Túlio Ratto, editor da Papangu: "A política é o berço esplêndido do humor"

Publicitário fala sobre a expectativa para 2008, ano eleitoral, quando a revista terá coluna semanal no portal Nominuto.com.

Alex de Souza,
Cedida/AG Sued
Túlio Ratto: "Nem todo mundo quer patrocinar uma revista que fala de um amigo"
A revista Papangu comemorou quatro anos de existência passando por uma pequena plástica para mudar o visual. Mas, não se preocupem, pois a publicação continua mais papangu do que nunca.

É o que garante o editor-chefe da revista mossoroense, o publicitário Túlio Ratto. A Papangu chega à 46ª edição apostando como sempre no humor, no jornalismo cultural e na sátira à classe política potiguar.

E, em janeiro de 2008, vai estrear uma coluna semanal no portal Nominuto.com, a Papangu na Rede.

Nesta entrevista, Ratto fala um pouco sobre a trajetória da Papangu e dos planos para o futuro da publicação, já que no próximo ano os articulistas terão um prato cheio para chafurdar: as eleições municipais.

Nominuto.com - O que mudou na revista após a reformulação gráfica?

Túlio Ratto – A revista está há quase quatro anos aí na luta e ela está passando por mudanças não na linha editorial, e sim no layout. Estreamos o novo layout, o tamanho da revista passou a ser maior, mais ou menos do tamanho da revista Piauí. Por que nós tínhamos um grande problema. Às vezes um texto muito bom nos chegava, só que devido o tamanho não era aproveitado por que nós tínhamos um limite de páginas.

Todo mundo sabe que trabalhar com isso é complicado e não tínhamos apoio suficiente para bancar um número maior de páginas. Apesar de contamos com a Lei Câmara Cascudo, que banca o projeto junto com outras empresas, mesmo assim não conseguimos captar todos os recursos.

E reconhecemos que a linha editorial tem uma grande responsabilidade nisso. Por que nem toda empresa quer patrocinar uma revista que fala de um amigo. Em Natal, pode até ser diferente, eu não sei. Mas em Mossoró, como é extremamente provinciana, a gente sente que um amigo não vai apoiar uma revista que fala de um amigo pessoal. Isso acaba causando um constrangimento no indivíduo, lá, que não quer apoiar um projeto artístico-cultural e, principalmente na gente, né? A gente fica meio sem jeito e até entende a posição do jovem...

NM – Esses problemas para se manter no mercado de Mossoró é que levaram vocês a pensar em expandir a circulação da revista e levá-la para outras cidades do estado?

TR – Desde o primeiro que nós estamos em Natal. Até por que a revista é impressa aqui. Então a primeira coisa que nos veio à cabeça foi encontrar as principais bancas daqui para colocar a revista. Então a Papangu circula em Natal desde o primeiro número. A Casa da Revista, em Mossoró, que a maior da região e distribui a revista, envia a Papangu para algumas cidades, as principais: Pau dos Ferros, Caicó... Ainda de forma raquítica, porque para se valorizar o produto nós deveríamos contratar um distribuidor, só que os custos são altos e nos acabamos utilizando essa forma jurássica mesmo, no boca-a-boca, de mão em mão, porque é muito complicado com os recursos que nós temos.

NM – E qual seria a tiragem da revista?

TR –
Três mil exemplares. Com essa nova ‘roupagem’, digamos assim, pretendemos ampliar também. Agora contamos com o apoio de um marqueteiro, que tem feito esse trabalho, que é Igor Rosado.

NM – Quais os principais problemas financeiros enfrentados?

TR – Todos imagináveis numa publicação. Os custos são altos. Em relação ao material, não temos nenhum problema. Sempre comento que nós tivemos sorte. Pegamos os melhores articulistas do estado, passaram pela revista vários nomes de credibilidade. Hoje nós temos 10 colunistas, mas já passaram quase 50 pela Papangu: ex-reitor da Uern Milton Marques, Leonardo Sodré, que é jornalista aqui de Natal, Cid Augusto, que é editor-chefe do jornal O Mossoroense, Ciro Botelho, que hoje é humorista e faz parte da turma do Tom Cavalcante... Essas pessoas participaram, mas devido à falta de tempo acabaram por deixar a revista, mas eu sou muito grato, porque eles que fizeram a revista aparecer mais...

 
Ratto: "Até já mudei de calçada por que cruzei com uma das figuras retratadas"
NM – Uma característica da revista, além do humor, é a sátira política. Numa classe política tão ciosa, tão conservadora como a potiguar – e talvez a mossoroense, em particular – como foi a recepção da revista? Como repercutia essa sátira? Já é mais aceita hoje em dia?


