Maffesoli: "O Brasil é um laboratório vivo da pós-modernidade"

Escritor francês, um dos principais nomes da pós-modernidade, fala com exclusividade ao portal Nominuto.com sobre sua obra e a ligação intelectual com o pensamento brasileiro.

Alex de Souza,
Cedida/Alípio de Sousa
Michel Maffesoli esteve no Brasil participando de simpósio na UFRN.
Com a colaboração de Geider Henrique Xavier 


Ele é um dos intelectuais mais influentes no meio acadêmico brasileiro e um pensador fundamental quando o assunto é pós-modernidade. Estudando fenômenos como raves e internet, desenvolveu conceitos como da sociedade comunitária e tribal, em contraponto aos modelos de sociedade dominantes.

O francês Michel Maffesoli esteve em Natal, nesta semana, para participar de um Simpósio, a convite do Departamento de Ciências Sociais da UFRN. Numa entrevista exclusiva ao portal
Nominuto.com, ele fala sobre temas centrais de seu pensamento, política na América do Sul e explica por que o Brasil é, para ele, um "laboratório da pós-modernidade".

Nominuto.com - O senhor está inscrito numa corrente de pensadores franceses que surge após o Maio de 68. Nomes como Gilles Deleuze, Jean Baudrillard, Edgard Morin, Felix Guattari ajudaram a compor um retrato do que convencionamos chamar de pós-modernidade, na segunda metade do século 20. Como o senhor vê sua obra frente à desses nomes?
Michel Maffesoli -
Bem, sou de uma geração posterior a essa. E devo muito à obra de Morin, de Deleuze e de Baudrillard e muito de meu pensamento, não tudo, deve-se também ao trabalho deles. Por exemplo, no que concerne a Edgar Morin, a sua análise da sociedade complexa e da complexidade me parece que define bem a pós-modernidade. Com relação a Baudrillard, é um pensador bastante incômodo, mas que traz novidades. E o que ele escreveu vem justamente romper com a idéia de modernidade. E em Deleuze, me interessa muito o que ele diz sobre a filosofia da vida e sobre o barroco.

NM - Um dos pontos centrais de sua obra é a análise do cotidiano, daí partiram suas observações sobre o fenômeno das tribos, por exemplo. Aqui em Natal, o senhor proferiu uma palestra sobre o que considera um 'reencantamento' do mundo. Como o senhor define essa visão de reencantamento na contemporaneidade?
MM -
A modernidade representou uma dominação da razão. Em contraparte, a pós-modernidade representou o retorno de um pluralidade, ou seja, também um retorno da emoção, da 'magia', da afetividade. Enfim, uma volta do que se perdeu na modernidade, que tentou racionalizar todos esses aspectos.

NM - Então no caso seria essa crítica que o senhor faz aos estudiosos marxistas nas ciências sociais?
MM -
Não faço uma crítica unicamente aos marxistas. Faço uma crítica aos marxistas e aos positivistas. Pois tanto uns quanto os outros, continuam presos ao esquema analítico do século 19. O legado desse esquema analítico é o racionalismo. Mas não quero fazer só uma crítica da razão e do racionalismo. Quero completar a razão com o sensível. Inclusive tenho um livro, que foi traduzido no Brasil, chamado Lógica da Razão Sensível. Então o que prego é a introdução do sensível, dentro desse sistema racional.

NM - Falando um pouco de política, na América Latina, vê-se uma domínio das forças de esquerda, em vários países - notadamente na América do Sul. Na França, em contraponto, houve uma guinada à direita, com a eleição de Sarkozy. Sendo alguém que está em constante contato com o Brasil, como o senhor enxerga esse movimento popular que levou as esquerdas ao poder, por aqui?
MM -
Eu falava, durante uma mesa-redonda na universidade, que tive uma discussão pessoal com Chavez. E acho que não se pode falar daquele homem e de socialismo. E não quero falar sobre Lula, mas o PT no Brasil não tem uma dimensão socialista. Por outro lado - e isso o que é mais interessante - é que a tendência é uma tendência do populismo. Mas, o populismo não é ser necessariamente pejorativa. É a volta do povo, que não quer mais ser governado de cima para baixo. E também, em meu entendimento, a América Latina e, sobretudo, o Brasil representam um laboratório vivo da pós-modernidade. É um fenômeno que rotulo de 'a volta do povo'. Pode-se dizer que, na França, o sucesso de Sarkozy é um sucesso do populismo contra o sistema político habitual. E a oponente de Sarkozy, Ségolène Royale, era também populista - e contra o Partido Socialista. Então a tendência mundial é a volta do povo.

