Veja como funciona a indústria por trás das séries de TV

Livro mostra o encanto e a lógica ‘fordista’ de um mercado que cresceu duas vezes e meia em 10 anos.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Reuters
Plataforma de streaming Netflix investiu R$ 350 milhões no Brasil em 2020; produções saltaram de 20, em 2019, para 30, no ano passado.

Um mercado que movimenta bilhões de dólares mundialmente com um público que demanda cada vez mais conteúdo. Esse é o cenário que Jacqueline Cantore e Marcelo Rubens Paiva descrevem em Séries – O livro: De onde vieram, como são feitas e por que amamos, lançado pela editora Objetiva.

“É como alimentar um monstro: o mercado de TV por internet, o streaming, requer cada vez mais lançamentos de novas séries. Essa indústria depende disso para vender e manter suas assinaturas – e isso faz a roda girar”, conta Jacqueline, executiva de televisão e uma das autoras. No livro, ela usa parte de sua experiência nos mercados na América Latina e nos Estados Unidos para contar – para leigos e profissionais – como funciona a indústria.  

Ela, que é consultora do Grupo Globo e de produtoras independentes na criação e no desenvolvimento de séries de ficção, já trabalhou para canais como Fox, MTV, A&E, USA, NatGeo e BBC. Participou do desenvolvimento das séries The Killing e Lili, a Ex.  

Foi numa sala de roteiristas, para o desenvolvimento da série Contravenção, para a Conspiração Filmes, que ela conheceu o escritor Marcelo Rubens Paiva, que também escreve roteiros e já foi indicado ao Emmy pela série O Homem Mais Forte do Mundo.

Cansados de a todo momento ouvirem a frase “Você não acha que isso daria uma série?”, Paiva e Jacqueline decidiram unir esforços para escrever o livro e contar nele o que realmente é uma série e para que ela serve. “As pessoas acham que só uma ideia basta. Mas a série é um produto de mercado. Ela tem que servir para o negócio”, diz a executiva.

No livro, os autores contam como esse processo industrial funciona, tendo como base o principal mercado de séries: os Estados Unidos. Numa analogia com uma colheita, eles explicam como uma série nasce, em que época do ano os estúdios buscam ideias, como essa história vai se transformando ao longo dos meses conforme a necessidade da empresa (estúdio, canal ou serviço de streaming), de que maneira o piloto é construído quase 12 meses depois e, finalmente, como tudo é desenvolvido até a exibição.

“É exatamente como uma linha de produção fordista”, compara Jacqueline. “Cada um faz uma coisa: é uma engrenagem que engloba estúdio, canal, produtora, mercado internacional, programador, e que emprega escritores, diretores, produtores, fotógrafos, atores, produtores de elenco, figurinistas, iluminadores, maquiadores, técnicos, sonoplastas... Tudo precisa funcionar”, dizem os autores no livro.

Essa esteira de produção faz parte de um mercado em franca expansão. Os autores citam que o total de séries produzido no mercado americano em 2019 foi 153% maior do que dez anos antes. De 210 séries disponíveis em 2009, o mercado pulou para mais de 530. E tudo isso ainda sem contar os efeitos da pandemia, que fizeram o mercado de streaming explodir.  

Made in Brazil

No Brasil, as produções também vem ganhando ritmo, embora muito aquém da realidade americana. O problema é que o mercado nacional não tem dados. “Diz-se que Amazon estaria investindo em 20 séries nacionais; também diz-se que HBO Max vai investir na América Latina, mas nada é preciso”, diz Jacqueline.

Mas é fato que a Netflix investe pesado no mercado brasileiro: conforme o livro, a empresa de streaming foi de 20 produções no Brasil, em 2019, para 30 em 2020, com investimento de R$ 350 milhões. Já a Globoplay fez 16 séries em 2020, todas produções originais.

Jacqueline e Paiva fazem uma dura crítica ao mercado nacional: a dependência de dinheiro público para fazer a roda girar. “Depender do Estado é sempre um risco. Por isso acredito que é o melhor modelo é o híbrido. Mas aqui ainda falta muito investimento do setor privado que não seja por meio de leis. É investir para mais tarde ganhar mesmo”, diz Paiva.

Nos EUA, os estúdios funcionam como bancos. Eles injetam dinheiro nas produções para ganhar mais para frente, com o dinheiro vindo dos anúncios (no caso da TV aberta) ou dos assinantes, no streaming. “Depois da pandemia, a guerra dos streamings se intensificou. Cada um deles quer lançar algo novo, uma série fantástica, que chame mais assinantes”, explica o autor.

A Disney+, que estreou no mercado nacional em 2020, tem, conforme a dupla conta no livro, um orçamento de produção entre US$ 14 bilhões e US$ 16 bilhões. Para garantir a lealdade de seus assinantes, o canal aposta em suas marcas estabelecidas e de sucesso: Disney, Pixar, Marvel e Lucasfilm – com as propriedades desta última, fez várias derivações da franquia Star Wars, por exemplo.

O dinheiro gira rápido no setor. Como disse Jacqueline, é preciso alimentar o monstro – e ele está com fome. São milhares de horas de conteúdo. “As pessoas decidem assinar certos streamings porque querem certos conteúdos. E elas só permanecem pagando se o conteúdo continua relevante para ela”, diz a executiva. É por isso que as empresas investem tudo o que ganham. A pioneira Netflix, mesmo jogando sozinha por muito tempo, precisou de dez anos para faturar mais do que investia.

Tags: indústria investimentos séries de TV
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