Em baixa nas pesquisas e com economia em queda, Trump sugere adiar eleições

Presidente dos EUA aparece atrás do concorrente Joe Biden e alega existência de fraudes sem evidências.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Kevin Lamarque/Reuters
No dia 3 de novembro de 2020, 224 milhões de eleitores americanos irão às urnas e darão seu veredicto sobre a presidência de Donald Trump.

Pressionado pelo mau resultado nas pesquisas eleitorais, o presidente Donald Trump defendeu nesta quinta-feira (30), pela primeira vez, o adiamento da eleição americana agendada para 3 de novembro após fazer críticas à ampliação do voto por correio na disputa deste ano. No início da noite, em entrevista coletiva, Trump sugeriu que o voto por correio pode fazer com que não se conheça o vencedor por “semanas, meses ou até anos”.

“Quero ter o resultado da eleição. Não quero esperar por três meses e descobrir que há cédulas faltando”, disse Trump, no início da noite. Pela manhã, no Twitter, o presidente afirmou que a votação será a “mais imprecisa e fraudulenta da história”. “Será uma grande vergonha para os EUA. Adiar as eleições até que as pessoas possam votar de maneira adequada, segura e protegida???", escreveu o presidente. O tuíte veio pouco depois de o Departamento de Comércio anunciar uma queda recorde, de 32,9%, no Produto Interno Bruto (PIB), no segundo trimestre deste ano.

 A proposta teve forte reação contrária de parlamentares, incluindo republicanos. Horas mais tarde, ao responder a perguntas de jornalistas na Casa Branca, ele disse que não gostaria de mudar a data mas continuou a desacreditar o processo eleitoral e sugerir que há fraude no uso de voto por correio. O movimento foi um passo adiante na estratégia do presidente de desacreditar o processo eleitoral, conforme perde espaço para o democrata Joe Biden na disputa pela Casa Branca.

Sondagens nacionais de diferentes institutos, compiladas pelo site Five Thirty Eight, mostram o ex-vice-presidente com 8 pontos porcentuais na frente de Trump. Em Estados que deram a vitória a republicano em 2016, a diferença em favor de Biden é de 7 pontos porcentuais.

Trump não teria autoridade para determinar o adiamento das eleições, pois a constituição americana estabelece que cabe ao Congresso decidir o calendário eleitoral e a definição da data foi estabelecida em lei federal de 1845. Para alterar o calendário, seria necessário chegar a um acordo bipartidário nas duas casas legislativas -- Câmara, de maioria democrata, e o Senado, de maioria republicana.

Nenhum dos dois partidos abraçou a sugestão. Parlamentares rechaçaram a possibilidade de mudar a data da eleição imediatamente após o tuíte de Trump. O líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConnell, disse que "nunca na história do país, entre guerras, depressões e Guerra Civil" os americanos deixaram de ter o cronograma eleitoral cumprido.

"Nós encontraremos um jeito de fazer isso novamente em 3 de novembro", afirmou em uma entrevista. Ted Cruz, Marco Rubio e Lindsey Graham, republicanos que são parte do apoio sólido de Trump no Senado, também refutaram a possibilidade.

Ainda que os parlamentares dos dois partidos aderissem à possibilidade de mudar a data da eleição, o que é improvável no cenário atual, há pouco espaço para efetuar a mudança. As datas de posse do presidente, em 20 de janeiro, e do Congresso, em 3 de janeiro, são estabelecidas na Constituição e não podem ser alteradas em um processo legislativo tradicional.

Trump está pressionado pelo crescimento de Biden nas pesquisas de intenção de voto nacionais e nos Estados-chave para definir a eleição, em meio a avaliação ruim que a população americana faz da sua gestão da crise atual. Os EUA têm o maior número de infectados e mortos por coronavírus no mundo e superaram nesta semana a marca de 150 mil óbitos.

A pressão de Trump para reabrir a economia não evitou que nesta quinta-feira o país anunciasse o pior resultado da atividade econômica desde a Grande Depressão, com queda de 32,9% no PIB do segundo trimestre de 2020, em termos anualizados.

Os procedimentos de votação na eleição americana são descentralizados, definidos por cada um dos Estados. Além do comparecimento presencial no dia da votação há possibilidade de voto por correio ou o voto presencial antecipado. Para evitar aglomerações, em razão da pandemia de coronavírus, muitos Estados têm revisto as regras eleitorais e ampliado a possibilidade de votação não presencial, admitindo o voto por correio sem necessidade de justificativa.

A maioria dos americanos (65%) acredita que qualquer eleitor deve ser ser autorizado a votar antecipadamente ou pelo correio sem necessidade de justificativa. A pesquisa divulgada em julho pelo Pew Research Center identificou ainda que 14% acreditam que é preciso apresentar um motivo, mas defendem que a pandemia é uma razão que deve ser aceita pelas autoridades eleitorais.

Sem indicações para aumento de fraude

O procedimento do voto à distância pode, segundo especialistas, atrasar o conhecimento do resultado da eleição, mas não há indicações de que haja aumento de fraude nesse processo eleitoral. A possibilidade de votar por correio é admitida em todos os Estados, inclusive nos tradicionalmente republicanos, e o próprio presidente usou o voto por correio durante as primárias da Flórida em março.

Esta não é a primeira vez que Trump alega que há fraude no processo eleitoral. Após 2016, ele estabeleceu uma comissão para apurar o tema com relação às eleições de 2016 - das quais Hillary Clinton venceu o voto popular, mas Trump conseguiu a maioria dos votos no Colégio Eleitoral. A comissão acabou sendo desfeita por falta de provas.

Tags: Estados Unidos
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