A rotina de violência que resultou na morte do menino Henry Borel

Investigação indica que o padrasto espancava a criança de apenas 4 anos; a mãe sabia de tudo e nada fez.

Da redação,

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Barbárie dentro de casa

A rotina de violência que resultou na morte de Henry Borel , de apenas 4 anos. Os suspeitos do crime são o padrasto, o vereador carioca Dr. Jairinho, e a própria mãe, Monique Medeiros, presos pela Polícia Civil

Foi tudo muito rápido, a caminho da tragédia. Os dois se conheceram em setembro de 2020, em encontro intermediado por um primo dele. Passados apenas quatro meses, Jairo Souza Santos Júnior, o vereador carioca Dr. Jairinho, de 43 anos, e a professora Monique Medeiros, de 33, foram morar juntos: instalaram-se em janeiro com o filho dela, Henry Borel, de 4 anos, em um apartamento na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Um mês depois, Monique havia saído e recebeu mensagens da babá Thayná de Oliveira Ferreira pelo WhatsApp relatando uma sessão de tortura de seu menino por Jairinho, os dois trancados em um quarto. Não foi à polícia, não comentou com ninguém, nada fez. Em 8 de março, menos de um mês depois, Henry chegou morto ao hospital, com graves lesões internas e coberto de hematomas. Na quinta-feira, 8 de abril, a Polícia Civil foi à casa de uma tia de Jairinho em Bangu, na Zona Oeste, munida de um pedido de prisão temporária de trinta dias, e lá deteve o casal.

Elaborado em cima de uma competente investigação da Polícia Civil do Rio, o mandado de prisão da dupla cita tentativas de atrapalhar as investigações e pressionar testemunhas. Na chegada dos agentes, aliás, o casal tentou se livrar de celulares, sem sucesso. Também tinham mochilas prontas, sugerindo planos de fuga. Segundo os policiais, a apuração ainda não está 100% concluída, mas, ao final, Jairinho e Monique devem ser indiciados por homicídio duplamente qualificado e tortura. Nesse caso, podem ser condenados a trinta anos de cadeia. “A Monique que eu conhecia, que a princípio se mostrou uma boa mãe, se tornou uma mulher horrível, tenebrosa”, disse a VEJA, chorando muito, o pai de Henry, o engenheiro Leniel Borel, que foi casado com ela por oito anos.

A partir da recuperação de mensagens apagadas em celulares, da reconstituição da morte do menino, de dois laudos periciais e dos depoimentos de dezoito testemunhas, a polícia foi desvendando a trama de horrores que levou ao crime. Relatos diretos e indiretos sobre a convivência de Jairinho com a ex-mulher e duas ex-namoradas traçaram o retrato de um homem violento e sádico, que sistematicamente agredia crianças pequenas com chutes e pancadas.

Versões diferentes dadas pelo casal para a morte de Henry (teria caído da cama, sofrido um mal súbito) foram desmontadas pela autópsia indicando hemorragia interna, laceração hepática e contusões. Antes de o óbito ser declarado, o vereador ainda ligou para um executivo da área da saúde e pediu, com urgência, que o corpo fosse liberado sem exame póstumo. Não conseguiu.

No testemunho que resultou no pedido de prisão temporária, a babá no início afirmou que a convivência de pai, mãe e padrasto era harmoniosa. Caiu em nítida contradição — e reafirmou suspeitas de coerção do casal — depois de serem recuperadas as mensagens de celular que trocara com Monique e que haviam sido deletadas. A conversa é clara e assustadora (veja a troca de mensagens). Jairinho se fechara em um quarto com Henry, a TV em alto volume. A mãe estava fora e, a distância, acompanhou toda a movimentação: o tempo que passaram trancados, o estado do menino quando saiu do quarto, os movimentos do vereador e as queixas do garoto. Ao deixar o apartamento, ela avisou que voltaria em seguida.

A babá seguiu informando que Henry não queria sair de seu colo, insistia em ficar na cozinha, reclamava de dores. Monique pediu que ela perguntasse ao menino o tinha acontecido. “Me contou que deu uma banda (rasteira) e chutou ele, que toda vez faz isso”, foi a resposta. Também mandou foto de uma ferida no joelho do menino, disse que ele estava mancando e, no banho, havia pedido que não lavasse a cabeça, porque doía. Henry relatou ter sido ameaçado pelo padrasto, que teria lhe avisado: “Se você contar, eu vou te pegar”.

A primeira suspeita da polícia de envolvimento do vereador no crime partiu de queixas de Henry ao pai de que o “tio Jairinho” o maltratava. “A mãe dizia que ele estava inventando. Me martirizo todos os dias por não ter tomado uma atitude mais drástica”, lamenta Borel. Soube-se, depois, como revelou VEJA na semana passada, de outros casos de crueldade dele com crianças pequenas. Da parte dela, a frieza sempre foi vista como comprometedora. O silêncio diante da barbárie veio a confirmar sua participação, por omissão — a polícia não tem (ao menos, por enquanto) evidência de que ela fizesse parte das torturas.

