Superman negro, uma nova atração no cinema

Calvin Ellis, o super-herói afrodescendente, vai cruzar o herói de outro planeta com Barack Obama.

Da redação, Estadão Conteúdo/The New York Times ,
Divulgação/DC Comics
Homem de Aço: Imagem mostra Calvin Ellis, cruzamento de Superman com o ex-presidente Barack Obama.

Em 2008, durante sua campanha presidencial, Barack Obama contou uma piada em um evento beneficente. “Ao contrário dos rumores que vocês escutaram, não nasci em uma manjedoura”, disse ele. “Na verdade, eu nasci em Krypton e fui enviado para cá por meu pai, Jor-El, para salvar o planeta Terra.”

E alguns meses antes, o artista Alex Ross fez uma pintura de Obama retratando-o em uma pose de Clark Kent com uma camisa desabotoada revelando seu traje – este com um “O” em vez de um “S” – por baixo.

Tudo isso inspirou o escritor de quadrinhos Grant Morrison: Por que não criar um Superman negro?

E assim nasceu Calvin Ellis, um homem negro de aço trazido à vida por Morrison e pelo artista Doug Mahnke, que imaginou o personagem como um farol de esperança que lutaria ao lado de Superman e de outros heróis da DC Comics em uma história apocalíptica intitulada Crise Final, que aconteceu de 2008 a 2009. Na narrativa, Ellis veio de uma versão alternativa da Terra. Em sua realidade, ele era duplamente o homem mais poderoso de seu planeta: o Superman e o presidente dos Estados Unidos.

“Crise Final foi uma espécie de resposta à era Bush e àquela sensação de guerra permanente e de que os vilões haviam vencido”, disse Morrison. O Presidente Superman, como Ellis é conhecido, deveria personificar o oposto – “um caminho mais brilhante para o futuro”, como disse Morrison. (Seus companheiros de equipe incluíam uma Mulher Maravilha negra, inspirada em Beyoncé.)

Os fãs acolheram esta versão do Superman como uma representação alternativa do super-herói mais icônico de todos: O Homem de Aço, que fez sua estreia em 1938. Décadas depois, Superman continua sendo um herói global. Seu “S” é reconhecido em todo o mundo e ele simboliza a compaixão e a busca pela verdade e justiça. A reformulação de Superman como negro tem uma ressonância singular e o potencial de atrair novos fãs para o personagem.

O Presidente Superman é apenas uma das versões não brancas do Homem de Aço com a qual os fãs de quadrinhos estão familiarizados. Elas incluem Sunshine Superman, criado por Morrison e pelo artista Chaz Truog em 1990, e Kong Kenan, o Superman da China, que foi apresentado em 2016 por Gene Luen Yang e Viktor Bogdanovic.

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Este ano, foi anunciado que o roteirista Ta-Nehisi Coates está trabalhando em um roteiro de Superman, e fontes anônimas disseram ao Hollywood Reporter que o filme mostraria um Superman negro. Se esse personagem é, de fato, o Presidente Superman, há um ator que já manifestou interesse em interpretá-lo.

Em 2019, Oprah Winfrey perguntou a Michael B. Jordan sobre rumores de que ele interpretaria o Superman. Jordan estava hesitante em interpretar Clark Kent, mas disse: “Eu serei Calvin Ellis”.

A possibilidade de um Superman não tradicional ter a chance de ser o centro das atenções é uma ideia bem-vinda para muitos. “Não vi muita representatividade que incluísse a mim mesmo ou a meus amigos e familiares quando era criança”, disse David F. Walker, escritor de quadrinhos e produtor cinematográfico. “Para cada personagem feminina, cada personagem negra, cada personagem latina, cada personagem queer, há 20 ou 30 que não são essas coisas.”

Heróis como Superman e Homem-Aranha costumam ser reformulados em histórias em quadrinhos, embora raramente de forma permanente. Esses personagens às vezes são substituições que temporariamente vestem o capuz do Batman ou pegam emprestada a armadura do Homem de Ferro. Às vezes, viagens no tempo ou mundos paralelos estão envolvidos, como no caso de Calvin Ellis, em que a história se desenrolou de forma diferente e, como resultado, o mesmo aconteceu com seus heróis.

Ainda assim, a história de fundo de um personagem como Ellis pode ter profunda ressonância para leitores não brancos. Eles aprenderam mais a respeito do mundo paralelo de Ellis na edição de 2012 da Action Comics, escrita por Morrison e ilustrada por Gene Ha. Como o Superman original, ele foi enviado de Krypton na véspera de sua destruição por seus pais e é encontrado por um casal (ambos os pais são negros) e, como adulto, ele começa a batalha pela “verdade, justiça, liberdade e igualdade” como Superman.

Walker, junto com os cocriadores Brian Michael Bendis e Jamal Campbell, teve sua própria oportunidade de contribuir para a trama da DC Comics com a estreia de Naomi McDuffie em 2019, uma adolescente negra superpoderosa que é adotada e se propõe a descobrir mais informações a respeito de seus pais biológicos. (A personagem está sendo adaptada para a televisão pela diretora Ava DuVernay.) “A primeira vez que vi uma garota negra adolescente fazendo cosplay de Naomi fiquei tipo, ‘Uau, há espaço para você aqui’”, relembrou Walker. “E eu quero que haja espaço para todos.”

O sobrenome de Naomi é uma homenagem a Dwayne McDuffie, um popular escritor de quadrinhos negro que era conhecido por defender a representatividade em quadrinhos. Em 1993, ele cofundou a Milestone Media, uma editora que focava em super-heróis negros, asiáticos, hispânicos e gays. A versão da Milestone para o Superman é Icon, um alienígena que chegou à Terra em 1839 e foi criado por Dwayne McDuffie e Mark Bright. Uma mulher negra escravizada encontra a nave de Icon, e ele adapta sua aparência, incluindo a cor de sua pele, para se encaixar. A DC começará a publicar uma nova série com os personagens da Milestone em junho.

De certa forma, já existiu um Superman negro nas telonas: em 1997, Shaquille O’Neal estrelou Steel- O Homem de Aço, que foi baseado em um herói da DC Comics de mesmo nome criado por Louise Simonson e Jon Bogdanove. Em seu disfarce como civil, ele é o médico John Henry Irons, que surgiu para proteger Metrópolis em 1992 após a morte de Superman. (Spoiler: Superman voltou no ano seguinte) A sorte do personagem nos quadrinhos foi consideravelmente melhor do que a do filme, que uma crítica do New York Times descreveu como “um tonel morno de lama cinematográfica”.

Um Superman mais recente que compete pela atenção das telonas é Val-Zod, outro kryptoniano negro, apresentado em 2014 pelo escritor Tom Taylor e pelo artista Nicola Scott.

A resposta ao personagem foi extremamente positiva, Taylor lembrou. “Era uma internet mais jovem e mais gentil naquela época”, disse. Val-Zod era “um personagem tão acolhedor, caloroso e charmoso que você torcia por ele – e nossos fãs sentiram o mesmo. Ele veio de um planeta hostil e o mundo precisava de sua luz. ”

“Eu já disse isso há muito tempo: todo mundo precisa de heróis”, continuou Taylor. “E todos merecem se ver em seus heróis.”

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