Rosalba diz que foi traída por José Agripino

Governadora disse que não há clima para permanecer no DEM, mas que essa decisão só será tomada mais adiante.

Kyberli Gois,
Nominuto.com
Rosalba Ciarlini falou ainda sobre seu futuro político, Copa do Mundo e obras do atual mandato.

A governadora Rosalba Ciarlini considera a decisão do DEM – de negar o direito da chefe de Estado de concorrer à reeleição – “uma cassação branca”. Rosalba falou emocionada ao jornalista Diógenes Dantas, e disse que o sentimento é de extrema tristeza, pois se considera no direito de se candidatar à reeleição. A governadora disse que não há clima para permanecer no DEM, mas que essa decisão só será tomada mais adiante "depois que a poeira baixar".

Para Rosalba, o partido usou de todas as artimanhas para a governadora não concorrer à reeleição. A chefe do executivo estadual disse que se sente traída, pois ninguém poderia ter tirado seu direito à reeleição, mas agora vai concluir seu mandato e continuar trabalhando porque foi eleita para quatro anos e vai cumprir. “Agora vou continuar trabalhando como sempre e mostrando resultado”.

A governadora afirmou que vai participar da eleição estadual, mas a decisão só será tomada após as convenções partidárias. Ela pediu calma aos correligionários que seguem a sua liderança. "Vamos ter posição no pleito, mas esta decisão será tomada mais adiante", declarou.

Diógenes Dantas: Governadora, vamos iniciar a entrevista com a pauta política e depois vamos falar da Copa e das ações administrativas. Então, nós tivemos no último final de semana uma decisão importante do seu partido [DEM] em uma convenção que negou pela segunda vez o direito da senhora à reeleição. Como a senhora recebeu a decisão do partido?

Rosalba Ciarlini: Com muita tristeza. Muita tristeza, muita decepção. Acho que pela primeira vez na história... Eu não conheço nenhum partido, eu não conheço no Brasil um partido que tenha negado a um filiado o direto de ser julgado pelo povo.

DD: Esse é o sentimento da senhora...

RC: É o sentimento.

DD: Esse é o sentimento da senhora, que a senhora levou não só no último domingo, mas, também para a reunião do diretório.  

RC: Também. Quero aproveitar a oportunidade para agradecer as inúmeras mensagens e ligações de todo o Estado, até de adversários, me ligando para ser solidário com essa cassação branca que o meu partido fez.

DD: A senhora considera que foi uma cassação branca?

RC: Eu considero sim. Era um direito legítimo. Eu tinha um cargo, um mandato e é um direito. A Constituição me dá esse direito, mas o diretório do partido usou de todas as...

DD: Artimanhas?

RC: Sim, para que eu não fosse candidata. Por quê? Não ter o direito de mostrar o povo o que fiz e prestar contas e de ser julgada pelo próprio povo. Isso me deixa indignada e revoltada, mas o tempo é o senhor da razão e vai mostrar muita coisa.

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DD
: Estou sentindo nas palavras da senhora emoção em lembrar do episódio que marcou forte o Democratas. A senhora tem uma relação política e partidária com o senador José Agripino já de 40 anos. Ai eu pergunto: como é que fica essa relação de um aliado, pelo menos até antes desse episódio que lhe negou esse direito?

RC: De um aliado, de um amigo que eu considerava amigo. Realmente a situação foi muito constrangedora, traumática e até humilhante.

DD: Essa questão da humilhação eu falei nos comentários que eu fiz que a senhora não precisava se humilhar ao senador neste processo. A pergunta eu já li na imprensa é que a senhora não vai recorrer dessa decisão.

RC: Não. Eu lutei até onde pude lutar. Não fugi da luta, como nunca fugi na minha vida. Era um direito que eu tinha e fui. Eu fui ao diretório, fui a convenção e, infelizmente, esse foi o resultado lastimável para um partido que tem o nome Democrata.

DD: O partido não foi democrata?

RC: É um direito que o cidadão tem. Se você é filiado, qualquer filiado tem o direito de colocando o seu nome, ser votado, de ser colocado como candidato.

DD: Até o último momento o senador José Agripino e os que defendiam essa negativa a senhora alegaram que a senhora não tinha condições de elegibilidade por conta das decisões do TRE aqui e das análises liminares lá em Brasília.

RC: Inclusive, o Ministério Público Federal, está na internet para todos verem, deu parecer totalmente contrário a posição do Tribunal Eleitoral aqui.

DD: Em que caso, governadora? São dois casos. Tem o do avião e do poço.

RC: O do avião não tem inelegibilidade. A questão da inelegibilidade é do poço, que na realidade tem um caso interessante. Eu não era candidata. Eu fui candidata em 2010. Em 2012 eu não era candidata. Então como poderia ter inelegibilidade, ter cassação, se eu não era candidata.

DD: Governadora, a pergunta que não quer calar é o que a senhora vai fazer? O seu futuro político?

RC: A primeira é continuar trabalhando como sempre trabalhei e mostrando resultados, continuar com as obras e com as ações lutando, já estou marcando ida a Brasília. O governo vai continuar na mesma luta para corrigir uma série de distorções que encontramos superando as adversidades.

DD: A outra pergunta que não quer calar é a senhora vai deixar o Democratas após esse episódio?

RC: Eu acho que ficamos realmente em uma situação muito difícil. Não há clima. Mas isso é uma questão a ser decidida. Vamos deixar a poeira baixar.

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DD
: Essa decisão a senhora vai tomar antes, depois da eleição ou depois da sua gestão?

RC: Você sabe que se eu sair agora o partido me toma o mandato.

DD: E a senhora não quer correr esse risco?

