Interesses políticos internos estão por trás da ofensiva israelense, diz relator especial da ONU

Observadores da ONU apontam que as eleições gerais no país, marcadas para fevereiro, motivam a ação militar israelense.

Agência Brasil,
O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a situação dos Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, o professor da Universidade de Princeton, Richard Falk, considerou ontem (7), em São Paulo, que a ofensiva militar israelense dá mostras de estar atrelada a motivações políticas internas do país.

Segundo Falk, que foi impedido de entrar em Israel, em dezembro de 2008, para realizar sua primeira missão como relator especial, demais observadores da ONU apontam que as eleições gerais no país, marcadas para fevereiro, motivam a ação militar israelense.

“A proximidade das eleições majoritárias está levando observadores a concluírem que o timing desta operação tem o objetivo de mostrar que tanto o ministro da Defesa [Ehud Barak], como a das Relações Exteriores [Tzipi Livni], ambos candidatos, são mais poderosos, e utilizam mais a força; são mais competentes para usar a força do que o outro candidato, que é o [Benjamin] Netanyahu”, disse em entrevista coletiva na capital paulista.

O relator afirmou que não crer que os conflitos da região sejam motivados pela existência do Hamas, mas às ambições políticas das lideranças de Israel, “que utilizam esse tipo de argumento para não negociar uma paz eficaz”.

“Desde o começo, após a eleição eles [o Hamas] propuseram arranjos de trégua até de longo prazo. E indicaram que viveriam em paz com Israel se o país voltasse as suas fronteiras de 1967. Não é justo focalizar nas inadequações dos Hamas como sendo o foco”, afirmou.

O professor ressaltou que considera que a ONU deveria exigir uma trégua imediata da ação militar israelense, a retirada do exército dos territórios ocupados e o fim imediato do bloqueio à Faixa de Gaza. Também deveria impor a proibição imediata de qualquer lançamento de foguetes originados de Gaza. No entanto, ele reconhece a dificuldade da organização internacional em tomar decisões contundentes.

“As Nações Unidas só agem de forma eficaz quando seus principais membros desejam que isso ocorra. A oposição dos Estados Unidos a proteção aos palestinos tem feito com que as Nações Unidas ignorem ou descumpram compromissos da Carta das Nações Unidas”, disse.

O relator da ONU considerou ainda que os ataques israelenses estão criando uma situação bastante favorável aos palestinos no tocante a opinião pública internacional. “O horror do mundo frente aos ataques militares criou uma nova situação política no mundo, que é o sofrimento dos palestinos. É um novo fato esse, a percepção desse sofrimento. E esse é um projeto compartilhado que é o mais importante depois da luta contra o Apartheid na África do Sul".

Falk afirmou que as violações de direitos humanos cometidos por Israel justificariam a realização de uma investigação profunda para elucidar se elas constituem efetivamente um crime contra a humanidade. “Se elas constituírem, aí seria necessário um processo criminal. Mas você tem um complicador que é que Israel não é membro do Tribunal Internacional, e isso exigiria um tribunal especial, como foi feito no caso de Ruanda”, afirmou.
A+ A-