Morre o jornalista e escritor Luiz Maklouf Carvalho

Repórter do Estadão era autor de reportagens e livros históricos sobre os principais personagens da República.

Da redação, Estadão Conrteúdo,
Reprodução / Facebook
Jornalista Luiz Maklouf morrem em decorrência de complicações de um câncer no pulmão.

O jornalista e escritor Luiz Maklouf Carvalho morreu neste sábado (16), aos 67 anos. Repórter de O Estado de S. Paulo, Mak, como era conhecido entre os colegas, foi autor de livros e reportagens que marcaram o jornalismo brasileiro retratando alguns dos mais importantes personagens da República, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao atual ocupante do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro. Ele era repórter do Estadão desde 2016.

Dono de um texto escorreito e reconhecido pelos colegas por sua apuração exata, Maklouf nasceu em 1953, em Belém (PA). Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará. Foi ali que, como revisor de O Liberal,  iniciou a carreira que o levaria a amealhar quase todos os prêmios possíveis que um jornalista pode ganhar neste País.  Em seu estado natal, Maklouf foi repórter dos diários A Província do Pará e o Estado do Pará, onde ganhou seu primeiro grande prêmio, o Esso, de reportagem. Editou ainda o jornal Resistência, da Sociedade Paraense dos Direitos Humanos, obtendo o primeiro de seus quatro prêmios Vladimir Herzog.

Era correspondente do jornal Movimento, da chamada imprensa alternativa, de São Paulo, começando aí sua relação com as redações da grande imprensa paulista. Ele as conheceu quase todas. A partir de 1983, mudou-se para a cidade que o acolheria e testemunharia a sequência de sua carreira e o nascimento do escritor de livros reportagens que o levariam a dois prêmios Jabubi: em 1998, com o Mulheres que foram à Luta Armada (1998), a primeira obra a contar a experiência das militantes que pegaram em armas contra a ditadura, entre as quais a ex-presidente Dilma Rousseff; e, em 2005, com Já vi esse filme - reportagens (e polêmicas) sobre Lula e/ou PT , que reuniu textos que mostravam o percurso do partido que então dominava o Poder Executivo do País. 

Maklouf também é autor de Contido a bala – A vida e a morte do advogado Paulo Fonteles, advogado de posseiros no sul do Pará, (Cejup, 1994), livro que foi sua estréia como escritor. Nos anos seguintes, seu interesse pelos conflitos na região o levaria a escrever O Coronel Rompe o Silêncio, com o depoimento inédito do coronel Lício Augusto Ribeiro, um veterano do combate à Guerrilha do Araguaia. Também foi autor de Cobras Criadas, a biografia de David Nasser, o mais famoso e polêmico repórter dos anos 1950, cuja trajetória se confunde com o da revista O Cruzeiro, do grupo dos Diários Associados. Tinha fascinação por grande pesongens e suas histórias e foi assim que sua trajetória o levou ainda a ser coautor de Vultos da República.

Quando trabalhava, no Jonal da Tarde, do Grupo Estado, na década de 1990, Maklouf revelou o primeiro escândalo de corrupção do PT, o chamado “caso CPEM”, em referência a uma empresa de consultoria com esse nome. A reportagem ouviu a acusação do então dirigente petista Paulo de Tarso Venceslau, contra a empresa e o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, então presidente de honra do PT. A empresa havia sido contratada sem licitação por prefeituras petistas para prestar assessoria no setor de arrecadação de impostos. Em contrapartida, a consultoria daria dinheiro para campanhas do partido.

Depois, o ex-dirigente também questionou o fato de Lula morar em imóvel de Teixeira de graça, durante oito anos. "Depois de sua reportagem, me aproximei do Maklouf. Tínhamos algumas coisas em comum. A reportagem teve uma repercussão enorme", afirmou Venceslau. Ainda nos anos 1990 e 2000, Maklouf passou pelas redações dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil e da revista Época. Até retornar ao Grupo Estado, como repórter do Estadão. Foi então que iniciou uma série de reportens traçando o perfil dos novos protagonistas da política nacional, pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff.

Durante a campanha eleitoral de 2018, Maklouf encontrou um tesouro que soube ler e escutar: a cópia do processo e os aúdios do julgamento do então capitão Jair Messsias Bolsonaro, que levaram à sua absolvição pelo Superior Tribunal Militar (STM) depois de ele ter sido condenado por 3 a 0 por um Conselho de Justificação do Exército, um tribunal de honra militar que concluíra que o então oficial mentira e faltara com o pundonor na investigação sobre um plano para colocar bombas em quartéis. 

Maklouf descobriria que Bolsonaro foi eleito presidente sem que o País conhecesse as circunstâncias sobre o mais grave episódio que marcou sua carreira militar e antecedeu sua entrada para a política. O plano terrorista era um protesto contra os baixos soldos em 1987. De seu trabalho como repórter nasceria seu último livro: O cadete e o capitão: A vida de Jair Bolsonaro no quartel, publicado em 2019.

O escritor já lutava então contra a doença que provocaria sua morte: um câncer no pulmão. Em relato que ele escreveu para o jornal em 2018, Maklouf explicou que se tratava de um tipo de câncer que afeta quem já foi fumante. “Não faz nenhuma diferença se você parou de fumar pra lá de 15 anos, como no caso”, explicou. Ele chegara a fumar três maços por dia e foi tratado com imuno-quimioterapia. Nos últimos dias, estava internado no A.C.Camargo Cancer Center, na Liberdade, em São Paulo.

De Maklouf disse hoje o deputado federal Marcelo Ramos (PL-AM), um dos políticos que o repórter perfilou para o Estadão. "O Brasil acabar de perder um grande brasileiro e um dos maiores jornalistas do país. Luiz Maklouf perdeu a guerra para o câncer de pulmão.  Certo dia, após ser anunciado como relator da Reforma da Previdência, recebi uma ligação pedindo uma entrevista especial para o jornal O Estado de S. Paulo. Marquei de receber o jornalista no hotel que eu morava aqui em BSB. Foi a melhor entrevista que já concedi na minha vida."

Maklouf deixa mulher, Elza, com quem veio para São Paulo em 1984, dois filhos filhos, Luiza e Felipe, e três netos, Malu, Liz e Vicente. "Um amante do Machado. Me apresentou tudo o que eu aprecio culturalmente falando, Guimarães, Flaubert, Chico, Caetano, Belchior, Beatles, Bethânia, Velha Guarda da Portela, Miles Davis, Fernando Pessoa... Como eu amo a lembrança dele recitando Álvaro de Campos, Poema em Linha Reta, em um dos nossos tantos memoráveis almoços de domingo da infância e adolescência", escreveu a filha. O velório será neste sábado, no cemitério de Vila Mariana; e o enterro, nesta tarde.

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