Investidor estrangeiro teme que Bolsonaro repita ingerência de Dilma em estatais

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobras e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Arquivo/Agência Brasil
Troca na presidência da Petrobras provocou nos investidores internacionais o temor da volta de uma política intervencionista nas estatais.

A decisão de Jair Bolsonaro de trocar o presidente da Petrobras provocou surpresa e trouxe, entre os investidores internacionais, o temor da volta de uma política intervencionista do Planalto nas estatais, nos moldes da gestão de Dilma Rousseff. Aumentou também a preocupação com uma estratégia mais populista na área fiscal, conforme relatos de analistas e investidores estrangeiros ouvidos nesta segunda-feira (22), pela reportagem. O risco imediato é de aumentar ainda mais a seletividade dos fundos com o Brasil, que tem se beneficiado de uma onda geral de fluxos em busca de retorno nos emergentes.

"Vende, vende, vende", foi uma das expressões ouvidas pela reportagem ao contatar investidores em Wall Street sobre a Petrobras. Outro profissional, também em Nova York, disse: "Isso é um grande choque de credibilidade para o Brasil. Esta foi minha última tentativa de investir na empresa e no Brasil. São movimentos inaceitáveis". Um terceiro investidor, em Chicago, ressaltando que zerou suas aplicações na Petrobras, afirmou: "Vimos isso em 2015. Concordo com a visão de que o governo atual quer salvar sua popularidade, são medidas desesperadas, vejo nova piora fiscal."  

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobras e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil. Os analistas do JP afirmaram estar "surpresos" com a mudança anunciada por Bolsonaro e recomendam redução de exposição na empresa, em meio à elevada incerteza sobre o cenário no curto prazo.

"É um sério problema para a lucratividade do segmento de logística da Petrobras e, ainda mais importante, para sua credibilidade no mercado internacional", comenta o analista de petróleo do americano Raymond James, Pavel Molchanov. A recomendação dele é que investidores interessados na petroleira sempre levem em conta o "intenso nível de risco político".

Para Molchanov, que acompanha a empresa brasileira há anos, o nível de interferência de Bolsonaro na Petrobras é fundamentalmente o mesmo de governos anteriores, como o de Dilma, de tentar interferir na política de preços para ganhar apoio político. A diferença agora, diz o analista, é que Bolsonaro foi eleito afirmando que não haveria interferência, mas resolveu quebrar a promessa.

Juros

Para Priscila Robledo, economista de América Latina em Nova York da Continuum Economics, consultoria de Nouriel Roubini, a decisão de Bolsonaro é negativa, pois fica clara sua intenção de interferência. É crescente a chance de que a batalha do presidente contra a paridade internacional nos combustíveis vai acabar prejudicando a já ruim situação fiscal do País, colocando pressão adicional nos juros, câmbio e, mais importante, afetando a confiança dos investidores, prejudicando ainda mais a atividade econômica.

Na avaliação de Klaus Spielkamp, responsável em Miami pela área de vendas e trading da Bulltick, a questão da troca de comando da Petrobras e dos preços de combustíveis vem se somar a um momento econômico e político "bastante fragilizado" no Brasil, pela maior necessidade de gastos do governo para conter a crise gerada pela pandemia. "Se espera e se faz urgente que o Brasil consiga fazer as reformas, e, para isso, o ambiente econômico e político tem de estar em ordem."

"Intervencionismo nunca é bem visto na comunidade financeira internacional", afirma Spielkamp. Mas ele pondera que uma greve de caminhoneiros nos moldes da de 2018 seria um ponto final para as chances de reformas. O analista comenta que, em outros momentos, já viu mudanças de presidente da Petrobras que foram anunciadas como um desastre para a empresa e ela sempre sobreviveu, "inclusive durante as barbaridades que vimos durante o governo Dilma".

O economista-chefe de emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson, comentou  nesta segunda-feira que a decisão de demitir o atual presidente da Petrobras aponta para uma maior intervenção do governo na economia e "pode também ser um prelúdio de uma política fiscal mais flexível". Por isso, o mercado financeiro doméstico deve permanecer sob forte pressão e cresce a chance de alta de juros no mês que vem.

Para a também inglesa TS Lombard, o episódio "populista" da Petrobras aponta para o crescente risco de Bolsonaro prorrogar o auxílio emergencial sem cortes de despesa. Neste ambiente, a TS espera alta de juros já em março, de 0,50 ponto porcentual.

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