Moro diz que Bolsonaro "errou" ao ignorar lista tríplice e nomear Augusto Aras

Colunista Eliane Cantanhêde e o repórter Fausto Macedo conversaram com o ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Reprodução
Ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi entrevistado pela colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e pelo repórter Fausto Macedo.

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, foi entrevistado ao vivo nesta sexta-feira (3) pela colunista do jornal O Estado de São Paulo Eliane Cantanhêde e pelo repórter Fausto Macedo. Ex-juiz da Lava Jato, ele comentou os ataques recentes à força-tarefa, negou pretensões eleitorais e voltou a falar sobre as acusações que colocaram o presidente Jair Bolsonaro no centro de uma investigação sobre suposta interferência política da Polícia Federal. Leia abaixo os principais pontos respondidos por Moro.

Operação Lava Jato

Questionado sobre as críticas recentes à força-tarefa, o ex-juiz da operação assentiu que vê ataques a ‘ideias e propostas’ essenciais ao funcionamento da Lava Jato e da agenda anti-corrupção.

Moro afirmou que ainda que há falta de apoio ao trabalho dos procuradores por parte da Procuradoria-Geral da República e do chefe do Ministério Público Federal (MPF), Augusto Aras. “Tenho respeito ao Augusto Aras (chefe da PGR), mas gostaria que ele refletisse mais, ele e a cúpula da Procuradoria. O meu entendimento é que ele deveria se somar a esses trabalhos das forças-tarefa da Lava Jato e de demais forças que terão que ser criadas”, defendeu. “Essa falta de apoio (de Aras às equipes) é realmente preocupante”, avaliou.

A manifestação vem após ‘diligência’ da subprocuradora-feral da República, Lindôra Araújo, braço direito de Aras, no QG da Lava Jato em Curitiba para acessar ‘banco de dados’ das investigações do escândalo Petrobrás, que originou a operação, em 2014.

O ex-ministro disse ainda que acha que o presidente Jair Bolsonaro ‘errou’ ao ignorar a lista tríplice do MPF e nomear Augusto Aras.”O Procurador-geral e o MP tem que atuar com autonomia. Eu acho, e não é uma crítica ao procurador, houve um erro ao presidente não escolher da lista tríplice. É um processo que dava mais segurança. Eventualmente, algumas ações tomadas pelo procurador vão sendo questionadas que talvez não fossem se o procurador tivesse sido escolhido na lista tríplice. O que se espera é que o procurador atue de maneira autonoma, sem interferência”, disse.

Eleições 2022

Moro negou ainda que tenha pretensões de lançar candidatura para concorrer à presidência em 2022, classificou as especulações sobre sua carreira política como uma ‘fantasia’ e afirmou que vai se ‘inserir agora no mundo privado’. “Eu estou fora desse jogo político”, disse.

Em contrapartida, afirmou que, embora tenha saído do serviço público, não saiu do debate público. “Eu não vou me abster de falar que nós devemos ser fiéis aos nossos princípios. E, entre os princípios essenciais para a nossa democracia são o combate à corrupção e o Estado de Direito. Ambos são essencialmente importantes. Se eu sou um problema falando isso, paciência”, afirmou.

Ataques petistas e bolsonaristas

Questionado sobre os ataques de petistas, em razão da Lava Jato, e de bolsonaristas, que passaram a criticá-lo após sua saída do governo, o ex-ministro afirmou que não se vê como inimigo de nenhum grupo, à direita ou à esquerda.

Moro afirmou que considera que fez seu trabalho na Lava Jato de forma correta e técnica, sem pessoalizar as sentenças, e que adotou a mesma postura ao romper com o governo. “Nunca senti satisfação pessoal em qualquer ato que imponha sofrimento a alguém, mesmo que a pessoa merecesse”, afirmou, emendando: “Da mesma maneira agora, com minha saída do governo. Eu só podia fazer aquilo. Eu vi uma interferência na polícia, fiquei na dúvida quanto ao que ia acontecer depois com a Polícia Federal e não me senti confortável para ficar”.