TR – Ainda fazem muito beicinho. No início, quando lancei a revista, foi uma coisa sem pretensão, talvez ma brincadeira. Eu vinha de uma exposição de caricaturas, em que eu tinha mantido muitos contatos. E começou como uma brincadeira. Vi uma publicação, daquelas reiêras, aí disse: ‘Pô, se isso aqui consegue leitor, por que uma coisa mais estilizada, mais trabalhada, mais cuidada, não pode dar certo?’ Comecei, mas sem muita pretensão.

No terceiro número, quando já colocávamos os figurões da política, aí eu vi que o negócio era sério. É para fazer rir, mas é sério. E aí fomos... Teve no quinto, ou sexto número, os ‘cinco patetas’, que coloquei como os caciques da política do estado. E daí em diante todo mundo elogiava as capas. Os elogios fizeram com que a gente tivesse mais trato, uma preocupação ainda maior. Confesso que às vezes eu tinha medo de colocar um ou outro...

Até já mudei de calçada porque ia cruzando com um desses figuras que tinha sido retratado. Porque, em outra época – hoje, não -, nós teríamos levado muita peia. Confesso que às vezes me dava medo. Hoje, não. Acredito até que há uma abertura maior. Nós tivemos sorte de entrar também nesse momento político que é muito bom. A galera gosta de ser retratada...

NM – Tem muito papangu na classe política potiguar?

TR –
Vixe, é só o que tem. Outro dia encontrei a deputada federal Fátima Bezerra e eu havia feito uma capa em que coloquei vários nomes... Balaio de Gatos, acho que era essa capa... Coloquei vários políticos e ela reclamou por que ela não tinha saído. Então, acho que há essa mudança. Mesmo que sejam críticas, são críticas construtivas, claro que tirando onda, mas nós nunca precisamos denegrir a imagem de ninguém.

Fazemos um trabalho independente. Não temos partido, não temos grupo. Esse é um dos grandes problemas hoje da mídia independente, que sofre pra cacete. Mas é por esse modo de enfocar todos, talvez seja por isso que eles não ficam chateados. Você vê que existem meios de comunicação do estado que têm uma linha que só faz bater no grupo tal, no grupo ‘A’. Mas a revista, com essa linha aberta, para todos os lados, com os canos das armas apontando para todos os lados, isso facilita o entendimento dessas figuras.

NM – Você já passou por alguma saia-justa devido a alguma matéria veiculada na Papangu?

TR –
Rapaz, eu já fui ameaçado. Foram ao meu escritório e falaram que se eu continuasse, enfiavam a revista por cima ou por baixo. E eu fiquei assim meio admirado com o ato terrorista do indivíduo, que até faz parte do jornalismo potiguar. Eu fiquei assim, admirado como um indivíduo que vive nesse meio tem a audácia de ameaçar uma pessoa que está ali, lutando para sobreviver. Talvez, os meios que ele tem para conseguir dinheiro sejam muito fáceis, e ele se vê no direito de ameaçar os outros. Alguns canalhas que a gente conhece que se fazem de bom moço para tentar intimidar...

NM – E nesses quatro anos de revista, quais foram os números mais polêmicos que foram lançados?
TR – Alguns sobre a prefeita de Mossoró, Fafá Rosado. Uns três números, acho, que foram muito polêmicos. Inclusive, pessoas que nos ajudavam, na equipe, foram perseguidas. Uma que teve uma repercussão muito boa foi a de Adriane Galisteu com Fábio Faria. Soube depois que o deputado Robinson Faria não tinha gostado, por que a revista tinha tratado o filho dele como um gigolô... Isso não existiu. Nós tiramos uma onda, como tiraríamos com qualquer pessoa, inclusive ele também, que a gente já falou do narcisismo dele, e tal.

Não teve isso, foi apenas uma tiração de sarro. Mas ele não entendeu. Foi uma revista que teve uma repercussão muito boa, inclusive vendeu bastante. Se você me perguntar se eu tenho, eu quase não tenho. Esgotou esse número.

NM – No próximo ano, 2008, teremos eleições municipais. Quais são os potenciais candidatos a papangus?

TR –
Rapaz, tem muitos. E assunto não falta. Política é o berço esplêndido do humor. E queremos dizer também que não ficaremos restritos só a Mossoró. Nós estaremos também presentes na prefeitura de Natal, de olho, para não deixar perder nenhum lance.
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