Em liberdade, Anxo Anton diz que vai provar inocência

Espanhol cumpre pena no regime semiaberto desde a semana passada. Em entrevista exclusiva, ele volta alegar inocência pelo assassinato de Paulo Ubarana.

Fred Carvalho,
Fotos: Vlademir Alexandre
Espanhol Anxo Anton Valiño Gonzáles cumpre pena no regime semiaberto desde a semana passada. Em entrevista exclusiva ao Nasemana, ele volta a alegar inocência pelo assassinato do empresário Paulo Ubarana, crime cometido em setembrode 2004.

"O senhor matou Paulo Ubarana?" "Não". "Tem ideia de quem possa ter feito isso e por quê?" "Também não. O Paulo era uma pessoa muito querida por todos. Se pelo menos imaginasse quem tenha cometido esse crime, já teria dito à polícia. Não havia razão para essa brutalidade".

Essas duas respostas, dadas por diversas vezes pelo empresário espanhol Anxo Anton Valiño Gonzáles a vários veículos de comunicação do Rio Grande do Norte, voltaram a ser repetidas cinco vezes por ele na quinta-feira passada. Mas agora sob uma nova condição: o homem condenado a 19 anos de prisão pelo assassinato do empresário natalense Paulo de Tarso Ubarana, em setembro de 2004, falou pela primeira vez a uma equipe de reportagem após ter passado a cumprir pena no regime semiaberto.

Anxo Anton está no semiaberto desde o dia 18 passado, conforme decisão da ministra Laurita Hilário Vaz, da quinta turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essa determinação, assinada em 16 de dezembro do ano passado, só pôde ser cumprida agora porque na penitenciária de Alcaçuz, onde o espanhol estava preso, não havia condições de ele cumprir o semiaberto. No começo do mês, Anxo foi transferido para a penitenciária estadual de Parnamirim.

A rotina de Anxo desde o dia 18 é a seguinte: ele acorda por volta das 4h, deixa a penitenciária às 5h, passa o dia trabalhando (por precaução, ele não quis informar onde, nem em quê), e retorna para o presídio às 20h. Ele disse que, por medo, todos os dias vem alterando o percurso para "evitar qualquer coisa".

O Nasemana localizou o espanhol, por telefone, na manhã da quinta-feira passada. "O senhor aceita nos conceder uma entrevista?", perguntou a reportagem. "Pode ser, mas só se meu advogado assim permitir e se estiver do meu lado", precaveu-se.

O espanhol pediu uma carona e combinou que encontraria a reportagem em frente ao presídio provisório Professor Raimundo Nonato Fernandes, na Zona Norte de Natal. Mais tarde ele confessou que não ensinou onde está morando atualmente por temor. "Hoje sou uma pessoa repleta de medos. Agora eu tenho medo de todas as pessoas que olham para mim. Como não sabia que realmente se tratava de uma equipe de reportagem, preferi não informar onde estou morando".

Ele disse que já passou por uma situação inusitada depois que está no semiaberto: "Fui reconhecido e abordado na rua por um homem, que acabou me pedindo um autógrafo. Foi constrangedor".

Com um semblante sereno, Anxo, atualmente com 45 anos, falou sobre a relação com Paulo Ubarana, sobre como foi preso e julgado, das coisas que viu na prisão, dos filhos - inclusive do que tem com a dançarina Maria Patrícia da Silva, também condenada pelo assassinato de Ubarana, e sobre o que espera do futuro. "Não tenho ódio de ninguém, mas gostaria de rever muitas pessoas depois que provar que sou inocente. Um dia isso vai acontecer e a pessoa que matou o Paulo vai aparecer".

A progressão

O benefício da progressão do regime fechado para o semiaberto foi dado pela ministra Laurita Hilário Vaz, em caráter liminar, em 19 de dezembro. Pela lei brasileira, Anxo Anton tem o direito à progressão por ter cumprido 1/6 da pena. "O próprio juiz de Nísia Floresta [Marcus Vinicius Pereira Junior] já havia reconhecido isso ao assinar a progressão de regime de Anxo em julho do ano passado", lembrou o advogado André Justo, que defende o espanhol.

No entanto, um mês depois, o juiz voltou atrás da decisão, alegando que o espanhol estava em situação irregular no Brasil e, por isso, não poderia ficar no regime semiaberto. O magistrado entendeu que, com a irregularidade, Anxo não teria como trabalhar no país, o que é uma das exigências para a progressão. Com isso, a defesa de Anxo Anton recorreu com um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.Em novembro de 2008, a Câmara Criminal negou a liminar, o que fez com que o espanhol continuasse no regime fechado. "Diante disso, eu entrei com um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça e, em dezembro, a liminar foi concedida", explicou André Justo.

Na decisão, a ministra Laurita Vaz lembra que, segundo informações da Polícia Federal, Anxo "se encontra em situação irregular no país e responde a processo de expulsão". Mas a ministra escreveu: "(...) após a leitura dos autos, observo, em juízo de cognição sumária, que o pedido liminarmente formulado merece ser concedido".Ela explicou: "(..) no exercício de atividade remunerada ao estrangeiro em situação irregular no Brasil, não se exige que o condenado tenha uma promessa efetiva de emprego, com carteira registrada, podendo exercer qualquer atividade lícita e honesta, inclusive no mercado informal, que permita seu sustento e o de sua família".

