais de 400 pesquisas, em meio à urgência da pandemia, o desenvolvimento de novos medicamentos é considerado sempre uma tarefa dispendiosa e demorada.

Por isso, boa parte dos estudos dedica-se à verificação da ação de medicamentos já existentes na guerra contra a doença. “Essa estratégia vale-se de conhecimento consolidado sobre a segurança e farmacocinética de medicamentos já aprovados para uso humano, evitando muitos dos complexos testes pré-clínicos”, disse Kleber Franchini, diretor do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), vinculado ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem).

Desde o início da pandemia, o Cnpem dedica-se à investigação de moléculas que sejam candidatas a combater a infecção pelo coronavírus, por meio de técnicas que misturam biologia computacional e inteligência artificial. A capa de proteína que protege as moléculas de um vírus pode ser comparada a uma fechadura cujo acesso depende de chaves específicas. Essa chave, ou pequena molécula, é a substância específica que se busca em todo o mundo, na expectativa de neutralizar a ação do vírus e impedir sua reprodução. A partir de informações sobre a constituição genética do sars-CoV-2, os pesquisadores do Cnpem testaram 2 mil moléculas de bancos de dados públicos para verificar qual delas funcionaria como “chave” ideal.

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CARTACARTA CAPITAL

No Brasil acontece todos os dias

Por que o massacre diário de pobres e pretos no País não provoca a mesma comoção?

José Dirceu em conversa com Mino Carta - O ex-ministro aponta a culpa de quem é ou fingiu ser de esquerda pela indiferença popular. "Não estivemos à altura da missão que nos cabia".

Abre ou fecha? - Com mais de mil mortos por dia, vítimas do coronavírus, o Brasil parece que tem uma única preocupação: as lojas hoje vão abrir ou fechar?

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