Veja o caminho do dinheiro das ‘rachadinhas’ na conta do ex-assessor de Flávio Bolsonaro

Dos indícios do Coaf ao pagamento de mensalidades da escola e do plano de saúde para a família do senador: entenda como funcionava o 'esquema Queiroz' na Alerj.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Divulgação/Alerj
Ministério Público investiga o destino de milhões de reais movimentados por funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Um documento de 422 páginas, entregue ao Ministério Público Federal em dezembro de 2018, deu início a uma investigação sobre o destino de milhões de reais movimentados por funcionários da Assembleia Legislativa do Rio. Elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o documento continha o nome de 22 servidores do Legislativo carioca. Entre eles estava Fabrício José Carlos de Queiroz.

Até outubro daquele ano, Queiroz estava lotado como assessor no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Ex-policial militar, ele trabalhou como motorista e segurança do filho mais velho de Jair Bolsonaro, à época deputado estadual.

Responsável por monitorar transações bancárias atípicas, com informações enviadas pelos próprios bancos, o Coaf apontou naquele primeiro relatório que o ex-assessor havia movimentado R$ 1,2 milhão em 12 meses, conforme revelou o Estadão. O período investigado no documento ia de janeiro de 2016 ao mesmo mês do ano seguinte. Mais tarde, os órgãos de controle chegariam à conclusão de que ele movimentou mais do que o dobro no período de três anos.

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Queiroz e família

Fabrício Queiroz e Jair Bolsonaro se conheceram em 1984, na Vila Militar do Rio. Os dois integravam a Brigada de Infantaria Pára-Quedista, do Exército. A amizade lhe rendeu a indicação para o gabinete do filho.

Foram mais de 10 anos como servidor público da Assembleia. Nomeado em 2007, Queiroz ocupou cargos de confiança durante três dos quatro mandatos de Flávio como deputado estadual.

Segundo depoimentos dele e do senador, Queiroz tinha autonomia para indicar pessoas de sua confiança aos cargos do gabinete. Por ali passaram sua mulher, Márcia, as filhas Evelyn e Nathalia, além de vizinhos e amigos.

O Ministério Público do Rio (MP) identificou 11 assessores como integrantes desse círculo social de Queiroz. Todos eles repassaram parcelas consideráveis de seus salários à conta do ex-PM.

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A "rachadinha"

A prática ilícita conhecida no meio político como “rachadinha”, “rachid” ou “esquema dos gafanhotos”, na terminologia do MP-RJ, consiste em repassar parte ou todo o salário de funcionários. No Código Penal, está previsto no artigo 312, como crime de peculato.

Apenas no núcleo de 11 assessores mais próximos a Queiroz, foram identificados mais de R$ 2 milhões em repasses diretamente à sua conta, por meio da quebra de sigilo bancário. Outros R$ 900 mil foram também depositados na sua conta, sem que os promotores pudessem comprovar a origem. A suspeita é de que sejam o mesmo tipo de repasse, desses e de outros assessores que passaram pelo gabinete de Flávio.

Para o valor de R$ 2 milhões, foram considerados apenas transferências em nome de Queiroz ou casos em que houve coincidência exata nos valores de saques e depósitos. Boa parte dos repasses foi feita em dinheiro: os assessores retiravam valores em espécie e, no mesmo dia, um valor idêntico entrava na conta bancária de Queiroz.

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As ligações com o capitão Adriano, miliciano do Escritório do Crime


As transferências de dinheiro para a conta de Queiroz também mostram sua ligação com Adriano Magalhães da Nóbrega. Ex-capitão do Bope, Adriano teve sua prisão decretada em janeiro de 2019 sob a acusação de integrar o grupo miliciano Escritório do Crime. Ele passou mais de um ano foragido até sua morte, na Bahia, durante uma ação policial.

Colega de Queiroz no 18.º Batalhão da PM, no Rio, Adriano conseguiu a nomeação de sua ex-mulher e de sua mãe em cargos no gabinete de Flávio. As duas repassaram parte do salário a Queiroz, mas a relação financeira foi além.

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Tanto Adriano quanto sua mãe, Raimunda Veras Magalhães, constam como proprietários de pizzarias no Rio. Contas ligadas aos restaurantes repassaram um total de R$ 69,2 mil em cheques e transferências a Queiroz. O MP-RJ identificou uma agência bancária na mesma rua dos restaurantes administrados por Raimunda, de onde foram depositados R$ 91,8 mil em dinheiro vivo na conta do operador.

As despesas do casal Flávio e Fernanda

Os promotores do MP do Rio encontraram ao menos R$ 31,9 mil pagos por Queiroz que beneficiaram diretamente Flávio Bolsonaro e sua mulher, Fernanda Antunes Bolsonaro. Isso ocorreu em duas ocasiões.

A mulher de Flávio recebeu pessoalmente um depósito de R$ 25 mil em dinheiro do ex-PM, em agosto de 2011. Queiroz, que carregava dinheiro vivo, só foi identificado neste caso por causa do alto valor da remessa. Esse depósito ocorreu uma semana antes de Fernanda fazer um pagamento a uma imobiliária, o que aponta para a hipótese de o dinheiro de Queiroz ter ajudado a quitar a compra de um imóvel.

Além disso, Queiroz foi gravado enquanto pagava dois boletos da escola onde as filhas de Flávio estavam  matriculadas. O MP conseguiu cruzar o momento das imagens do assessor na agência bancária da Alerj, às 10h26 de 1º de outubro de 2018, com o documento bancário registrado naquele mesmo caixa. Queiroz entregou um maço de dinheiro ao atendente para quitar as parcelas da escola.

Os promotores ainda suspeitam que o assessor pagou ao menos R$ 261 mil das despesas do casal, tanto nas mensalidades da escola quanto no plano de saúde da família. O MP-RJ constatou que 116 boletos foram pagos sem que o dinheiro saísse da conta de Flávio ou de sua mulher, e que Queiroz pode ter se encarregado dos pagamentos.

Outro indício apontado pelos promotores é o fato de Flávio ter recebido 48 depósitos em cerca de um mês, no valor total de R$ 96 mil, sem que a origem fosse identificada. Esses depósitos fracionados já haviam sido apontados como suspeitos pelos primeiros relatórios elaborados pelo Coaf.

Sobre os 48 depósitos, o senador disse à época que se referem à compra e venda de um imóvel na zona sul do Rio. Ele afirmou que o valor de R$ 2 mil era o limite para depósito em dinheiro no caixa eletrônico, e que teve de fazê-los um a um.

Próximos passos

Em prisão domiciliar, Queiroz ainda não foi denunciado pelo MP à Justiça. Na representação enviada à Justiça, em que os promotores pediram a prisão do ex-assessor, o senador é chamado cinco vezes de "líder da organização criminosa". Flávio Bolsonaro também não foi alvo de qualquer denúncia até o momento.

Os boletos bancários quitados por terceiros, dois dos quais pagos pessoalmente por Queiroz, devem estar entre as principais provas apresentadas pelo MP-RJ em uma eventual ação no Judiciário.

Após a operação que prendeu Queiroz - ele foi detido em Atibaia (SP), na casa do ex-advogado de Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef -, o senador negou as acusações de ‘rachadinha’ e se disse ‘vítima de um grupo político’. O senador ainda classificou as declarações do MP do Rio, sobre os recursos transferidos por Queiroz para seu ‘patrimônio familiar’, como ‘ilações de promotores de injustiça’.

Tags: Alerj Fabrício Queiroz Flávio Bolsonaro Ministério Público rachadinhas Rio de Janeiro
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