Como um incidente na Mesquita de Al-Aqsa levou à onda de violência em Gaza

Policiais israelenses interromperam oração em mesquita no Ramadã.

Da redação, Estadão Conteúdo,
AFP
Tumultos na mesquita de Al-Aqsa são apontados como início da nova onda de violência entre israelenses e palestinos.

Vinte e sete dias antes do primeiro foguete ser disparado de Gaza na semana passada, um esquadrão de policiais israelenses entrou na mesquita de Al- Aqsa, em Jerusalém, atravessou seu enorme pátio de calcário e cortou cabos dos alto-falantes que transmitiam orações aos fiéis de quatro minaretes medievais.

Era a noite de 13 de abril, o primeiro dia do mês sagrado muçulmano do Ramadã. Era também o Dia da Memória em Israel, que homenageia aqueles que morreram lutando pelo país. O presidente israelense, Reuven Rivlin, fazia um discurso no Muro das Lamentações, um local sagrado judaico que fica abaixo da mesquita e as autoridades israelenses temiam que as orações o abafassem. O incidente quase não foi registrado.

Em retrospectiva, a batida policial, um dos locais mais sagrados do Islã, foi uma das várias ações que levaram, menos de um mês depois, à repentina retomada da guerra entre Israel e Hamas.

Antes da escalada, Gaza lutava para superar uma onda de infecções por coronavírus. As principais facções políticas palestinas, incluindo o Hamas, já olhava para as eleições legislativas palestinas marcadas para março, as primeiras em 15 anos. Em Gaza, onde o bloqueio israelense contribuiu para uma taxa de desemprego de cerca de 50%, a popularidade do Hamas diminuía à medida que os palestinos falavam cada vez mais da necessidade de priorizar a economia em vez da guerra.

O clima, porém, começou a mudar naquele dia 13 de abril. O corte do som dos alto-falantes soou como desrespeitoso. Por anos, os israelenses foram complacentes, alimentados por mais de uma década de governos de extrema direita que trataram as demandas palestinas por um Estado como um problema a ser contido, não resolvido.

O incidente com o alto-falante foi seguido por uma decisão da polícia de fechar uma praça popular fora do Portão de Damasco. Os jovens palestinos geralmente se reúnem ali à noite durante o Ramadã. Para os palestinos, foi outro insulto.

Veio então uma escalada mais dramática: uma batida policial na mesquita de Al- Aqsa na sexta-feira (7). Policiais armados com gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha invadiram o complexo , dando início a confrontos com manifestantes revidando com pedras.

Em 10 de maio, o Dia de Jerusalém, veio outra disputa. Nacionalistas judeus marcam a data marchando pelo bairro muçulmano da Cidade Velha e tentando visitar o Monte do Templo, onde está Aqsa. A combinação da marcha, as tensões na mesquita e a possibilidade de uma ordem de despejo em Sheikh Jarrah criaram um caldo perigoso.

O governo israelense lutou para conter as tensões, mas naquela manhã a polícia invadiu Al-Aqsa novamente. No último minuto, o governo redirecionou aos nacionalistas para longe do bairro muçulmano. Mas era tarde. Pouco depois, o lançamento de foguetes começou.

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