Com suspensão de contas, redes sociais suscitam debate sobre livre opinião

Empresas de tecnologia vetam usuários que disseminam ódio, mentiras e incitam a violência, como Donald Trump - um movimento inédito e polêmico.

Da redação,

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Liberdade vigiada

Num movimento inédito, as redes sociais suspendem as contas de usuários que disseminam ódio, mentiras e incitam a violência, como as do presidente americano Donald Trump. Polêmica, a decisão suscita um importante debate: até onde vão os limites da livre opinião?

Há 3 000 anos, os gregos ergueram um dos pilares que ajudaram a erigir a civilização ocidental: o conceito de liberdade de expressão. Nas Ágoras, assembleias realizadas em praça pública, os cidadãos podiam exprimir ideias e expor sentimentos, mesmo aqueles contrários ao senso comum. Ao longo da história, inúmeros marcos civilizatórios fortaleceram a livre opinião, das convenções internacionais às constituintes dos países, da Declaração Universal dos Direitos Humanos ao arcabouço jurídico que rege as nações. Graças a esses mecanismos, construídos de tijolo em tijolo, que o edifício da democracia contemporânea foi erguido. Sob diversos aspectos, a liberdade de expressão é uma das mais extraordinárias conquistas da humanidade, pois permite a cada um de nós manifestar, sem impedimentos, exatamente o que pensa. Nos últimos dias, porém, a beleza por trás dessa ideia vem sendo vilipendiada. Extremistas distorcem grosseiramente o conceito para defender o direito de publicar atrocidades nas redes sociais — ataques a adver­sários, incitações à violência, crimes e até atos terroristas.

O debate ganhou intensidade a partir de 6 de janeiro, quando defensores do republicano Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, invadiram o Capitólio para impedir a diplomação do candidato vitorioso, o democrata Joe Biden. Por mais bizarro que possa parecer, os criminosos foram incentivados pelo próprio Trump, que passou as últimas semanas anunciando no Twitter que o pleito havia sido uma fraude. Depois da barbárie no Capitólio, que resultou na morte de cinco pessoas, as big techs, como são chamados os conglomerados de tecnologia que dominam a internet mundial, tomaram medidas inéditas. Dois dias após o levante, o Twitter baniu a conta do presidente americano, que tinha mais de 55 milhões de seguidores. “Os danos off-line resultantes da fala on-line são comprovadamente reais, e impulsionam nossas políticas e a aplicação delas acima de tudo”, justificou o CEO da companhia, Jack Dorsey, em sua própria rede social.

Adoradores do líder falastrão e mentiroso também entraram no alvo do Twitter, que eliminou 70 000 perfis ligados ao movimento QAnon, alicerçado em teorias da conspiração e falácias. Ele propaga, entre outras coisas, a ideia esdrúxula de que Trump combate uma rede de satanistas pedófilos responsáveis pelo comando do mundo. Facebook e Instagram seguiram a mesma trilha, reforçando o movimento. Pelo menos até a posse de Joe Biden, no dia 20, as páginas do mandatário foram suspensas por período indeterminado.

“Acreditamos que os riscos de permitir que o presidente siga utilizando nossos serviços durante esse período são simplesmente grandes demais”, disse Mark Zuckerberg, fundador do Facebook. O YouTube retirou do ar vídeos do canal oficial de Trump, fechou o espaço para comentários e o suspendeu por sete dias. Já o Parler, rede social sem controle de conteúdo criada por John Matze e amplamente utilizada pelas hordas trumpistas, foi excluído das lojas virtuais da Apple e do Google. Completando a reação em cadeia, a Amazon também decidiu não mais hospedá-lo em seus servidores. Esses banimentos colocaram as redes sociais no centro de um polêmico debate: quais são os limites da liberdade de expressão?

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O general do caos

Mesmo com a pandemia chegando a quase 210 mil mortos, o ministro Pazuello, seu chefe Jair Bolsonaro e o almirante Barra Torres, da Anvisa, sabotam o Instituto Butantan. A Coronavac está disponível no Brasil desde novembro, com eficácia comprovada, mas seu uso é boicotado. Os três militares brincam com a vida das pessoas e montam um espetáculo grotesco para trazer da Índia, às pressas, algumas doses da AstraZeneca. Mudaram o discurso negacionista e querem para si o crédito do pioneirismo que eles não merecem, porque  sempre foram contra a vacinação

Com pelo menos um mês de atraso no lançamento de uma campanha nacional – mundo afora mais de 30 milhões de pessoas foram vacinadas, segundo levantamento feito pelo portal Our World In Data, da Universidade de Oxford, o governo Bolsonaro ainda patina para colocar um plano em prática, demora para comprar seringas e agulhas (Pazuello não tem ideia do estoque de insumos para a campanha e mandou informações erradas ao STF) e se dedica insistentemente a boicotar a Coronavac, que nesta semana teve a taxa de eficácia divulgada: 50,38%, considerada boa, com potência suficiente para tirar o Brasil da pandemia, e dentro dos padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Imunizantes usados amplamente e com sucesso, como o do rotavírus e da gripe têm taxa semelhante. Além disso, a Coronavac é um produto disponível.

