Chegada da 1ª vacina contra covid-19 revela espetacular vitória da ciência

Revistas semanais destacam luta do mundo contra a doença e os entraves no Brasil para imunização.

Da redação,

veja1Veja

Uma conquista histórica
O avanço heroico das vacinas pelo mundo — e os entraves no Brasil.
Em apenas onze meses, um mutirão de cientistas conseguiu desenvolver um imunizante eficaz. Por aqui, contudo, o vírus ideológico pode atrasar o processo.

Era preciso haver um emblema da extraordinária e apaixonada corrida da ciência por uma vacina contra o novo coronavírus, que até a quinta-feira 10 matara mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o mundo — quase 180 000 somente no Brasil. E o tão desejado símbolo despontou às 6h31 da manhã, horário local, na cidade de Coventry, centro da Inglaterra, na figura de uma senhora de 90 anos, funcionária aposentada de uma joalheria. Margaret Keenan parecia tranquila quando a enfermeira May Parsons se aproximou com a seringa, ergueu a manga esquerda da camiseta de algodão da paciente e nela injetou a primeiríssima dose do imunizante da americana Pfizer desenvolvido em parceria com a alemã BioNtech. Foi a aplicação inicial das 800 000 previstas no Reino Unido, até o fim de dezembro. Margaret vestia uma camisa de azul luminoso com o desenho de um boneco de neve debaixo de um desejo: “Merry Christmas”. Ela pagou 8 libras pela peça, o equivalente a 55 reais, dinheiro destinado a uma campanha de solidariedade contra os danos econômicos da atual crise sanitária.

“Feliz Natal” é o que se espera a partir da histórica cena, desde já um dos mais celebrados retratos da esperança de nosso tempo, cujo sinônimo é ciência, no avesso da desesperança e do ridículo negacionismo. Margaret sorriu e definiu com voz frágil o que lhe acontecera: “Isso significa que posso finalmente esperar passar um tempo com minha família e amigos no Ano-Novo, depois de estar sozinha na maior parte de 2020”.

Por que a eleição para o comando do Congresso será a largada para 2022
Disputa será o primeiro grande teste para medir a capacidade de articulação do governo, a força da oposição e o futuro da agenda econômica do país.

O presidente Jair Bolsonaro torcia para um desfecho bem específico no julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a reeleição para as presidências da Câmara e do Senado. Ele queria que o senador Davi Alcolumbre, de quem é aliado, fosse autorizado a disputar um novo mandato, mas não o deputado Rodrigo Maia, considerado por ele seu principal opositor no Congresso. Por uma dessas coincidências típicas de Brasília, o ministro Nunes Marques, indicado ao STF pelo presidente da República, votou exatamente nesse sentido. O problema é que foi o único voto — entre onze ministros — a defender essa tese. Por maioria, a Corte vetou a possibilidade de reeleição dentro da mesma legislatura. Assim, as corridas pelo comando das duas Casas perderam seus favoritos e foram reiniciadas do zero. As votações para os cargos só ocorrerão em fevereiro, mas as articulações já estão em curso. Tanto na Câmara quanto no Senado, a disputa se dá entre Bolsonaro e os políticos que, desde já, tentam impedir a sua reeleição. Desenrola-se agora no Legislativo uma espécie de preliminar da campanha que escolherá, em 2022, o novo chefe do Executivo.

A esquerda também busca uma boquinha das verbas oficiais
O Planalto tem lançado mão de um agrado mais comum do que se imagina para conquistar o apoio de parlamentares de oposição.

Em setembro passado, o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) ligou para o ministro da Secretaria de Governo (Segov), general Luiz Eduardo Ramos, para pedir uma ajuda. Os dois se conheciam desde a época em que o general esteve à frente do Comando Militar do Sudeste. O petista perguntou ao ministro se ele podia interferir para destravar a liberação de uma verba que seria usada na construção de um campo de futebol em São Paulo. Responsável pela articulação política, Ramos, de pronto, se comprometeu a encaminhar a demanda, especialmente depois de consultar suas planilhas e constatar que o petista, apesar do discurso, não estava entre aqueles parlamentares que faziam oposição cega ao governo. Três meses antes, por exemplo, Zarattini foi o único integrante de seu partido a votar a favor do Novo Código Brasileiro de Trânsito, projeto classificado como prioritário pelo presidente da República. O velho e conhecido “toma lá dá cá” foi, nesse caso, ajustado para “dá cá toma lá” — um agrado mais comum do que se imagina que o Planalto tem lançado mão para conquistar o apoio de parlamentares de oposição.