O drama faz lembrar a noite terrível de março de 2008, em que a pequena Isabella Nardoni, de 5 anos, morreu ao cair da janela do 6º andar de um prédio, em São Paulo. Ao fim de um julgamento que mesmerizou o país, o pai, Alexandre, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, foram julgados culpados de homicídio doloso qualificado e condenados a cerca de trinta anos de prisão. Como explicar a crueldade sem tamanho de um pai ou mãe que tira a vida, por ação ou omissão, do filho indefeso? “É incompreensível que pessoas aparentemente normais exerçam o mal sem qualquer senso de culpa ou vergonha.

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Geração ameaçada

A covid virou a vida de milhões de crianças e adolescentes pelo avesso e agravou a desigualdade social e na educação. Dificuldades de alfabetização, problemas de socialização, ansiedade e aumento da evasão escolar estão entre os efeitos imediatos. Com sua política destrutiva, o governo Bolsonaro só contribui para piorar a situação

Um caminho pantanoso se abriu diante da juventude brasileira e ameaça seu futuro. A pandemia expôs vulnerabilidades e deficiências que estavam latentes e alterou a condição emocional de muitas crianças e adolescentes. Além disso, de maneira específica, torpedeou as boas práticas presenciais do trabalho de alfabetização dos pequenos e levou um número assombroso de estudantes de 15 a 17 anos, cerca de 50 mil, a desistir da escola para entrar no mercado de trabalho no ano passado. Mesmo entre os privilegiados, o isolamento social causa instabilidade e problemas de afeto e de desempenho. Fragilidades estruturais em escolas e famílias que vinham se acentuando se tornaram gritantes e atrapalham o caminho dos seus dependentes. De uma hora para outra, cresceu a sensação de que ficará um mundo pior para nossos filhos e de que a geração que floresce agora corre o risco de ter seu desenvolvimento pessoal limitado ou adiado.

Para a socióloga e educadora Lourdes Atié, os problemas cognitivos gerados pela pandemia podem até ser revertidos no futuro, mas o que mais preocupa é o “buraco emocional” em que muitos jovens estão entrando. “Não sabemos como os estudantes vão retornar quando tudo isso passar”, diz. O estudo “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar”, recentemente publicado pela Unicef, mostra o extremo dessa crise geracional: o índice de abandono das escolas, em especial das públicas, quase dobrou, em 2020, aumentando de 2% para 3,8% e alcançando 1,38 milhão de alunos. Numa situação menos drástica, outros milhões de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos de todas as classes sociais estão sendo obrigados a aprender uma nova maneira de se relacionar com a realidade e de repensar as atividades sociais. Em meio a um triplo desastre – sanitário, político e econômico –, muitos não conseguem reagir por falta de opção, apoio, motivação ou conexão. Como costuma acontecer no Brasil, a situação se agrava terrivelmente entre pobres e negros. Outra pesquisa assustadora quando se trata do futuro das crianças, feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), mostra que seis milhões de estudantes da pré-escola à pós-graduação não têm acesso à internet.

O empresário e educador Cláudio Sassaki, CEO da Geekie, plataforma que integra tecnologia nos processos de aprendizado, vê um cenário catastrófico e, para ele, a atual geração já está muito comprometida, independentemente do que acontecer daqui para frente. “Transmitir conhecimento ficou mais difícil e as ferramentas de ensino da maioria, em especial nas escolas públicas, não estão preparadas para os novos tempos”. Para Sassaki, não há solução em curto prazo nem no plano do aprendizado, nem no socioemocional, principalmente por causa da falta de iniciativa do Ministério da Educação (MEC) para organizar um projeto de recuperação. Sem isso, todo sucesso dependerá de trabalho individual, localizado. “Nada vai acontecer se não houver um esforço de política pública, uma coordenação”, acrescenta. Em vez disso, o governo Jair Bolsonaro, reduz gastos em educação, promove o negacionismo e a ignorância.

“É importante saber que pré-pandemia a gente já vivia uma crise na educação e já tínhamos dados de uma profunda desigualdade educacional do País”, afirma a professora Cláudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais (CEIPE) da FGV. “Depois dos alunos passarem um ano inteiro distantes da sala de aula, só posso prever um enorme aumento da desigualdade”. Ela também chama atenção para o fato do governo federal ter desaparecido do debate sobre educação e ter abdicado do papel de formulador de políticas públicas para proteger os grupos vulneráveis. “Está claro que não há no governo federal um sentido de urgência para o enfrentamento da crise educacional”, diz.

