“Tenho medo de andar de avião”, diz irmã de potiguar morto em acidente da TAM

Passados exatos dois meses do acidente com o vôo 3054, Irenice Cunha falou das mortes do irmão, da cunhada e dos sobrinhos e do trauma deixado pelo incidente.

Fred Carvalho,
Fred Carvalho
Irenice Cunha perdeu o irmão, a cunhada e os sobrinhos no acidente
“Agora tenho medo de andar de avião. Neste domingo mesmo, quando voltava de São Paulo para Natal, me senti muito mal. É uma sensação horrível, que não sei se um dia vai passar”. O relato é da administradora de empresas Irenice Maria da Cunha Sousa, irmã do empresário potiguar Ivanaldo Arruda da Cunha, uma das vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM, ocorrido no dia 17 de julho deste ano.

Passados exatos dois meses do incidente que vitimou cerca de 200 pessoas – entre elas o irmão, a cunhada (Zenilda Otília dos Santos) e os sobrinhos (Caio Felipe e Ana Carolina Santos da Cunha) – Irenice falou com exclusividade ao Nominuto.com. Ela recebeu a reportagem na manhã desta segunda-feira (17) e falou das mortes dos parentes, da criação de uma associação de familiares das vítimas e do trauma que o acidente lhe deixou.

Irenice Cunha lembrou que Ivanaldo, que tinha 51 anos, foi para São Paulo com apenas 17 anos “tentar a vida”. “Graças a Deus ele se tornou um vencedor. Montou a própria empresa e constituiu uma família sólida. Há cinco anos, buscando melhoria na qualidade de vida, Ivanaldo veio com a família morar em Natal. Manteve a loja de bombas hidráulicas em São Paulo e aqui adquiriu dois postos de combustível. Um em Parnamirim, em 2006, e no ano passado um outro na avenida Ayrton Senna, em Natal”, contou.

A administradora, que desde a morte do irmão assumiu o comando dos dois postos, relembrou ainda que Ivanaldo voltava de um fim de semana com a família em Gramado, nas Serras Gaúchas, quando houve o acidente. “Me lembro muito bem que na quinta-feira anterior ao acidente, eu e ‘Preta’, como carinhosamente chamava a Zenilda, passamos a tarde conversando, falando sobre como seria a viagem deles. A família estava muito unida e todos bastante felizes. Foi quando aconteceu a tragédia”.

Irenice disse que no dia do acidente soube da morte dos parentes por uma sobrinha de Zenilda. “Naquele dia fiz uma coisa que não é de meu costume: cheguei em casa e fui assistir televisão, pois estavam passando os Jogos Pan-americanos. De repente vi um plantão e soube do acidente. Na hora, nem me toquei que poderiam ser meus parentes que estavam ali. Depois, comecei a ligar para os celulares deles. Todos estavam desligados. Foi quando telefonei para uma sobrinha de Zenilda e ela me deu a notícia de que eles estavam no vôo”.

A irmã de Ivanaldo contou que o momento mais difícil foi quando das identificações dos corpos. “Todos ficamos muito angustiados. Sabíamos que eles estavam mortos, mas enquanto não há a confirmação oficial, mantemos uma ponta de esperança”. O último a ser identificado foi o próprio Ivanaldo Cunha, o que aconteceu no dia 8 de agosto.

Uma infeliz coincidência aumentou o trauma na família de Irenice Cunha: dois dias depois da identificação do cadáver do irmão, o marido dela, Kergilson Sousa, faleceu vítima de um infarto. “Estava em São Paulo, no sepultamento do meu irmão, quando soube que meu marido tinha falecido. Ou seja, em pouco mais de um mês perdi meu irmão, minha cunhada, meus sobrinhos e meu marido. Tudo ainda está sendo muito difícil para mim”.

Mesmo com a tragédia familiar, Irenice Cunha fez questão de frisar que vai lutar por justiça. Para isso, ela deve se reunir com outras famílias de vítimas do acidente e fundar uma associação. “Não queremos apenas a indenização. Vamos lutar por melhorias no setor aéreo, pela criação de um tribunal específico para julgar esse tipo de acidente, que se cumpram as leis e que se respeitem o passageiro. O que vemos hoje é que, mesmo diante de tantos acidentes, ninguém fez nada para melhorar o caos aéreo”, disse.

Ela falou ainda que não há como apontar um culpado pelo acidente. “Na verdade há um grupo de culpados: a TAM, a Infraero, os governantes. E todos devem se unir e melhorar essa situação o quanto antes para evitar que mais pessoas morram por falta de estrutura nos nossos aeroportos e aeronaves”, concluiu.

Ivanaldo Arruda da Cunha, Zenilda Otília dos Santos, Caio Felipe Santos da Cunha
e Ana Carolina Santos da Cunha foram sepultados em São Paulo. Quatro vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM ainda não foram identificadas.
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