Brasil tem pior crise de imagem internacional

Investidores estrangeiros retiraram do País 31,4 bilhões de dólares de aplicações financeiras entre janeiro e abril.

Da redação,

VEJA2VEJA

Isolados

Descontrole da pandemia, arroubos autoritários e caos institucional mancham a imagem do Brasil no exterior e colocam o país na contramão do mundo civilizado

O Brasil encontra-se à beira de um lockdown diante da comunidade internacional. O estado de isolamento agudo daquele que seria o país do futuro está materializado na balbúrdia do presente por uma conjunção de catástrofes, a começar pela tragédia humanitária nacional, com a liderança mundial de mortes diárias por covid-19 (rumando firme para a casa de 30 000 óbitos).

Em vez das doses cavalares de prudência, de organização e de responsabilidade adotadas pela esmagadora maioria do planeta como remédios para conter a doença, por aqui o caminho foi apostar na improvisação, na negação da ciência e no desprezo à gravidade do problema. Na esteira do estrago do coronavírus vieram o agravamento da crise política, a queda acelerada rumo ao fundo do poço da recessão, o aumento dos insultos às instituições, as novas ameaças ao meio ambiente e a exacerbação de discursos e gestos autoritários, com direito a um flerte explícito com o militarismo.

Em meio ao caos, “Bolsonero”, um dos vários apelidos criados recentemente por veículos de imprensa da Europa e dos Estados Unidos para classificar a postura do presidente, vai aumentando o volume de seu mantra de chamar a população de volta às ruas e de procurar inimigos por todos os cantos, boa parte deles imaginários, a fim de responsabili­zá-los pela situação. Para mostrar que não teme a “gripezinha” e estimular as pessoas a fazer o mesmo, o capitão não perde a oportunidade de se expor sem os devidos cuidados, e em uma das últimas aparições sem a proteção da redoma do séquito bolsonarista foi saudado com panelaços e gritos de “assassino” enquanto degustava um cachorro-quente em Brasília.

Esse flerte irracional com o perigo parece cada vez mais indigesto e incompreensível aos olhares estrangeiros. Não bastasse provocar ondas permanentes de espanto e de preocupação pelo estado de desgoverno até entre os vizinhos mais pobres da América do Sul, o país passa a sofrer as inevitáveis consequências econômicas por causa dessa política confusa em um mundo globalizado. São inúmeros os indicadores que comprovam como a instabilidade afugenta o capital, o que só agrava a situação do momento. O real se tornou uma moeda tóxica, com desvalorização de aproximadamente 30% em relação ao dólar neste ano.

A pandemia deve adiar a eleição para prefeitos

A pandemia impactou profundamente a sociedade em todo o mundo, da macroeconomia às relações pessoais. E não será diferente com o processo político. Em meio à crise sanitária, 47 países já tiveram de adiar suas eleições, enquanto treze optaram por mantê-las. O Brasil encontra-se agora próximo desse dilema, tendo em vista o pleito municipal previsto para outubro.

Não há ainda uma definição sobre o assunto, mas já existe um consenso entre lideranças políticas e a Justiça Eleitoral sobre o que não deve ser feito: prorrogar os atuais mandatos, ou seja, fazer a votação em 2021 ou, como querem alguns, apenas em 2022, unificando-a com a escolha de presidente, governadores, senadores e deputados. A decisão deve ocorrer até o fim de junho, por uma comissão formada pela Câmara e pelo Senado. Em caso de alteração do cronograma, é preciso ainda que o Congresso aprove uma proposta de emenda constitucional.

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ISTOE2ISTOÉ

Os abusos do Watergate do Brasil

Na guerra entre os poderes, o STF aperta o cerco a Bolsonaro e seus filhos e investiga a interferência na PF, que pode levar ao escândalo de manipulação das eleições de 2018 - semelhante ao que derrubou Richard Nixon, nos EUA. Para contra-atacar, o presidente monta um serviço clandestino de informações e busca proteção na Procuradoria-Geral da República.