A perda do convívio

Os efeitos do afastamento da escola e do isolamento social são mais graves e desafiadores do que se imagina e obrigam a repensar práticas presenciais consagradas. Generalizados, eles deverão ser persistentes, podendo durar três ou quatro anos, segundo projeções da Fundação Lemann. Mesmo em escolas bem estruturadas, eles são sentidos com intensidade e preocupam. É o caso do Colégio Pentágono, instituição de ensino com unidades em Alphaville, Morumbi e Perdizes, que teve que trabalhar dobrado para garantir o aprendizado de seus alunos da pré-escola, um dos grupos especialmente afetados pela pandemia, por causa da alfabetização. Ainda que tenha conseguido garantir os níveis de aprendizado que tinha nas aulas presenciais com muito esforço e mobilização de pais e profissionais, houve também uma clara percepção de perdas. Além da questão do convívio, há impactos negativos na conquista da autonomia e no desenvolvimento motor. Muito ativas, crianças dessa faixa etária sofrem com as restrições de movimento e falta de atividade física. “Em termos de aprendizagem de português e matemática, nossos resultados em 2020 foram parecidos com os de 2019”, diz Priscila Azevedo, coordenadora pedagógica do 1º ano do Ensino fundamental do Pentágono. “Em compensação, observamos quedas nas funções executivas e motoras”.

A dona de casa e pesquisadora Michelle Oliveira, 31 anos, tem vivido intensamente a experiência de educar seus filhos dentro de casa e mostra que o único caminho para reduzir a dor da pandemia é o engajamento dos pais no processo de aprendizado.

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poca-Capa1ÉPOCA

Sirenes ligadas

Uma pesquisa inédita revela o que as polícias Militar, Civil e Federal pensam do Governo Bolsonaro

O clima na 1ª Delegacia de Homicídios de Porto Alegre no dia 8 de outubro de 2018 era de festa. Os policiais civis haviam chegado mais cedo ao expediente. Traziam refrigerante, doces e salgados. O agente Fernando Lima foi até a impressora, pegou uma folha de papel com a palavra “Dops”, referência ao Departamento de Ordem Política e Social, delegacia conhecida na época da ditadura pela prática de tortura contra opositores, e a fixou no quadro de avisos da sala do colega Leonel Radde. Abaixo da sigla, escreveu “O bom filho à casa retorna”.

A ideia de Lima era fazer uma brincadeira. Radde havia se licenciado da Polícia Civil para concorrer a uma vaga de deputado estadual pelo PT e retornaria ao trabalho naquela manhã após três meses de afastamento. Além de ter fracassado na eleição, Radde viu o candidato a presidente preferido dos policiais, Jair Bolsonaro, passar ao segundo turno com 46,03% dos votos. Seus colegas não o pouparam. Festejavam a vitória daquele que havia prometido varrer o PT do Brasil e combater a criminalidade. “Eu fiz de sacanagem. O Leonel sofreu muita chacota naquele dia. Toda a delegacia tinha votado no Bolsonaro. E eu também votei, acreditando que ele resolveria o problema da impunidade e valorizaria as carreiras policiais, equilibrando novamente a briga entre bandido e polícia”, relembrou Lima. “Mas hoje estou completamente decepcionado”, completou.

A pedido de Época o instituto de pesquisa Atlas fez um levantamento para medir o grau de apoio e rejeição a Bolsonaro na Polícia Civil, na Polícia Militar (PM) e na Polícia Federal (PF) em todo o país. No retrato tirado pela pesquisa, fica claro que a Polícia Civil foi a que percentualmente menos apoiou o então candidato do PSL nas urnas em 2018 e hoje é a mais crítica. Entre os entrevistados que se declararam policiais civis, 53% disseram ter votado em Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 e, desse total, a maioria, ou 61%, diz hoje estar arrependida. Em termos de erosão de apoio, o segundo grupo é o da PF. Em 2018, 61% optaram por Bolsonaro. Desses, um percentual nada desprezível, 38%, mostra arrependimento.

Na comparação com policiais civis e federais, os PMs são um caso à parte. Foram os que mais teclaram 17 nas urnas eletrônicas em 2018 e, atualmente, dizem, em sua maioria, não estar arrependidos do voto.

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Carta-Capital_CapaCARTA CAPITAL

Brasil – 342 mil mortos e 19 milhões famintos

·  Mais das metades dos lares convive com a insegurança alimentar

·  Depois dos hospitais, é alto o risco de colapso nos cemitérios

- Ciro Gomes: Passada a pandemia, o obscurantismo e o dogmatismo econômico serão derrotados, anota o pedetista em sua coluna

- Exclusivo: Encampada pelo governo Bolsonaro, a “Ferrovia da Soja” é um rosário de agressões à lei, ao meio ambiente e aos indígenas

- Por que Bolsonaro não quer a CPI da Covid-19: Presidente criticou a determinação do STF para instalar a comissão; com a saída de Pazuello, parte das responsabilidades pode cair em seu colo

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