NM - Mas o senhor considera que essa 'volta do povo' dá-se de maneira crítica, ou pode-se falar mais uma vez do uso político, pode-se falar desse povo como massa de manobra?
MM -
É claro que há alguma manipulação, e não se trata de ser ingênuo sobre isso. Mas isso não me interessa, me interessa o que há como pano de fundo disso. Esse populismo, no fundo, é uma desconfiança contra aquele poder que vem de cima. Contra os políticos, contra os intelectuais e contra os jornalistas. Eis as três desconfianças importantes: os políticos, os universitários e os jornalistas é que faziam a opinião na modernidade. E o que se percebe na Europa é uma crescente desconfiança contra essas categorias. Para mim, essa é uma das formas da pós-modernidade.

NM - Uma de suas teorias fala da suplantação do homo faber pelo homo aestethicus. Como se identifica, na sociedade, esse homo estethicus?
MM -
O que eu chamo de homo estethicus é o que Morin classifica como homem demens e Huizinga, como homo ludens. Todas essas terminações na verdade significam que, para o homem, não é simplesmente o trabalho que representa a realização de si. Como podemos ver em outras épocas históricas, como na Renascença, no Quatrocentto e no Trecentto, a cultura, o hedonismo e o corpo é que são importantes. Empiricamente podemos observar que a pós-modernidade é assim. E, mais uma vez, o Brasil é um exemplo disso. Essa dimensão hedonista, corporal e sensível. É isso que chamo de homo estheticus. E, etimologicamente, estético quer dizer provar as emoções misturadas. É o que falei, sobre o retorno das emoções.

NM - No meio acadêmico brasileiro, é célebre a discussão que o senhor travou com o historiador Sérgio Paulo Rouanet sobre essa questão da pós-modernidade. E o que Rouanet defende é que esses traços que o senhor enxerga não são suficientes para ocasionar a 'ruptura' que sinaliza a pós-modernidade. Por que o senhor considera que justamente o Brasil reúne essas características do pós-moderno?
MM -
Primeiro, gostaria de dizer que respeito o Rouanet. Humanisticamente e intelectualmente ele é um grande intelectual. É uma pessoa tolerante, com quem se pode travar uma discussão. No debate que travamos, ele representa essa característica do racionalismo moderno. E eu tento demonstrar a crítica da pós-modernidade. Acho que o Brasil não é o único, mas é um dos países onde os valores pós-modernos são importantes. Dei uma entrevista a um jornal brasileiro de Sociologia, onde eles me perguntaram também quais eram as características da pós-modernidade. Respondi que é justamente a importância do corpo, a mestiçagem e a imaginação. O que permite uma forma de criatividade social. Eis para mim as características da pós-modernidade. E porque acho que o Brasil é um desses países... Ao mesmo tempo, e se vê isso também na França, os intelectuais brasileiros continuam presos ao esquema moderno. Eu digo isso com prudência (risos), mas aí tem um problema. Para todos (risos).

NM - Um pensador brasileiro que o senhor considera importante é o Gilberto Freyre, que na sua opinião enxergou esse caráter múltiplo do Brasil. E, no nosso meio acadêmico, as idéias do senhor estão cada vez mais difundidas, vários de seus livros já foram traduzidos aqui e muitos doutores foram seus alunos. Hoje, que estudiosos brasileiros apresentam essa visão pós-moderna do Brasil?
MM -
Eu diria que Juremir Machado, o próprio professor Alípio de Sousa, da UFRN... Um outro nome é Muniz Sodré, que hoje é diretor da Biblioteca Nacional. Como eu, eles partiram do marxismo, passaram por Baudrillard e têm uma visão bastante crítica da sociedade brasileira.

NM - Em oposição ao que os modernos apresentam como visão otimista do mundo, o senhor oferece uma visão 'generosa' do mundo. Que visão seria essa?
MM -
Poderia resumir com uma frase: 'A vida talvez não valha nada. Mas nada vale tanto quanto a vida.' Essa minha posição é um posição empírica. É anterior à teoria. Retomo uma idéia de Nietzsche, e afirmo a 'vontade de viver'. É claro que há uma imposição econômica, que há uma imposição moral, que pesam sobre a vida. Mas, apesar disso, apesar de tudo (risos), tem a vida. Eu me inspiro na posição de Galileu: "No entanto, gira". Digo: "No entanto, vive". Galileu foi condenado pelo clero do momento. Pelos 'marxistas' do momento. Eu tento mostrar que além das condenações marxista e positivista, tem o vitalismo, tem a 'generosidade', e que tudo é maravilha. E que, apesar de tudo, há vida. Voilà.
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