A maior ilegalidade cometida por Bolsonaro na vexatória reunião ministerial do dia 22 de abril, portanto, não foi a que ele confessa que iria interferir na PF, substituindo o diretor-geral e o superintendente no Rio, ou até mesmo o ministro Sergio Moro, caso ele não aceitasse operar as mudanças pretendidas, como de fato não aceitou, e por isso os três foram trocados. O mais grave foi o capitão revelar, no encontro, que ele possui um serviço secreto de informações, à margem da lei. “Sistema de informações: o meu funciona. O meu, particular, funciona. Os ofi..,, que tem oficialmente, desinformam”. Essa frase, dita por Bolsonaro na reunião, escancarou a existência do esquema clandestino de informações. No vídeo que registrou a reunião, e que está em poder do ministro Celso de Mello, do STF, o mandatário chegou a se vangloriar de ter o sistema próprio de averiguações, à revelia dos organismos oficiais, como a Polícia Federal (PF), Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Foi a confissão de mais um crime.

O próprio presidente explicou, em entrevista na porta do Palácio do Alvorada, na sexta-feira (22), após a divulgação do vídeo, que esse serviço secreto pessoal recebe informações de policiais civis e militares do Rio de Janeiro e de outros Estados, O esquema paralelo, como o próprio Bolsonaro esclareceu, foi montado porque ele estava cansado de reclamar que a PF, então coordenada pelo ministro Sergio Moro, não lhe passava as informações necessárias para a proteção de seus filhos, parentes e amigos, ameaçados por investigações que poderiam, eventualmente, levá-los para a cadeia. Para exemplificar como era “vítima” do precário sistema oficial de informações, Bolsonaro lembrou que o seu esquema de arapongagem ajudou-no a salvar de encrencas um dos seus filhos do Rio, que poderia ser alvo de apreensão de drogas em sua casa. “Passo o tempo todo vivendo sob tensão, com a possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei isso. Graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro, de que estava sendo armado para cima de mim”, disse Bolsonaro. Juristas consultados por Istoé afirmam que a manutenção do sistema secreto de informações é ilegal e inconstitucional.

Militares de pijama

Várias razões explicam a adesão dos militares ao governo Bolsonaro, como a falta de quadros do grupo bolsonarista, em grande parte formado por radicais ideológicos despreparados. A grande dúvida, que se renova diariamente à medida que Bolsonaro radicaliza seu projeto autoritário, é se os militares abandonarão a doutrina de respeito à Constituição construída a duras penas após a redemocratização e poderão ser cooptados para uma aventura golpista. Os sinais recentes mostram que eles estão deixando o papel de tutela sobre os excessos presidenciais. Paulatinamente, mostram fidelidade cega aos planos irresponsáveis do mandatário e sobem o tom contra os outros Poderes. Como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o poder “é pegajoso” e os militares “talvez nem percebam, mas pouco a pouco chegam lá e vão gostando”.

O episódio mais grave aconteceu na sexta-feira (22), com a nota divulgada pelo general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), contra uma decisão do ministro Celso de Mello, do STF. Seguindo o que determina a lei, o decano da corte pediu à Procuradoria-Geral da República que se manifestasse sobre o eventual confisco e periciamento dos celulares do presidente e de seu filho Carlos, em resposta a três notícias-crimes protocoladas por parlamentares da oposição.

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CARTA2CARTA CAPITAL

Aguenta até quando?

O STF, um dos poderes coniventes com tudo que aconteceu, enfrenta Bolsonaro e suas milícias. Irá até o fim?

- Hecatombe brasileira: O País ultrapassa os Estados Unidos em mortes diárias, torna-se o epicentro mundial da pandemia e caminha a passos largos para uma tragédia ainda maior, com a interiorização do vírus. A mídia internacional não esconde o espanto e a indignação elege o ex-capitão como a maior ameaça à saúde do planeta.

- Como ficam as "cidades inteligentes" após a pandemia de covid-19?: Nos últimos dez a 15 anos, com a importância crescente das tecnologias de informação e comunicação (TICs) em todos os aspectos das relações e atividades humanas, a gestão dos sistemas urbanos tem sido inundada por projetos, dispositivos e infraestruturas de conectividade propondo gerar e gerir dados, tornar as cidades mais inteligentes e seus processos mais eficientes e efetivos. No entanto, a panaceia das cidades inteligentes – e, por consequência, das suas variáveis resilientes e sustentáveis – pode se transformar em um discurso vazio e com fim em si mesmo. Um “conto de fadas”, como critica Evgeny Morosov, influente pesquisador bielorrusso e estudioso das implicações políticas e sociais da tecnologia.

