Depoentes se negam a falar sobre detalhes dos desvios de dinheiro na Petrobras

Sessão da CPI durou 9h e ouviu sete pessoas, que usaram o direito constitucional de ficar caladas.

Da redação, Agência Câmara,

Em dois dias de interrogatórios na sede da Justiça Federal em Curitiba (PR), a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras ouviu 14 pessoas, todas presas pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Nesta terça-feira (12), a CPI ouviu sete pessoas em sessão que durou nove horas: Nelma Kodama (doleira); René Pereira (ligado ao doleiro Alberto Youssef); os ex-deputados Luiz Argôlo, Pedro Corrêa e André Vargas; o doleiro Carlos Habib Chater e o publicitário Ricardo Hoffmann (acusado de pagar propina a Vargas em troca de contratos com o governo federal). Todos os depoentes usaram o direito constitucional de ficar calados a respeito de detalhes dos desvios de dinheiro da Petrobras.

Ontem também foram ouvidas sete pessoas. Cinco optaram por ficar caladas. Apenas o doleiro Alberto Youssef e a ex-funcionária da doleira Nelma Kodama, Iara Galdino, aceitaram falar. Se recusaram a falar os empresários Mário Góes, Guilherme Esteves de Jesus, Adir Assad e Fernando Soares, assim como o ex-diretor da área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, que disseram ter sido orientados por seus advogados a ficar calados.

Brechas legais
A primeira pessoa ouvida hoje foi a doleira Nelma Kodama, que informou estar negociando acordo de delação premiada com a Justiça Federal e, por isso, se calou a respeito de várias perguntas – principalmente as relativas às operações do doleiro Alberto Youssef, com quem foi casada.

Kodama preferiu falar sobre sua atividade como doleira e sobre as brechas legais que permitem o funcionamento de esquemas de lavagem de dinheiro e remessas ilegais para o exterior.

Kodama é acusada de chefiar esquema de lavagem de dinheiro que envolvia a abertura de empresas de fachada e operações de câmbio no exterior. Ela foi condenada por envolvimento em 91 operações irregulares de instituição financeira, lavagem de dinheiro e corrupção. Ela também é acusada de corromper um ex-gerente do Banco do Brasil para realizar operações ilícitas por meio da casa de câmbio Da Vinci.

“Meu papel de compra e venda de moedas era mais ligado a importações. Quando um importador compra uma mercadoria na China, por exemplo, parte do pagamento é feito pelo Banco Central, e ele usa o doleiro para pagar o que é por fora, sem impostos, que geralmente é 60% do total”, ela explicou.

Amada amante
Nelma Kodama foi presa em flagrante na madrugada de 15 de março do ano passado quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros. Ela provocou risos na CPI ao desmentir notícias de jornais, segundo as quais ela tinha escondido o dinheiro na calcinha: “Não é verdade. Foi aqui, ó”. Em seguida, se levantou, virou de costas e colocou as mãos nos dois bolsos traseiros de sua calça jeans.

Ela também provocou risos ao admitir, quando questionada pelo deputado Altineu Côrtes (PR-RJ), que “viveu maritalmente” com o também doleiro Alberto Youssef, de 2007 a 2009. “A senhora foi amante de Youssef?”, perguntou o deputado. “Depende do que o senhor chama de amante. Eu vivi maritalmente com ele. Amante é uma palavra que engloba tudo, né? Ser amiga, companheira. Uma coisa bonita”, respondeu a doleira. Em seguida, cantarolou a música “Amada amante”, de Roberto Carlos, e foi advertida pelo presidente da CPI, deputado Hugo Motta (PMDB-PB).

Lavagem de dinheiro
A doleira Nelma Kodama disse ainda não conhecer o empresário Júlio Camargo, que aparece diversas vezes nos depoimentos do doleiro Alberto Youssef como representante de empresas que utilizaram o esquema de lavagem de dinheiro para pagar propinas a agentes políticos e funcionários da Petrobras.

Kodama, porém, se recusou a falar sobre detalhes contidos nos depoimentos de Youssef em que o nome dela aparece relacionado a operações relacionadas a Camargo.

O deputado insistiu e leu trecho de depoimento de Youssef em que o doleiro disse ter sido procurado por Julio Camargo, então representante da empresa Pirelli, para disponibilizar 1 milhão de dólares de uma conta no exterior para pagar propina a fiscais do ICMS em São Paulo. Youssef disse que Kodama ou o também doleiro Leonardo Meirelles disponibilizaram a soma. “Mas ele não me acusa. Ele diz que fui eu ou o Leonardo Meirelles”, respondeu a doleira.

Ivan Valente leu então outro trecho do depoimento de Youssef, em que o doleiro fala de propina paga por contratos para construção da Refinaria Henrique Lage (Revap), em Araucária, no Paraná. Segundo Youssef, a propina de 5 milhões de dólares foi disponibilizada por Nelma Kodama ou por outro doleiro chamado Carlos Rocha, o Ceará, mas provavelmente por Kodama – “já que Ceará não tinha contas no exterior”.

“Ele (Youssef) vai ter que provar isso”, se limitou a dizer a doleira. “Mas a senhora tem contas no exterior?”, insistiu Valente. “Reservo-me o direito de ficar em silêncio”, respondeu Kodama.

Tags: LavaJato política
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