Projetos que permitem compra de 2ª casa ou saque mais rápido ameaçam o FGTS

Cerca de 30 propostas consideradas mais críticas estão em tramitação avançada no Congresso ou têm impacto mais significativo no fundo.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Arquivo/Agência Brasil
Segundo o governo federal, mudanças nas regras do FGTS podem afetar o financiamento imobiliário.

A profusão de propostas no Congresso Nacional para alterar regras do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e garantir a liberação de mais recursos aos trabalhadores acendeu um alerta na equipe econômica. O governo mapeou cerca de 30 projetos “mais críticos”, que estão em tramitação avançada ou têm impacto significativo, e defende a discussão conjunta das medidas para não ameaçar a sustentabilidade do fundo, que é fonte de financiamento barato para habitação, saneamento e infraestrutura urbana.

Técnicos têm tido dificuldades até para mensurar o impacto individual de cada uma das ideias, uma vez que elas chegam em grande quantidade aos gabinetes do Ministério da Economia.

Apenas uma delas, que reduz de três para um ano o tempo mínimo sem contribuir ao FGTS para poder resgatar o saldo nas contas, teria impacto de R$ 17,22 bilhões no primeiro ano de vigência e R$ 7 bilhões ao ano nos períodos seguintes, segundo cálculos da Caixa, agente operador do fundo.

Há ainda propostas de novos saques emergenciais para trabalhadores ou possibilidade de uso dos recursos no fundo para aquisição de um segundo imóvel. Alguns desses projetos já foram aprovados em comissões da Câmara ou do Senado.

“Isso tem assustado. Têm chegado pedidos de análise dos projetos, e são muitos. Eles precisam ser analisados em bloco. As medidas precisam ser bem calibradas. Qual dessas é mais meritória do que a outra? É difícil dizer. Todo mundo que propõe acha a sua mais meritória, mas não cabem todas”, afirma o diretor do Departamento do FGTS no Ministério da Economia, Gustavo Tillmann.

Ele explica que, embora o FGTS tenha R$ 459,9 bilhões depositados em contas vinculadas (segundo a posição de março de 2021), o dinheiro não está parado, muito menos disponível de forma imediata para os trabalhadores. Desse valor, R$ 400,8 bilhões estão girando na economia, financiando projetos em habitação, saneamento, infraestrutura urbana e saúde. Há ainda dinheiro em aplicações financeiras, como títulos públicos, que ajudam na gestão financeira do fundo e também dão rentabilidade.

“Isso não é uma conta em que o recurso está livre, depositado num banco. Não. O recurso está aplicado para gerar rendimento e pagar essas contas”, diz.

Em março, a disponibilidade efetiva de recursos do FGTS, ou seja, o que o fundo tem em caixa para usar de forma imediata, somava R$ 28,1 bilhões. Esse valor deve cair a aproximadamente R$ 6 bilhões até agosto devido à renovação de medidas emergenciais que já haviam sido adotadas em 2020 para aliviar empregadores, como adiamento de contribuições e possibilidade de acordos para redução de jornada e salário ou suspensão de contrato. Para se ter uma ideia, o valor não seria suficiente para arcar sequer com um mês normal de desembolsos do fundo, que fica em torno de R$ 10 bilhões, na hipótese de não haver nenhuma receita.

Tillmann ressalta que uma parte dos recursos será recuperada depois de agosto, quando as empresas terão de retomar os pagamentos que foram adiados. Mas ele diz que a trajetória das disponibilidades do FGTS ilustra a condição limitada para que o fundo arque com novas mudanças. “Está apertado, e essa é a nossa preocupação. Essas medidas estão sendo discutidas sem levar isso em consideração”, afirma.

Segundo ele, a aprovação agora de medidas que abrem os cofres do fundo ameaça futuras ajudas emergenciais que eventualmente poderiam ser discutidas pelo Conselho Curador (como pausas em financiamentos habitacionais) e até mesmo contratações de novos financiamentos.

O diretor alerta que uma eventual redução nas disponibilidades pode comprometer o orçamento dos próximos anos para financiar habitação, um dos poucos setores que registram recuperação firme na atividade, e até restringir o acesso da população de menor renda à casa própria. Os financiamentos do programa Casa Verde e Amarela são subsidiados pelo FGTS.

“Fizemos muitas medidas em 2019, como a criação do saque-aniversário. Foram feitas boas mudanças. Ali ninguém sabia de pandemia, mas ainda assim foi calculado para que o fundo não fosse tão impactado. Fazer medidas desse tipo agora é muito arriscado. Não estamos num momento fácil de fazer um cálculo atuarial de como vai ficar o País após a pandemia. Estamos curando as feridas, tentando reequilibrar o fundo após as medidas adotadas no ano passado e neste ano”, afirma Tillmann.

Histórico de mudanças

Nos últimos anos, tanto o governo Michel Temer quanto o presidente Jair Bolsonaro usaram recursos de contas inativas e ativas do FGTS para dar impulso à economia, permitindo que trabalhadores sacassem uma parcela dos valores em suas contas.

Em 2019, o FGTS passou por uma mudança estrutural com a criação do chamado saque-aniversário, que permite a trabalhadores que optarem por esse modelo resgatar uma parte do saldo nas contas do fundo anualmente. Essa medida já proporcionou o resgate de R$ 12,6 bilhões até maio de 2021, de acordo com dados do Ministério da Economia.

Os optantes do saque-aniversário também podem usar o direito futuro de sacar o dinheiro para antecipá-lo via empréstimo em bancos. Até hoje, já foram contratados R$ 8 bilhões em operações desse tipo.

Desde o ano passado, o fundo também tem sido usado como uma espécie de “amortecedor” da crise provocada pela pandemia de covid-19. Foram adotadas medidas como adiamento das contribuições, novo saque emergencial e suspensão de prestações de financiamentos habitacionais e de saneamento.

O FGTS também perde receitas à medida que empresas e trabalhadores fazem acordos para redução de jornada e salário ou suspensão de contrato, embora o saldo final seja considerado positivo porque evita demissões (que demandariam novos desembolsos pelo fundo).

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