Papa do 'fim do mundo' volta a desafiar tradição da Igreja Católica

Francisco manifestou apoio às leis para a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Da redação, Estadão Conteúdo,
AFP Photo
Francisco aprova união civil entre pessoas do mesmo sexo; postura inclusiva e de aceitação das diferenças marca o pontificado.

O apoio do Papa Francisco às leis para a união civil entre pessoas do mesmo sexo, divulgado nesta quarta-feira (21) em um documentário exibido no Festival de Cinema de Roma, pôs seu pontificado outra vez na linha de rupturas históricas. Com a mensagem, ele reacendeu a disputa feroz com a ala conservadora da Igreja Católica e trouxe de volta as atenções ao Vaticano, esvaziado literalmente desde o início da pandemia da covid-19. “O que precisamos criar é uma lei de união civil”, afirmou.

Ao se apresentar como papa à multidão na Praça de São Pedro, em 2013, Jorge Mario Bergoglio brincou que os cardeais tinham ido buscar um novo pontífice no fim do mundo, numa referência à Argentina.

De lá para cá, Francisco não abandonou, em nenhum momento, o gesto de dialogar para fora dos muros do Vaticano. Nem de brincar com a metáfora do dilúvio. A busca por rebanhos distantes tornou-se, sobretudo, um embate constante com alas conservadoras dos Estados Unidos e da Europa. A postura inclusiva e de aceitação das diferenças marca o pontificado.

Na defesa de mais proteção legal aos homossexuais, Francisco marcou distância, entretanto, de equiparar essa união ao casamento entre homem e mulher, o sacramento. Pela interpretação católica, a família continua sendo formada por um homem e uma mulher, com objetivo de ter filhos. Embora esteja na órbita do direito, isto é, longe da religião, o tema da união civil, no entanto, sempre causa abalos em setores influentes do catolicismo, que fazem campanha declarada contra ele e tira da comodidade bispos e padres, obrigados a dar explicações em suas paróquias e dioceses.

Em março, o papa rezou sozinho na principal praça do cristianismo, uma cena única na história. O novo coronavírus avançava. A imagem do líder global solitário foi quebrada pelo documentário Francisco, do americano de origem russa Evgeny Afineevsky, em que ele se manifesta a favor da união civil entre homossexuais. As entrevistas foram realizadas no Vaticano a partir de 2018. A última ocorreu em junho deste ano.

Num momento em que circulavam impressões em Roma sobre um certo cansaço na proposta do papa de oxigenar a Igreja, Francisco voltou a mostrar convicção num pontificado do “fim do mundo”, periférico. Aliás, o conclave de 2013 buscava, depois dos papados de João Paulo II e Bento XVI, um nome de mudanças. A atuação do então cardeal Bergoglio era por demais conhecida.

Como arcebispo de Buenos Aires, ele apoiou o avanço legal para permissão da união civil de pessoas do mesmo sexo na Argentina. Apesar de incentivador da aceitação, Francisco teve postura mais comedida no Vaticano. Em 2013, logo após ser eleito no conclave, foi questionado no avião papal voltando do Rio sobre a homossexualidade e disse: “Quem sou eu para julgar?”. Mais tarde, em diversas ocasiões, se opôs abertamente ao casamento gay.

Avanços em questões como a união homossexual têm sido um obstáculo a Francisco, visto como um progressista na Igreja. No último Sínodo da Amazônia, por exemplo, ele foi acusado de promover heresias e recuou de autorizar a ordenação sacerdotal de homens casados como padres e de promover mulheres na hierarquia eclesial.

As duas propostas saíram das bases da Igreja na América do Sul, contavam com apoio do episcopado local e de países na Europa, mas ficaram para trás por causa da possibilidade de reforçar um cisma na Cúria Romana. No Sínodo da Família, anos antes, um trecho que propunha a acolhida aos gays também ficou pelo caminho. Um sinal de que a “revolução” de Francisco esbarrava em temas morais ligados à sexualidade.

No ano passado, Francisco havia promovido a cardeais alguns nomes abertos à causa no Vaticano. Entre eles, o cardeal italiano Matteo Zuppi. Ele também recebeu em audiência o padre jesuíta norte-americano James Martin, que trabalha com atendimento de grupos LGBT católicos e milita por mais abertura no Vaticano. Martin definiu como “histórico” o pronunciamento do papa na entrevista.

“O que faz dos comentários do papa à união civil do mesmo sexo tão relevante? Primeiro, ele dizer isso como papa, não como arcebispo de Buenos Aires. Segundo, ele está claramente apoiando, não simplesmente tolerando, a união civil. Terceiro, está dizendo isso em frente às câmeras, não em privado”, escreveu o jesuíta no Twitter.

Para o pesquisador Filipe Domingues, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Gregoriana de Roma, o papa avançou em posicionamentos anteriores ao citar o direito à família, dentro da proposta “pastoral” de seu pontificado.

“Ele foi muito claro. Eles têm direito a ser parte de uma família, para mim é uma grande novidade. É uma abordagem pastoral que ele tem feito, de encontrar as pessoas onde elas estão, de ir ao encontro e aproximá-las de Deus, em vez de exigir que mudem antes de ser acolhidas”, diz Domingues. “Ele evita um pouco esses temas porque a igreja já tem um ensinamento e fala quando quer acrescentar algo novo, neste caso me parece ser o direito a ser parte de uma família.”

A diferença entre o sacramento do casamento, que continua inabalável, e as leis civis pela união homossexual sempre foi ressaltada pela Igreja. Não poderia ser diferente em se tratando de uma instituição milenar que há décadas vê aumentar a concorrência de religiões evangélicas nos países em desenvolvimento.

Longe de mudar uma doutrina da Igreja, a fala do papa, no entanto, espalhou-se como um rastilho na era digital e leva o clero a ter que explicar a suas bases uma posição sobre um tema que julga esclarecida.

O padre e teólogo Manoel José de Godoy, ex-assessor social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), avalia que Francisco fez mais um movimento em favor da inclusão, mesmo contra a campanha de grupos fundamentalistas que bloquearam avanços nos sínodos da Família e da Amazônia. "É um reconhecimento de um dado da realidade”, disse.

“Os casais gays existem, estão marginalizados e precisam de amparo da lei, porque senão vão continuar sendo assassinados, rejeitados pela família, sem amparo financeiro na morte do companheiro, essa situação toda”, completou. “Não é ruptura nem esculhambação com o magistério.”

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