Da Broadway às ruas de Natal

Há 26 anos elas causam furor nas ruas da cidade. O Bloco das Kengas revitalizou o carnaval e se tornou a atração principal do domingo de folia.

* Luiza Mendes, especial para o Nominuto.com,
Hugo Macedo
As fantasias e as pinturas no rosto abusam das cores e dos brilhos.
1983, domingo de carnaval. Na rua Felipe Camarão, Centro da cidade, começava um movimento curioso. Quem passava por ali parou para ver aquele grupo de amigos dar início a uma das maiores tradições do carnaval de Natal.

Eram homens trajando roupas, não só femininas como também coloridas e bastante chamativas. O irreverente bloco chama-se As Kengas – Um trocadilho com o coco e a prostituta nordestina.

Foi durante uma das noitadas na antiga boate Broadway, localizada no Centro Histórico de Natal, que Lula Belmont e alguns amigos tiveram a idéia de resgatar o carnaval daquela região da cidade. Mas como faria isso sem apoio e sem dinheiro? Com muita imaginação e criatividade.

A proposta era formar um bloco diferente. A alegria e o espírito do carnaval seria resgatado através de homens vestidos de mulheres, ou melhor, homens incorporando verdadeiras kengas.

Naquele ano, mesmo com dificuldades, a charanga saiu às ruas, levando cerca de 200 pessoas. Kengas, curiosos, crianças, idosos, todos marchando no ritmo da folia. O carnaval do Centro de Natal renascia ali, em meio à diversão e à irreverência dos participantes daquele bloco, que hoje já agrega mais de 15 mil pessoas.

Nos anos seguintes, As Kengas continuaram marcando presença pelas ruas, partindo da Ulisses Caldas e descendo as ladeiras rumo ao bairro da Ribeira. Este ano, o percurso do bloco vai se restringir ao Centro da cidade.



A solução para os problemas de orçamento e organização vieram seis anos depois do primeiro desfile: a criação do “Baile das Kengas”, com a cobrança de bilheteria, para bancar o desfile, a uma semana antes do começo do festejos carnavalescos. O baile, hoje, é uma prévia do domingo de carnaval. É nessa noite que é feita a escolha da Rainha das Kengas, concurso que julga a melhor caracterização da noite.

A escolha é feita por uma comissão julgadora composta por sete pessoas. Cada Kenga que se propõe a desfilar na passarela do baile recebe uma ficha com um número, a identidade é sempre preservada. A identificação se reduz ao número da inscrição ou a um pseudônimo irreverente: Samantha Raio Laser, Dani Twister ou que remetam a alguma famosa: Jujú Zeta-Jones, um divertimento à parte na hora das apresentações. Os nomes verdeiros dos concorrenter só são revelados no momento na premiação.

As fantasias e as pinturas no rosto abusam das cores e dos brilhos, chegam a deixar os concorrentes irreconhecíveis. A preservação da identidade já até gerou polêmica. Em 1992 o ganhador do concurso foi uma mulher. Maria da Guia enganou a comissão julgadora e a todos os participantes do baile. Da Guia, como é conhecida, se fantasiou de Kenga e levou a faixa de rainha para casa, desbancando as genuínas kengas.

Em 2009 o tema do bloco é “Kengas no maior fuxico”, um trocadilho que remete ao buxixo, a fofoca e também ao fuxico tradicional do artesanato nordestino, feito com pedaços de tecido.

O glamour das kengas



A trajetória animada do bloco está registrada numa exposição do fotógrafo Hugo Macedo. Poses, caras e bocas foram capturados pelas lentes de Hugo, que durante os anos de 2006 e 2007 fotografou as famosas moças. As imagens de Hugo ilustram esta reportagem.

 A exibição conta com 35 fotografias, em tamanho 25 x 38, decorando as paredes do Bardallo’s, na Cidade Alta. São imagens feitas em forma de porta-retrato, uma maneira que retrata as persenagens sem interferência da multidão. Dá destaque às pinturas, a arte, as cores e os brilhos das Kengas.

A exposição é um grande sucesso e atrai todos os públicos admiradores da fotografia. E aqueles que se veem estampando os quadros da parede do bar já pensam em adquirir os cliques de Hugo. Mas, por enquanto as imagens são somente para exibição.

De acordo com Hugo, o estado de espírito e o bom humor das meninas favorecem o trabalho do fotógrafo: “É muito fácil tirar fotos delas, são extrovertidas e adoram fazer poses. Elas se preparam mesmo para o momento”.

Posadas ou naturais, a exposição mostra diversos rostos, cheios de brilhos, cores e irreverência.

A exposição fotográfica “O glamour das Kengas” ficará em cartaz até a quarta-feira de cinzas no Bardallo’s. Depois dessa data, segue para a boate Vogue, no Alecrim, onde as fotos poderão ser compradas.

* Estudante de Comunicação Social da UFRN
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