Nasemana - O senhor matou Paulo Ubarana?
Anxo Anton -
Não. Não teria coragem de matar ninguém.

Nasemana - O senhor tem suspeita de quem possa ter cometido esse crime?
Anxo Anton -
Eu não faço a menor a ideia. Se tivesse qualquer suspeita, já teria dito à polícia. Eu não vou apontar qualquer pessoa como autora do crime porque poderia estar cometendo o mesmo erro que cometeram comigo.

Nasemana - Qual teria sido o motivo do assassinato de Ubarana?
Anxo Anton -
Também não faço ideia. O Paulo era uma pessoa querida por todos, só tinha amigos. Nunca pensei em nada que possa ter levado a pessoa que o matou a cometer essa brutalidade.

Nasemana - O senhor acha que "armaram" a cena do crime para lhe incriminar?
Anxo Anton -
Se isso aconteceu, não sei quem e nem porque fez isso. Eu também não tinha inimigos. Pelo contrário, tinha grandes amigos e a cada dia só fazia mais.

Nasemana - Por que o senhor veio para o Brasil?
Anxo Anton -
O Brasil é o sonho de consumo para todos que moram lá fora. Eu vim para cá para ser um empreendedor, investir aqui e viver no Rio Grande do Norte.

Nasemana - Qual era o seu patrimônio quando chegou ao país?
Anxo Anton -
Não sei dizer de quanto era exatamente. Mas com certeza daria para eu viver de rendimentos, sem ter que me preocupar com as contas.

Nasemana - E como conheceu o empresário Paulo Ubarana?
Anxo Anton -
Eu fui ao bar Blackout Beer, em Ponta Negra, e me interessei pelo local. Quis comprá-lo de imediato para investir no local. Mas fui informado que a marca pertencia a Paulo Ubarana. Fui apresentado a ele por um contador e por um administrador. Ao contrário do que a polícia sempre disse, não fui eu quem procurou Paulo Ubarana. Nós fomos apresentados e resolvemos firmar uma sociedade.

Nasemana - Mas o senhor devia dinheiro a Paulo Ubarana antes de ele ser assassinado...
Anxo Anton -
Isso é outra mentira. Basta olhar os extratos da minha conta bancária e da dele.

Nasemana - Qual foi a última vez que o senhor viu Paulo Ubarana?
Anxo Anton -
Foi no mesmo dia em que ele desapareceu: 21 de setembro de 2004. Eu e Patrícia (Maria Patrícia da Silva, mulher de Anxo) estávamos em um restaurante em Búzios e o Paulo me telefonou. Disse que estava nesse local e em poucos minutos ele chegou. Conversamos e bebemos um pouco, e em seguida andamos a cavalo. Mas pouco tempo depois ele teve que ir embora porque estava envolvido em uma campanha política e teria uma reunião. Foi a última vez que o vi.

Nasemana - Como foi que o senhor soube que Paulo Ubarana estava desaparecido?
Anxo Anton -
Dois dias depois disso, familiares dele me telefonaram contando que Paulo estava sumido. Primeiro pensei que ele tinha viajado para descansar um pouco. Em seguida comecei a tratar esse desaparecimento como um sequestro. Até o dia em que encontraram o corpo dele.

Nasemana - O cadáver de Paulo Ubarana foi encontrado em um matagal no dia 28 de setembro de 2004. Esse foi o mesmo dia que o senhor e a sua mulher foram presos sob acusação do assassinato. Por que vocês foram presos?
Anxo Anton -
Já fazia uma semana que o Paulo estava desaparecido. Muitas pessoas cobravam da polícia uma resposta para o caso. Quando encontraram o corpo, resolveram nos incriminar para dar essa resposta, uma satisfação para a sociedade e à família dele.

Nasemana - Mas a polícia disse que o senhor confessou o assassinato...
Anxo Anton -
No dia em que fui preso, confessaria qualquer coisa. Fui torturado pelos policiais. Recebi vários socos e chutes. Vi quando colocaram uma pistola na boca da minha mulher e disseram que iriam matá-la se eu não dissesse que tinha matado o Paulo. Falei somente o que eles queriam ouvir.

Nasemana - O senhor manuseava armas de fogo antes da morte de Paulo Ubarana?
Anxo Anton -
Não. Não tinha por costume atirar, como a polícia também chegou a dizer.

Nasemana - Mas o senhor comprou uma pistola antes desse crime?
Anxo Anton -
Comprei sim. Essa arma me foi conseguida pelo capoeirista Jurandir Barbosa (arrolado como testemunha de acusação no julgamento) no mercado da 4 (comércio clandestino de armas que funciona na avenida presidente Quaresma, no Alecrim). Eu a comprei somente para ser usada pelos seguranças do sítio que tinha em Pirambúzios.