RC: Eu fui eleita para quatro anos e vou concluir o mandato com mais ações, com mais obras e realizações.

DD: Eu gostaria de tocar em um ponto. Antes da conveção partidária a senhora chegou a dar declarações à imprensa dizendo que teve três oportunidades para deixar o Democratas e assumir o comando de outras legendas e não o fez para não desprestigiar o senador José Agripino no momento em que ele assumiu a presidência nacional do DEM. Houve ingratidão?

RC: Quando o partido de Kassab, o PSD, saiu do Democratas, o governador de Santa Catarina era do DEM, a senadora Katia Abreu era Democratas, além de deputados e figuras históricas que tinham formado o partido. Eu fui insistentemente convidada por Kassab, por Katia, pelo governador de Santa Catarina [Raimundo Colombo], inclusive ele quando resolveu deixar o Democratas me ligou. Fiquei por lealdade, para fortalecer o partido, mas, infelizmente...

DD: A senhora falou do PSD, mas teve outras duas legendas, quais foram?

RC: O PROS, o governador do Ceará antes de ir para o PROS tivemos um encontro entre governadores ele me chamou e disse “Rosalba, eu vou ficar no PROS. Vamos juntos?”. E eu mais uma vez fiquei. E o PTB que ficou a minha disposição, além de outros. Tô falando desses três, mas teve o PP e outros.

DD: Então não faltaram opções?

RC: Não.

DD: A senhora está arrependida de ter tomado essa decisão?

RC: Eu acho que a gente nunca deve se arrepender do que fez. Eu tomei essa decisão naquele momento mostrando quem eu sou.

DD:  A senhora se sente traída pela cúpula do DEM?

RC: De certa forma sim. Era um direito que eu tinha e ninguém pode tirar direito de ninguém.

DD: É isso. O que eu tinha que perguntar sobre essa questão da convenção do DEM, enfim, faz parte da história da política do RN. A última pergunta sobre essa questão para podermos falar de Copa e outras coisa é... Eu sei que tem o governo ainda a concluir, mas eu pergunto: a senhora já faz planos para o futuro do ponto de vista da sua atuação política ou da sua atuação profissional?

RC: Em 1 de janeiro entrego o governo a quem o povo escolher. Espero que o povo tenha várias opções para poder escolher bem. Eu não sou política de profissão. Tem gente que é pai, é filho... Eu não sou política por profissão. Minha família inclusive é muito grande, mas Ciarlini na política só tem eu. Minha profissão é médica e volto para cuidar das crianças.

DD: A senhora vai apoiar alguém? A senhora vai se abster? O que a senhora pretende?

RC: Vou sim e quero pedir aos meus amigos, aqueles com que sempre estive junto, que tenham um pouco de paciência. Deixe as convenções acontecerem.

DD: A senhora ainda não sabe o que pretende fazer?

RC: Vamos ver as convenções acontecerem para a gente saber realmente os pré-candidatos. A preocupação agora é com o governo e com a Copa.

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DD
: Vamos falar um pouco de Copa. Como a senhora se sente nesse período já tivemos alguns jogos. Qual o sentimento da senhora em relação ao Mundial?

RC: Estou com o sentimento de que valeu a pena. Todo esforço, toda luta, tantas adversidades que enfrentamos. Primeiro para não perder a Copa por que quando eu assumi Natal estava perdendo a Copa e era motivo de chacota nacional. Problemas e dificuldades existem em toda casa, mas a gente tem que defender o nosso estado e eu via dentro do próprio estado muita torcida contra, às vezes, por picuinha política. Eu fui a Brasília, fui na CBF, convoquei bancada e falei “vou fazer a Arena das Dunas”, em um momento difícil. Quando assumi o estado estava quebrado, inadimplente com quase 1 bilhão de dívidas, sem crédito lá fora, mas eu tive a coragem de ir em frente. Arena mais bonita do Brasil e elogiada por todos.

DD: Por falar na Copa a ocupação dos hotéis estão acima do previsto...

RC: Nos restaurantes eu tenho informações que todo mundo está vendendo muito bem. O comércio também vendendo muito bem.

DD: Apesar da greve dos ônibus?

RC: Infelizmente tem isso. Eu não entendo. A prefeitura tem que sentar e resolver. Antes da Copa todos aqueles pontos que poderíamos ter problemas com relação a funcionários do Estado nós sentamos, negociamos e resolvemos para que a Copa transcorresse com tranquilidade.

DD: Tivemos manifestação na presença dos americanos, mas foi muito pontual.

RC: Pontual. Não tinha nem 300 pessoas. A população de Natal está entendendo que o momento é de fazer com que a Copa realmente nos dê o resultado que queremos: atração de turistas.

DD: Os efeitos do pós-copa é coisa para 10 anos quando os estudos e estimativas de quem sedia um evento desse porte. A senhora está totalmente internacional essa semana, recebeu o Joel Biden, vice-presidente dos Estados Unidos...

RC: Tivemos 22 mil americanos, 12 mil mexicanos, isso pelo número de ingressos, fora os acompanhantes. Outra coisa interessante: a cada dia tem grupos empresariais que estão aqui no estado.

DD: Um sentimento de dever cumprido, governadora?

RC: Dever cumprido e de que Natal ganhou, que o RN está ganhando com a Copa.

DD: A senhora espera ser lembrada como a governadora da Copa?

RC: Eu não sou muito vaidosa não. Espero dormir todo dia, botar a cabeça no travesseiro tranquila com o sentimento de dever cumprido.

Confira o áudio completo da entrevista da governadora Rosalba Ciarlini ao jornalista Diógenes Dantas:

Tags: entrevista jornal96 RosalbaCiarlini
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