Das redes sociais para as ruas

O uso das novas mídias nas grandes mobilizações.

Alisson Almeida,
Foto: Reprodução
Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito.
Bagdá, setembro de 2002 a junho de 2003. Um desconhecido que assinava suas mensagens com o pseudônimo Salam Pax escreveu um blog chamado “Dear Raed” narrando as expectativas para a invasão americana e, posteriormente, o dia-a-dia da guerra na capital do Iraque.

Cairo, janeiro de 2011. Eclode no Egito o levante que, mais tarde, derrubaria a ditadura do presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder naquele país. O “Dia D” dos protestos, em 1º de fevereiro, reuniu dois milhões de pessoas, cuja maioria era formada por jovens, na Praça Tahrir para pedir por democracia.

Os organizadores do movimento usaram a internet e as redes sociais para planejar, convocar e divulgar as ações. O jornalista inglês Robert Fisk disse que “Esta é uma revolução pelo Twitter e pelo Facebook e há muito que a tecnologia derrubou as normas caducas da censura“.

Madri, maio de 2011. Jovens acampam na Porta do Sol e em várias cidades da Espanha para pedir por mudanças políticas e sociais. As manifestações se alastram por todas as grandes cidades da Europa e chegam, ainda que timidamente, às cidades de Washington e Moscou.

Foto: Reprodução
Protestos em Madri, maio de 2011.

Natal, 25 de maio de 2011. Num movimento que começou nas redes sociais, duas mil pessoas, principalmente jovens, ocuparam as ruas em protesto contra as administrações da prefeita Micarla de Sousa (PV) e da governadora Rosalba Ciarlini (DEM).

Muitos jovens presentes ao protesto repetiam que aquela era a “revolução da redes sociais” e comparavam o que estava acontecendo em Natal com as manifestações que começaram na Tunísia e se espalharam pelo Egito, Bahrein, Iêmen, Argélia, Líbia e, mais recentemente, pelo Velho Continente.

Mas será que há mesmo uma revolução das redes sociais em curso? Para o jornalista e coordenador do movimento dos Blogueiros Progressistas do Rio Grande do Norte (Blogprog-RN), Daniel Dantas, “imaginar revoluções políticas e sociais promovidas pela Internet e redes sociais tem uma dose de exagero”.
Foto: Reprodução/Twitter

“As redes sociais são ferramentas importantes para comunicação, difusão de informação, estabelecimento de relacionamentos e mobilização, mas a revolução, o protesto, a pressão são feitos pelas pessoas nas ruas. São os jovens que passaram mais de uma semana acampados nas ruas da Espanha. São os movimentos sociais egípcios que forçaram a renúncia de [Hosni] Mubarak ou, a queda de [Ben] Ali na pioneira Tunísia”, argumentou.

A opinião de Daniel Dantas é a mesma do professor na Universidade da Califórnia Mark LeVine que, em referência à queda de Mubarak no Egito, afirmou que “essa não foi uma revolução do Twitter ou do Facebook”. “Eles foram importantes apenas como modo de comunicação e especialmente de publicidade”, declarou, em entrevista à edição nº 156 da revista CULT.

Para o jornalista Jeffrey Ghannam, “não se deve confundir as ferramentas com as motivações”. “Facebook e o YouTube são ferramentas, e elas por si só não trazem as mudanças que o mundo tem testemunhado. Profundas mazelas sociais – a repressão das frustrações políticas e econômicas – estão no centro dos protestos”, escreveu, em artigo publicado no jornal O Globo.

Em geral, jornalistas, estudiosos da mídia e analistas políticos parecem concordar que essas novas ferramentas de comunicação, por si só, não são capazes de mudar o mundo. A explicação é simples: a realidade não acontece no ambiente virtual, mas sim nas ruas.
Porém, essas ferramentas, sem nenhuma dúvida, favorecem a disseminação da informação, amplificam insatisfações e potencializam mobilizações sociais como as que começamos a assistir em Natal.

O “Fora Micarla” que ecoou na noite do último dia 25 de maio, durante muito tempo, ficou limitado ao discurso virtual. Com a insatisfação crescente diante da ineficiência dos serviços públicos, essa oposição que só se manifestava na internet ganhou as ruas e, para descontentamento de uma parcela da sociedade satisfeita com o status cuo, abalou nossa aparente ordem social.
Foto: César Augusto

“Evidente que há um momento diferente agora. Talvez de saturação e, motivados pelo que vimos nas ruas do Norte da África e no que vemos ainda em países como a Espanha ou no Oriente Médio, as pessoas viram a necessidade de deixar o discurso e irem para a prática do seu protesto. As redes sociais mobilizaram e deram força, mas foi o povo que decidiu sair às ruas, subir nos postes e deixar o seu grito de revolta no ar”, ponderou Daniel Dantas.

Os combustíveis e a professora
Mas nem só de “Fora Micarla” vivem as redes sociais em Natal. Em abril, indignados com o aumento dos combustíveis na cidade, usuários do Twitter criaram a campanha #combustívelmaisbaratojá como forma de boicotar os postos de gasolina que não baixassem os preços.

Com a divulgação pelo Twitter, o movimento ganhou rapidamente a adesão de centenas de pessoas e de diversos órgãos, como o Ministério Público do Consumidor, OAB-RN, PROCON-RN, PROCON-Natal e Câmara Municipal do Natal, entre outros, e repercutiu na imprensa nacional.

Há duas semanas, uma professora das redes municipal e estadual de ensino virou celebridade após aparecer em um vídeo no YouTube fazendo um desabafo contundente sobre a precariedade da educação em Natal e no Rio Grande do Norte.

Foto: Reprodução/Tv Assembleia
Discurso da professora Amanda Gurgel na AL calou a todos pela contundência.

O discurso da professora Amanda Gurgel, diante de parlamentares potiguares e da secretária estadual de Educação, Bethânia Ramalho, numa audiência pública na Assembleia Legislativa do RN, calou a todos pela contundência. O vídeo foi visto por mais de dois milhões de pessoas, fez dela uma ícone em defesa da educação e a projetou nacionalmente.

Amanda deu entrevistas para jornais, rádios e emissoras de TV de todo o país. Com a fama repentina, tornou-se alvo de especulações políticas, que passaram a acusa-la de tentar se promover e de fazer propaganda do PSTU, partido ao qual é filiada há menos de um ano.

Houve, inclusive, quem a quisesse transformar, prematuramente, em candidata a prefeita de Natal em 2012. Em todas as suas declarações, Amanda rechaçou essa possibilidade, argumentando que nem ela nem seu partido estão preocupados com eleição neste momento e que seu foco é o debate sobre a qualidade da educação pública.

Mudanças
Daniel Dantas, que também pesquisador sobre blogs e doutorando em Estudos da Linguagem, disse acreditar que ainda estamos “descobrindo juntos, no mundo, o potencial das redes sociais e das novas tecnologias”.

“Eu posso andar num dia de chuva e greve de ônibus com meu smartphone fotografando e tuitando ao mesmo tempo as batidas entre carros, o congestionamento, os buracos. Ou os crimes. Ou a repressão policial. Ou as prisões arbitrárias. Ou as inconfidências”.
Para ele, as mudanças estão apenas começando. “O mundo está mudando, como disse antes, e estamos descobrindo as mudanças, suas potencialidades, seus efeitos, juntos”.
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