A Igreja Católica e as epidemias: da caça aos gatos às missas pela internet

Adaptando as celebrações da Semana Santa deste ano em razão do coronavírus, a Igreja já foi vetor de epidemias que chegaram a vitimar dois papas.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Reprodução/Vaticano News
Papa Francisco presidiu a Missa da Ceia do Senhor nesta Quinta-feira Santa em uma Basílica de São Pedro sem a presença de fiéis.
SELO-CORONA-100A Igreja Católica, que este ano celebra a Semana Santa com missas sem fiéis, transmitidas pela internet, a fim de evitar a propagação do novo coronavírus, já foi um vetor da disseminação de outras epidemias. Por meio de procissões, aglomerações em missas e até pelo massacres de gatos, a Igreja contribuiu para o avanço de algumas doenças pelo mundo.

O papa Francisco celebrará os dias mais importantes do ano litúrgico cristão, da missa na Quinta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa, dentro ou em frente à Basílica de São Pedro em Roma, que está fechada, sem os fiéis. Em Jerusalém, a Igreja do Santo Sepulcro e a Via Dolorosa, caminho percorrido por Jesus Cristo até a crucificação, também teve o acesso limitado.

Antes da medicina moderna, as epidemias eram consideradas "vinganças divinas",  disse Christophe Dickès, historiador especializado em catolicismo. "Mesmo durante a gripe espanhola (1918-1919), no mundo rural o sentimento de punição por más ações persistia", ressaltou.

O papa Leão XII (1823-1829), que restaurou a Inquisição condenando hereges e recriando guetos judeus na Itália, se opôs à vacinação contra a varíola. Ele a considerava uma novidade diabólica.

Com a explosão da aids na década de 1980, a posição da igreja esteve "claramente centrada no sofrimento dos doentes, apesar de alguns comentários isolados de alguns clérigos sobre as origens divinas da doença", destaca Dickès.

Hoje, uma grande catedral no centro de Nova York foi convertida em um hospital de campanha contra a covid-19. Uma imagem que certamente agrada ao papa Francisco, que pediu aos padres que tenham "a coragem de sair e ir ver" os doentes com coronavírus. A Igreja opera muitos centros de saúde em todo o mundo.

O papa argentino é muito sensível à religiosidade popular. Em 15 de março, ele caminhou até a igreja de San Marcelo al Corso, no centro de uma Roma confinada. Foi rezar diante de um "Cristo milagroso", feito de madeira policromada, resgatado de um incêndio e levado em procissão por 18 dias pelas ruas de Roma para deter a peste em 1522.
Dois papas

A grande peste do século XIV, que teria dizimado entre um terço e a metade dos europeus a partir de 1348, encontrou terreno propício nas procissões religiosas, que aglomeravam fiéis descalços, e missas. Foi a época em que os fanáticos "flagelantes" se açoitavam publicamente em procissões para expiar seus pecados, correndo o risco de espalhar a doença sem saber.

Esses devotos motivaram a perseguição contra os judeus, usados como bodes expiatórios, acusados de envenenar os poços. A situação chegou a tal ponto que o papa Clemente VI de Avignon acabou defendendo os judeus emitindo duas bulas papais.

A prática supersticiosa de matar gatos (a encarnação de Satanás, especialmente quando eles são pretos, segundo um papa do século XIII) também contribuiu para prolongar as epidemias de peste espalhada pelas pulgas dos ratos, dizem os historiadores. Nas áreas rurais, os gatos mantinham os roedores afastados.

Os papas parecem ter escapado das epidemias ao longo dos séculos, mas não todos. O papa da Primeira Guerra Mundial, Bento XV (1914-1922), morreu de gripe espanhola. Muito antes dele, Pelágio II (579-590) foi o único papa que morreu da peste que atingiu a bacia do Mediterrâneo.

Seu sucessor, um monge erudito, Gregório Magno (590-604), teve mais sorte, embora seu método seja mais difícil de repetir hoje. Diz a lenda que ele organizou uma grande procissão para purificar o ar da peste carregando um ícone da Virgem Maria. Quando a procissão passou diante do mausoléu do imperador Adriano, o arcanjo São Miguel apareceu e embainhou sua espada, um sinal de que a epidemia logo terminaria.
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