Trata-se de uma estratégia articulada a partir de uma constatação. Em 2019, a Segov fez um levantamento de todos os cargos de livre nomeação no governo e nas empresas estatais. Descobriu, com números e detalhes, o que todo mundo sabia: a grande maioria deles era ocupada por pessoas indicadas por políticos, inclusive os de oposição. Os padrinhos, aos poucos, foram sendo convidados para conversar, ao mesmo tempo que foi criado um índice para aferir a fidelidade de cada partido, senador e deputado. A regra é clara: os parceiros ficam no início da fila na hora de ocupar cargos e receber verbas. Entre as legendas consideradas alinhadas, ou seja, aquelas que, segundo o governo, em mais de 80% das vezes são favoráveis aos interesses do presidente, estão os integrantes do chamado Centrão (bloco formado por siglas como PL, PP, PSC, PTB e Republicanos) e também o MDB e o DEM, que se declaram independentes, mas que, superfiéis, foram contemplados com postos importantes na administração. Os oposicionistas — PT, PDT, PSB, PCdoB, entre outros —, em tese, estariam excluídos dessa parceria. Na prática, não estão.

Leia mais em Veja.


istoe1Istoé

O mundo começa a vacinar…
Em vários países com governos e líderes conscientes dos efeitos devastadores da Covid-19 há um esforço concentrado para iniciar a imunização ainda em dezembro ou na primeira quinzena de janeiro. Na Inglaterra, a campanha já começou e 800 mil pessoas receberão a primeira dose da vacina da Pfizer nas próximas semanas. Na Rússia, o governo iniciou a aplicação da Sputnik V. Num cenário tenebroso, com a segunda onda da doença atingindo a Europa e o número de mortos subindo rápido, a chegada de um antídoto contra o coronavírus traz otimismo e segurança para uma população rendida a um micróbio letal.

Há uma luz no fim do túnel. Em meio a uma pandemia que deixou 70 milhões de infectados e matou 1,57 milhão de pessoas até agora no mundo, as notícias das primeiras campanhas de vacinação são alentadoras e surgem como um verdadeiro sopro de esperança para a humanidade. Por mais que a situação seja perturbadora começam a aparecer indícios de que a ciência pode triunfar sobre a peste e interromper a perda de vidas. O Reino Unido, nação europeia mais afetada pela Covid-19, onde o número de óbitos supera 63 mil, foi o primeiro lugar a aplicar, terça-feira 8, uma vacina fora da fase de testes com um imunizante clinicamente aprovado. Tratou-se, no caso, da vacina da Pfizer, desenvolvida em parceria com o laboratório de biotecnologia alemão BioNTech, liberada para uso emergencial na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda. Sua eficácia, verificada nos ensaios clínicos e prestes a ser atestada pela agência sanitária americana, a FDA, é de 95%.

E o Brasil demora a reagir
Enquanto outros países avançam com planos nacionais de vacinação, o governo brasileiro se mostra irresponsável e inoperante e não consegue definir uma estratégia de combate ao coronavírus. Diante da paralisia federal, o governador de São Paulo, João Doria, lançou um programa estadual de imunização que começa dia 25 de janeiro e deve beneficiar 9 milhões de pessoas. Governadores de todo o País cobram uma atitude do Ministério da Saúde e da Anvisa para começar a proteger a população em curto prazo e salvar mais vidas.

O patético casal
Bolsonaro e esposa inauguraram exposição de roupas para projetar influência. Criaram um monumento ao próprio ego.

Grandes estadistas costumam captar o espírito do tempo, encarnando os anseios, glórias e ambições de seu povo. Jair Bolsonaro consegue personificar o exato oposto dessa máxima. No dia em que o País ultrapassou 177 mil mortes na maior emergência sanitária em um século, em meio à alta da inflação e do desemprego, ele resolveu inaugurar com a esposa uma exposição para celebrar o próprio casal. A mostra foi aberta no Palácio do Planalto na segunda-feira, 7. Reúne duas vitrines com as roupas que o primeiro casal usava no dia da posse. “Um dia memorável, né?”, disse a primeira-dama, ao lado dos manequins sem pé nem cabeça. Acompanharam o evento os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Braga Netto (Casa Civil), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Jorge Oliveira (Secretaria Geral da Presidência), Onyx Lorenzoni (Cidadania) e Marcelo Álvaro Antônio, o titular do Turismo que foi defenestrado dois dias depois.

