Nova "Cinderela" faz releitura antenada e pop do velho clássico

Filme com Camila Cabello no papel principal é versão feminista necessária da história, mas o roteiro é tão focado na mensagem de empoderamento que parece nocautear o telespectador.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Amazon Prime
Cinderela de Prime Video traz uma heroína feminina dos tempos modernos para inspirar toda uma geração de garotas.

Seu amor declarado, seu beijo de conto de fadas realizado, Cinderela tem um pedido urgente para seu Príncipe. Ela consegue uma carona para sua reunião de negócios? E assim, como os príncipes fazem, ele levanta seu novo amor para carregá-la em seu cavalo. Mas, tipo, ela está com pressa. “Não, eu posso andar, é mais rápido”, ela diz animada. “Mas obrigada!”

É um momento descartável, mas talvez um bom exemplo dos trunfos e falhas desta nova Cinderela, decididamente antenada e inspirada pela música pop da era (hashtag) Me Too, escrita e dirigida por Kay Cannon (e coproduzida por James Corden, que também faz o papel de um rato). Uma versão feminista da história familiar é bem-vinda, claro, mas o roteiro é tão focado em sua mensagem de empoderamento feminino que às vezes parece que somos nocauteados por ela. O filme está disponível na Amazon Prime.

Felizmente também há momentos, como este, resgatados pela química lúdica entre nossos atraentes protagonistas: a cantora pop e exuberante Camila Cabello como Cinderela, e o estreante Nicholas Galitzine como Príncipe Robert. Os papéis coadjuvantes receberam um tratamento lúdico de profissionais como Pierce Brosnan como o rei - apostando tudo na comédia - e uma tocante mas subutilizada Minnie Driver como sua sufocada rainha.

Também há uma interpretação de encher os olhos de Billy Porter como a fabulosa (“Fab G”) fada madrinha, mas infelizmente, é apenas uma cena com um pouco de narração. Como sempre, Porter sabe como fazer uma entrada, mas para o uso mais efetivo de uma estrela aqui, reparem em Idina Menzel, que traz diversas camadas para a geralmente madrasta “malvada” de apenas uma nota. E, é claro, sua voz de clarim - que realmente podemos dizer que é a melhor da Terra.

O problema mais óbvio em atualizar Cinderela para um público de 2021, é claro, é a premissa de que, para uma mulher, casar bem é o único objetivo: A vida é vivida através de seu homem, seja você Cinderela, a madrasta Vivian (Menzel), as meias-irmãs Malvolia e Narissa (Maddie Baillio e Charlotte Spencer) ou até mesmo a rainha (Driver)

Cannon aborda isso fazendo Cinderella - ela chama a si mesma de Ella aqui, afinal, por que definir uma garota pelas cinzas de seu rosto? - sonhar com o sucesso profissional como uma designer e não com o casamento. Em um dos primeiros números, a criada fica face a face com seu imaginário eu do futuro e ela não é da realeza - é a dona de Dresses by Ella.

Mas este é um sonho distante. Neste reino, as mulheres não dirigem negócios. Todos dizem isso, especialmente Vivian, e ficamos sabendo que ela também sonhou em ser mais que uma esposa. Percebemos cedo que a crueldade de Vivian - menos caricata que em outras versões - deriva de um profundo desapontamento pessoal, e que seu desejo feroz de casar suas filhas nasce de um amargo pragmatismo.

Essa nuance atende bem à mensagem do filme, mas as caracterizações podem ser confusas. É bem chocante ir de um momento em que Vivian parece preocupar-se genuinamente com Ella para outro em que ela violentamente joga tinta no vestido que a mesma passou semanas confeccionando. Também é difícil entender as meias-irmãs - são repugnantes ou não? Em todo caso, só recebem bondade de Ella. Quando uma delas pergunta se está bonita, Ella diz que sim, mas acrescenta: “O que importa é como você se sente ao olhar-se no espelho”.

A trama segue rapidamente, em parte narrada por Town Rapper, que anuncia o baile onde Robert escolherá uma noiva. Um apaixonado Robert já conhecera Ella disfarçada e a convence a ir ao baile para que ela possa encontrar clientes ricos em potencial.

Como já sabemos, a malvada madrasta quase impedirá Cinderela de ir ao baile. E a fada madrinha - desculpe, Fab G - entrará em cena. E o relógio baterá à meia-noite, um sapatinho de cristal será perdido, e o Príncipe começará uma busca.

Não daremos mais detalhes, mas não há nada tão drástico aqui que impeça o final Felizes Para Sempre. No entanto, se há um bordão aqui não é esse: é “Eu me escolho”.

Se ao menos essa admirável mensagem não fosse reforçada tantas vezes, e as conhecidas gracinhas não fossem tão poucas e distantes entre si. Entre essas gracinhas, tem uma boa sobre sapatos, quando Ella reclama com Fab G sobre os desconfortáveis sapatinhos de cristal. São sapatos de mulher, Fab G responde: “A magia tem seus limites”.

Então, infelizmente, é o que faz esta nova “Cinderela”. Mas apesar das comparações com seus antecessores (e inevitáveis futuras iterações), não se pode contestar a lição - para jovens de qualquer sexo - de que seu destino está em suas próprias mãos, não naquelas de alguém que escolhe arrancá-lo magnanimamente de sua própria história e colocá-lo nas dele.

Tags: Cinderela crítica
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