Brasileiros na Itália relatam ruas vazias e corrida por máscaras por causa de coronavírus

Norte de país suspendeu eventos e até tradicional carnaval de Veneza; existe muito alarmismo, diz arquiteto.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Miguel MEDINA / AFP
Um homem usa máscara protetora e brinca com pombos na Piazza del Duomo, no centro da cidade italiana de Milão.
Há três anos em Milão, o primeiro contato da jornalista brasileira Mari di Pilla com a situação de pânico por causa do novo coronavírus se deu na quinta-feira (20), durante um desfile na semana de moda local. “Já se comentava bastante, mas ninguém ainda usava máscara. No dia seguinte, tudo mudou e o uso se generalizou. Até que no domingo dois desfiles importantes foram cancelados”, conta. No país europeu, já foram confirmadas sete mortos e mais de 220 casos da doença.

Um decreto do Ministério da Saúde, com disposições específicas e destinadas aos residentes da Lombardia, foco do surto em 11 cidades, cancela eventos e pede às pessoas um “toque de recolher voluntário”, ao “evitar frequentar lugares superlotados e de participar de manifestações”.

Entre as medidas extraordinárias, válidas até dia 1.º, há restrição na circulação entre as cidades afetadas, fechamento de 5.500 escolas, além de creches, teatros, cinemas e museus. No domingo, 23, o chefe da região do Vêneto, Luca Zaia, suspendeu até o tradicional carnaval de Veneza.

No esperado desfile de Giorgio Armani em Milão, os modelos desfilaram na passarela excepcionalmente sem plateia – jornalistas e compradores puderam acompanhar o evento ao vivo, mas pelas redes sociais.

Moradora do agitado Naviglio, bairro central de Milão, famoso por sua vida noturna e seus canais navegáveis, projetados por Leonardo da Vinci, Mari aliás se surpreendeu com a ausência de pedestres no local.

Segundo o motorista de Uber brasileiro Wenderson, há dois anos em Milão, o movimento caiu ao menos 40%. “Ninguém quer saber de sair de casa." Cenas como a de El Duomo e do Ópera alla Scala fechados, famosos pontos turísticos, começam a correr o mundo.

Curadora do Salão Satélite, mostra que ocorre paralelamente ao Salão do Móvel de Milão, Marva Griffin teve de rever seus planos de viagem. Com conferência confirmada para março, em São Paulo, ela cancelou seu compromisso. “Nossa diretoria proibiu qualquer deslocamento de nosso staff para o exterior até segunda ordem. Jamais vi situação como esta.”

“Se fala de tudo e de modo confuso: isolamento, fechamento de escolas, cinemas, teatros. Mas a cada nova notícia, o resultado é o mesmo, com as pessoas correndo para estocar comida”, conta o arquiteto brasileiro Gustavo Minosso, há 12 anos em Milão. Apesar de continuar a frequentar seu escritório normalmente, Minosso tem evitado lugares fechados. Até o momento, não vê motivos para pânico. “Existe muito alarmismo."

Morador da pequena Bergamo, a cerca de trinta quilômetros de Milão, o agente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Tomaso Raboni concorda com o arquiteto. Apesar da atmosfera geral na cidade ser de muita preocupação, com registro de desabastecimento generalizado, principalmente de álcool em gel, ele se mostra até otimista. “Acredito que a situação deve se estabilizar nos próximos dias. O vírus pode até se espalhar, mas apenas as pessoas debilitadas são mais vulneráveis."

Quem tem viagem marcada já revisa planos

Entre os brasileiros que pretendem se deslocar para Milão, ou arredores, nos próximos dias – e meses – a sensação geral é de espera. “Até o momento, não tivemos nenhum tipo de desistência”, diz a agente de viagens Simonetta Occhionero.

Um de seus clientes, no entanto, o empresário gaúcho Edson Busin, diretor de marketing da Dell Ano, já está revisando seus planos de viagem para o Salão do Móvel de Milão, marcado para abril. “Há seis meses programamos a viagem, mas na sexta faremos uma reunião final para decidir sobre nossa ida e, pelas notícias que temos até agora, a possibilidade de que ela não ocorra é bem grande.”

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