O Instituto Butantan, que divide o desenvolvimento do imunizante com o laboratório chinês Sinovac, já tem um estoque de 12 milhões de doses, suficiente para sustentar a aplicação de 600 mil doses diárias durante 18 dias. Mas Bolsonaro prefere ficar no fim da fila mundial das vacinas, despreza essa iniciativa e põe o seu ministro para promover a cloroquina. Pazuello, que obedece o presidente caninamente, sempre tem alguma ressalva contra a Coronavac nas raras ideias que balbucia. Bolsonaro informou seus apoiadores na frente do Palácio do Planalto que pediu para que o ministro fosse para Manaus. “Mandamos ontem o nosso ministro para lá. Estava um caos. Não faziam o tratamento precoce”, disse. E acrescentou que Pazuello “interferiu” para resolver a situação.

Em um País desgovernado, onde o presidente e seus ministros são negacionistas, o início da campanha federal de vacinação virou um foco de incerteza e ansiedade. A principal esperança ainda vem de São Paulo, onde o governo João Doria estabeleceu o próximo dia 25, aniversário da cidade, para disparar a imunização. Já o governo Bolsonaro, numa reação marota para tirar o pioneirismo da Coronavac e de Doria, seu adversário político, passou a divulgar que iniciará a campanha na próxima semana para colher os louros da glória sanitária.

Na quarta-feira (13), o Ministério da Saúde enviou um avião da companhia Azul para Mumbai, na Índia, para trazer dois milhões de doses de vacinas da AstraZeneca/Oxford, que chegarão ao Brasil e passarão a ser aplicadas a partir do dia 20, segundo informa o governo. No dia 19, Pazuello terá uma reunião com governadores, que estava marcada para o dia 11 e havia sido cancelada por causa da viagem para Manaus, para discutir o plano nacional. Bolsonaro montou uma operação de marketing e aproveitará a ocasião para aparecer na foto ao lado dos dois primeiros vacinados do País, um idoso e um profissional de saúde.

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Democracia sitiada

O Estado da América depois do ataque

Por fim, Donald Trump vai embora: o que estava em dúvida até a supressão da violenta tentativa de golpe no último dia 6 agora está assegurado. Mas os danos feitos durante os quatro anos de seu mandato desastroso permanecem e vão constituir o principal desafio para o novo presidente americano, Joe Biden, quando ele tomar posse ao meio-dia do dia 20. As bases da democracia americana foram profundamente abaladas, e não será fácil reconstruí-las.

Claro que Biden também precisará enfrentar outras crises já anunciadas. Mas elas são conjunturais, e não estruturais. Como parte da herança maldita que ele recebe de Trump, por exemplo, terá de eliminar a Covid-19, que já matou mais de 385 mil americanos, deixou outros 23,5 milhões doentes, roubou o emprego de quase 40 milhões e fez a economia despencar. Mas isso deve ser relativamente fácil de contornar. Basta mostrar competência, organização e disciplina — qualidades que Donald Trump nunca teve — que a pandemia retrocede e a economia volta a crescer. Fala-se de uma recuperação até o fim de 2021.

O trabalho de consertar os grandes rasgos feitos no tecido de nossa democracia, por outro lado, será muito mais árduo e prolongado, com um desfecho impossível de prever. Em apenas quatro anos, Trump desrespeitou — e fez ruir — todo um corpo de leis, normas, práticas e crenças desenvolvidas ao longo de 244 anos e incentivou seus devotos a seguir seu exemplo. “Não sabemos ainda o que estamos presenciando”, disse o comentarista Van Jones na CNN quando a turba incitada por Trump ainda estava dentro do Capitólio, com os membros do Congresso deslocados às pressas para um esconderijo subterrâneo. “É algo feio em nosso país agonizando? Ou o nascimento de uma desordem ainda pior?”, perguntou ele, referindo-se à violência como ferramenta rotineira da política.

Talvez seja difícil para o estrangeiro entender o choque sofrido pelo americano comum ao ver o Capitólio, prédio que ocupa um espaço muito especial no imaginário nacional, ser sitiado e depois tomado. Desde criança, somos ensinados a pensar no Capitólio como lugar sagrado, “o templo da democracia”. Só uma vez antes foi ocupado por forças hostis: o Exército britânico, durante a guerra de 1812. O momento em que os novos invasores baixaram a bandeira americana e içaram outra com o nome de Trump foi, então, como um soco no estômago. Assistindo horrorizado e indignado pela TV, pensei: “Que país é este?”.

Com o impeachment votado nesta semana, contando com o apoio até de dez republicanos, Trump sofre a ignomínia de ser o único presidente americano a ser impugnado duas vezes. Se a condenação for confirmada pelo Senado, ele não poderá nunca mais se candidatar para nenhum cargo público pelo resto da vida. Mesmo sem sanções formais, terá de lidar com uma posição enfraquecida pela raiva e pelo nojo da grande maioria do povo, além de enfrentar encargos criminais e a possível bancarrota do império de negócios que ele criou à base de enganações e ilusões.

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O destino de Trump

Serão os EUA capazes de salvar a democracia?

- Ford: Após cem anos, a montadora deixa de produzir no Brasil e aprofunda a crise da indústria. Os caminhoneiros ameaçam fazer nova greve em fevereiro.

- Covid-19: Com a pandemia fora de controle e mais de mil mortes diárias, resta aos brasileiros a miragem das vacinas.

- Caos no Amazonas: ‘Foi uma cena do Titanic, cada um pegando cilindro de oxigênio e escolhendo quem salvar’: Profissional de saúde narra a CartaCapital o dia de trabalho dentro da UTI do Hospital Universitário Getúlio Vargas, em Manaus.

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