Nem Maria Antonieta antes de encarar o cadafalso teria a ousadia de celebrar seus próprios adereços para a patuleia esfomeada e enferma. Bolsonaro teve. Na prática, trata-se mais de uma exibição de narcisismo afetado e tosco do que uma projeção de poder e influência. Além disso, quem se orgulha do estilo chinelão, pão com leite condensado e passeio de moto sem capacete não consegue transmitir charme. No fundo, o mandatário montou uma operação de marketing caipira, de quem só enxerga a cultura pelo filtro distorcido de influenciadores digitais. “Patética a exposição e patético casal presidencial, inclusive fazendo propaganda de uma grife de terno e roupas masculinas. Que coisa mais ridícula!”, postou nas redes sociais Roberto Freire, presidente do Cidadania. Na cerimônia, o presidente ainda se gabou de ter conseguido o terno na faixa. “De graça até injeção marciana, né?”, disse, em tom de piada. As roupas foram doadas para o acervo do Planalto e a exposição será permanente. Os trajes, que incluem os sapatos usados no dia, ficarão ao lado Rolls-Royce presidencial.

Leia mais em Istoé.


epoca1Época

Os militares e a pandemia
Militares que faleceram na pandemia já superam o número de pracinhas mortos na Segunda Guerra Mundial, mas os generais não culpam Bolsonaro.

Segundo dados obtidos com exclusividade por Época, 809 pessoas que pertenciam às Forças Armadas foram vítimas da covid-19 no Brasil. A maior parte desse contingente — 770 — é composta de militares reformados. O total é quase o dobro dos brasileiros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) mortos na Itália, na Segunda Guerra Mundial, que vitimou 457 militares, de acordo com o Boletim Especial do Exército de 2 de dezembro de 1946. Ainda que as circunstâncias de uma pandemia e de uma operação militar em solo estrangeiro sejam distintas, a perda para as famílias é a mesma. E o vazio também.

Apesar das mortes e da dor das famílias, a maior parte da alta cúpula militar não reconhece que a conduta do governo e, por consequência, dos gestores que o integram, tenha contribuído para as vidas perdidas.

Esperança e indignação

A imagem da vendedora aposentada Margaret Keenan, de 90 anos, tomando a primeira dose da vacina produzida pela Pfizer e pela BioNTech, provocou um misto de esperança e indignação. Esperança porque é a primeira cena concreta em que um indivíduo recebe uma vacina testada e aprovada contra o mais mortal dos vírus, ao menos nos últimos 100 anos. Indignação porque, no Brasil, continua-se numa disputa insensata e sem vencedores em torno da vacina, em que o único prejudicado é o brasileiro.

Não precisava ser assim. O país já possuía um contato profícuo com a chinesa Sinovac, o que permitiu a aceleração do processo de desenvolvimento da vacina pelo Instituto Butantan, em São Paulo. No caso da vacina de Oxford/AstraZeneca, um dos pesquisadores que lideram os estudos é o infectologista brasileiro Pedro Folegatti — e o acordo entre esse consórcio e o Ministério da Saúde, por meio da Fiocruz, também coloca o Brasil em posição privilegiada para conseguir, num tempo não muito distante daqui, receber as primeiras doses. Assim, bastava que um trabalho sério fosse conduzido nas duas frentes para que, quando a primeira vacina estivesse devidamente testada e aprovada pelas autoridades competentes, também conseguíssemos vacinar a nossa Margaret.

O que se tem, no entanto, é terra arrasada.

Leia mais em Época.


carta1CartaCapital

À sombra do vírus
A covid-19 alastra-se em meio à flexibilização precoce da quarentena e a mesquinha disputa política pela vacina.

Congresso Nacional
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, vota contra a reeleição do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e o ministro Gilmar Mendes considera-se traído.

Especial
Do turismo à infraestrutura, as apostas da região Nordeste para volta a crescer após a pandemia da covid-19.

Leia mais em CartaCapital.

Tags: CartaCapital Época Istoé Revistas semanais Veja
A+ A-