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ÉPOCA

EPOCA2Militares e Bolsonaro: unidos contra o STF

Como a ira contra a mais alta corte do país convergiu a caserna em torno do presidente da República e aonde isso pode nos levar

Parece uma era, mas só dois anos separam o dia em que o deputado Eduardo Bolsonaro deu uma palestra para aspirantes a policiais afirmando serem necessários apenas um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), e esta quarta-feira (27), em que ele gravou um vídeo afirmando que uma “ruptura” já era certa e que já não se tratava mais de uma questão de “se”, mas de “quando” ela aconteceria. No mesmo dia, Jair Bolsonaro convocou seus ministros para discutir um “contra-ataque” a decisões da Corte no inquérito que investiga a produção de fake news por aliados do presidente. Uma operação deflagrada naquela manhã cumpriu mandados de busca e apreensão nas casas de membros do chamado “gabinete do ódio”, que funciona como uma usina de difamações de inimigos de Bolsonaro. Não raro, o conteúdo dessa usina tem como alvo o STF, incensando a ira contra seus ministros quando proferem decisões judiciais que contrariem interesses do governo ou da militância bolsonarista.

O “contra-ataque” de Bolsonaro se resumiu, por ora, à cantilena autoritária que tem repetido nas últimas semanas: a ameaça de descumprir decisões do Supremo. “Mais um dia triste na nossa história. Mas o povo tenha certeza, foi o último dia triste. Repito, não teremos outro dia igual ontem. Chega. Chegamos no limite. Estou com as armas da democracia na mão. Eu honro o juramento que fiz quando assumi a Presidência da República”, disse, um dia depois da operação. Seu vice, o general Hamilton Mourão, desferiu canelada mais leve, fazendo uma crítica indireta nas redes sociais às características pouco convencionais do inquérito que investiga as fake news, aberto de ofício pelo STF no ano passado, para o qual foi escolhido o relator — e não sorteado, como é praxe — e cujo objeto de investigação é amplo e irrestrito.

Diante da escalada das tensões e dos arroubos de Bolsonaro contra as instituições, um setor específico da sociedade brasileira tem se mostrado bastante sensível ao conteúdo de ódio disparado nas redes contra o Supremo: os militares. Dos praças às patentes mais altas, as críticas à Corte têm unido áreas das Forças Armadas que há muito não concordavam entre si. E as críticas, que ocorrem numa crescente sem precedentes desde 2018, têm se mostrado cada vez mais ferozes, sendo verbalizadas por alas até então consideradas moderadas e refratárias ao radicalismo promovido por grupos aliados do presidente.

Em meio a subnotificações, coronavírus avança na área de índios isolados

País tem quatro vezes mais mortes de índios do que afirma o governo, diz entidade; Vale do Javari, onde vivem povos não contatados, já registra as primeiras infecções

A morte de um recém-nascido da etnia Xavante, no município de Alto Boa Vista, em Mato Grosso, há 10 dias, é a terceira entre bebês indígenas vítimas de coronavírus e mais uma entre outras 116 em todo o país não confirmadas pelo Ministério da Saúde. Levantamento feito por Época junto à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) mostra que o número de óbitos de índios é três vezes maior do que o divulgado pelo governo.

A taxa de letalidade (porcentagem dos que morreram após caso confirmado) da Covid-19 entre esses povos está em 9,9%, uma vez e meia maior do que a da população brasileira (6,1%), apontada como uma das mais altas do mundo. Mas como há subnotificação dos casos, é possível que esses números sofram alterações. A primeira morte de indígena no país foi registrada há dois meses. Uma anciã borari, de 87 anos, em Alter do Chão, no Pará, também não notificado entre os casos da Sesai.

Até sexta-feira (29), foram registradas pela APIB 167 mortes em todo o país ante 51 divulgadas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que não contabiliza os casos de índios que moram em contexto urbano ou não aldeados. São mais de duas mortes por dia desde o caso da anciã de Alter do Chão.

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