Acusações contra Bolsonaro

Moro deixou o governo no dia 24 de abril, acusando Bolsonaro de tentar interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. Aberto ainda em abril no Supremo Tribunal Federal, o inquérito que apura essas acusações foi prorrogado, na última quarta-feira, 1º, por mais 30 dias, pelo decano da Corte, o ministro Celso de Mello.

O ministro voltou a dizer que ‘cumpriu o seu dever’ e que agora o caso está nas mãos da Justiça. O presidente deve ser ouvido em breve sobre as acusações.”Espero que o presidente diga a verdade quando for inquirido, como deveria ser natural. Eu sei que eu falei a verdade. Se ele vai falar ou não, é uma questão que nós deixamos em aberto”, disparou.

Reunião ministerial

Perguntado sobre o clima da reunião ministerial de 22 de abril, cuja gravação foi tornada pública no inquérito sobre interferência de Bolsonaro na PF e revelou declarações polêmicos de membros do primeiro escalão, Moro afirmou que não foi um momento feliz do governo. “Mas houve momentos melhores e alguns piores”, acrescentou.

Foi o ex-ministro quem indicou ao Supremo que o vídeo conteria indícios da disposição do presidente em interferir nos trabalhos da PF. No encontro, Bolsonaro disse que mantinha um serviço de inteligência paralelo e que tentou fazer trocas ‘na segurança’.

Prisão de Queiroz e as ‘rachadinhas’

Questionado sobre os ânimos no Palácio do Planalto após a prisão do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, pivô que arrastou o filho mais velho do presidente para o centro de uma investigação criminal sobre supostos desvios de salários de funcionários parlamentares, Moro preferiu não fazer comentários específicos sobre o caso. O ex-juiz afirmou que, embora mantenha uma boa relação com ministros militares e com chefe da Economia, Paulo Guedes, não tem contato com representantes do governo Bolsonaro.

Tacla Duran

O ex-ministro disse  ver com ‘estranheza’ a decisão do Ministério Público Federal de retomar as tratativas para acertar um acordo de delação com o advogado Rodrigo Tacla Duran, apontado como operador da Odebrecht, que pode prejudicar seu amigo pessoal, o também advogado Carlos Zucolotto.

“Esse é um caso antigo e não tenho nada a esconder. Se quiserem investigar isso aí, não tem fato nenhum. Agora, me causa estranheza esse fato surgir com minha saída do governo, sendo que esse caso foi arquivado anteriormente.”

Investigado pela Lava Jato, Tacla Duran diz ter pago afirmou ter pago dinheiro ao amigo de Moro para obter vantagens em uma delação premiada, posteriormente frustrada, com a força-tarefa em 2016. Entre elas, uma suposta redução no valor da multa delatória. Duran está foragido no exterior desde 2016, quando foi alvo de um mandado de prisão determinado por Moro.

Reveses no governo Bolsonaro

Recém-eleito presidente, Bolsonaro prometera, em novembro de 2018, ‘carta branca’ para Moro assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ao aceitar o convite, o então juiz abandonou 22 anos de magistratura. “Ele (Moro) vai abrir mão da carreira dele. É um soldado que está indo à guerra sem medo de morrer”, disse Bolsonaro na ocasião.

No governo, Moro acumulou reveses. O pacote anticrime formulado por ele, por exemplo, foi desidratado pelo Congresso. No começo do ano, Bolsonaro também tentou esvaziar o Ministério da Justiça, retirando de Moro a parte reservada ao combate à criminalidade, justamente uma das áreas que apresentava melhor resultado até então.

O ex-ministro continuará recebendo os R$ 31 mil mensais, pagos aos integrantes do primeiro escalão, até outubro. A remuneração a posteriori é determinada uma vez que membros da cúpula governista são proibidos de prestar serviços à iniciativa privada por um período de seis meses após sua demissão, exoneração ou aposentadoria em razão do seu conhecimento sobre informações privilegiadas.

Tags: entrevista Sérgio Moro
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