Nobel de Medicina foi menino de rua em ocupação nazista

Mãe do italiano Mario Capecchi foi mandada para campo de concentração de Dachau. Dos quatro aos nove anos, ele passou fome, só se alfabetizando nos EUA

Para Mario Capecchi, um italiano naturalizado americano de 70 anos que é um dos três ganhadores do Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina deste ano, a vitória coroa uma vida de superação.

Com apenas quatro anos de idade, ele foi separado de sua mãe -- a mulher foi levada pelos nazistas para o campo de concentração de Dachau, como prisioneira política.

Durante quatro anos, Capecchi teve de viver em orfanatos ou como menino de rua, "a maior parte do tempo passando fome", contou ele numa publicação de 1997 da Universidade de Utah em Salt Lake City, onde trabalha hoje.

A desnutrição acabou fazendo com que ele fosse parar num hospital, onde sua mãe finalmente o reencontrou quando ele tinha nove anos.

Duas semanas depois, os dois partiram para os Estados Unidos, onde ele freqüentou a escola pela primeira vez. Entrou direto na terceira série, embora não soubesse inglês.

Capecchi divide o prêmio deste ano com o britânico naturalizado americano Oliver Smithies, 82, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, e Sir Martin J. Evans, 66, britânico da Universidade de Cardiff, no País de Gales.

O trabalho do trio possibilitou o surgimento da técnica de "nocaute" de genes, que permite inativar com precisão trechos de DNA e, assim, monitorar sua função no organismo de cobaias. O sistema ajuda a simular doenças humanas em camundongos e, assim, aprender exatamente quais as mudanças que elas causam no organismo.

Em entrevista, Capecchi disse que a premiação tinha sido "uma surpresa fantástica". A ligação do comitê sueco que coordena o prêmio veio às 3h no horário de Salt Lake City. "A pessoa no telefone parecia muito séria, então a minha primeira reação foi 'bem, isso deve ser verdade'", contou o pesquisador.

Evans, que estava visitando sua filha em Cambridge, na Inglaterra, relatou: "Ainda não me dei conta direito do que aconteceu. De muitas maneiras, essa é a nossa aspiração científica desde meninos, não é? E aqui estou eu com ela, sem nunca ter esperado isso. É fantástico".

O trabalho de Capecchi revelou o papel de genes envolvidos no desenvolvimento dos órgãos de mamíferos. Evans criou linhagens de camundongos geneticamente modificados para estudar a fibrose cística, enquanto Smithies usou os roedores para estudar a pressão alta e as doenças cardíacas. 

Fonte: G1
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