Nasemana - Se o senhor alega inocência e diz que faltaram provas para lhe incriminar, por que foi condenado pelo júri popular por um placar de 7 a 0?
Anxo Anton -
Os jurados não estavam totalmente isentos durante o júri. Como esse caso foi de grande repercussão, todos já chegaram ali com a certeza de que, conforme a polícia disse, eu tinha matado o Paulo. Se não fosse isso, os jurados iriam entender minha defesa e me inocentariam. Isso vai mudar em instâncias superiores.

Nasemana - O senhor esteve preso por quase quatro anos e meio. Primeiro no presídio provisório Professor Raimundo Nonato Fernandes, depois na penitenciária de Alcaçuz. Como é a vida na prisão?
Anxo Anton -
O meu sofrimento pessoal por ter sido incriminado por algo que não cometi é maior que o sofrimento na cadeia. Mas posso assegurar que a vida na prisão é uma coisa desumana.

Nasemana - O senhor presenciou alguma atrocidade?
Anxo Anton -
Várias. A última delas foi uma decapitação de um preso a menos de dois metros de onde estava. Não pude fazer nada para evitar o crime porque poderia me tornar uma vítima também. Houve outras coisas terríveis, como violências sexuais absurdas, mas isso é melhor nem contar.

Nasemana - Chegou a pensar que não sairia mais da cadeia?
Anxo Anton -
Por diversas vezes pensei nisso. É triste a pessoa pensar que nunca mais vai sair de uma situação daquelas.

Nasemana - E em suicídio?
Anxo Anton -
Nunca. Sou uma pessoa de vida, não de morte.

Nasemana - Por que o senhor nunca trabalhou na prisão para ser beneficiado com a remissão de pena?
Anxo Anton -
Porque nunca me foi permitido. As coisas para mim sempre foram dificultadas dentro da cadeia. Nunca me deram a oportunidade desse benefício.

Nasemana - Como tem sido a sua rotina desde o dia 18 passado, quando passou a cumprir pena no regime semi-aberto?
Anxo Anton -
Deixo a penitenciária de Parnamirim às 5h e vou para a casa da minha sogra, na Zona Norte (ele não quis informar o bairro). Passo o dia trabalhando com ela (também não quis informar em quê) e cuidando dos meus filhos (Anxo tem três filhos: uma menina de 13 anos na Espanha; uma outra da mesma idade que adotou; e um menino de 3 anos com Maria Patrícia). E à noite retorno para a prisão.

Nasemana - Tem visto Maria Patrícia desde que saiu?
Anxo Anton -
Eu a tinha visto pela última vez no dia do nosso júri. Voltei a encontrá-la no dia 19 passado, por cinco minutos, na João Chaves. Agora vou atrás de uma determinação judicial para poder visitá-la com maior frequência.

Nasemana - Já foi reconhecido nas ruas depois que está no semiaberto?
Anxo Anton -
Passei por uma situação curiosa na sexta-feira, dia 20 passado. Fui abordado por um homem na Zona Norte que me reconheceu. Ele perguntou se eu era mesmo o Anxo Anton e após eu confirmar que sim, me pediu um autógrafo. Foi constrangedor.

Nasemana - O senhor tem medos?
Anxo Anton -
Hoje sou uma pessoa cheia de medos, de receios. Tenho medo das pessoas que cruzo nas ruas. É um sentimento muito ruim. Antes eu me fazia visível. Agora faço questão de ser invisível.

Nasemana - O que o senhor pretende fazer daqui para frente?
Anxo Anton -
Primeiro vou dar toda a assistência a Patrícia. Depois que ela for solta vou tentar mostrar que somos inocentes, que colocaram duas pessoas inocentes atrás das grades.

Nasemana - Já que o senhor alega inocência, acredita que um dia o verdadeiro culpado vai aparecer?
Anxo Anton -
Tenho certeza disso. Um dia toda a história será esclarecida.

Nasemana - Assim, o que vai fazer com aqueles que lhe incriminaram?
Anxo Anton -
Não tenho ódio de ninguém. Não guardo mágoas dessas pessoas. Só gostaria muito de ver novamente a cara de todos que destruíram a minha vida e a minha família. Isso já basta para mim.

Memória
Anxo Anton e a mulher dele, a dançarina alagoana Maria Patrícia da Silva, foram considerados culpados pelo assassinato do empresário Paulo de Tarso Ubarana, proprietário do bar Blackout, na Ribeira. Anxo Anton foi condenado a 19 anos de reclusão em regime fechado. Já Maria Patrícia foi condenada a 16 anos de prisão.

Paulo Ubarana desapareceu no dia 21 de setembro de 2004. A última vez que o empresário foi visto foi na companhia do casal, em um restaurante na praia de Búzios, no mesmo dia do desaparecimento. Uma semana depois, o corpo dele foi encontrado em um matagal nas dunas de Búzios. Ele foi morto com dois tiros de pistola na cabeça.

Desde que foi condenado, Anxo Anton cumpria pena na penitenciária de Alcaçuz, até que foi transferido para o presídio de Parnamirim, onde pernoita atualmente. Maria Patrícia continua presa na ala feminina do Complexo Penal Dr. João Chaves, em Natal.

*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 49 - de 28 de fevereiro a 6 de março de 2009


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