Kokinho faz história há 30 anos na educação do Rio Grande do Norte

O Nasemana entrevistou Luís Eduardo Brandão Suassuna, o famoso professor de História, Kokinho.

Alex de Souza,
Vlademir Alexandre
Ele é um dos professores mais conhecidos na cidade. Difícil ter alguém que passou pelo ensino médio, ou frequentou um cursinho sem ter assistido aula comandada por Luís Eduardo Brandão Suassuna. Mas, quase ninguém o conhece por esse nome. Com 30 anos de ensino, professor de várias escolas particulares e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Kokinho se tornou uma das figuras mais carismáticas da educação no estado. Nessa entrevista, ele conta como recebeu esse apelido e fala sobre sua experiência de sala de aula.

Nasemana - Nós ligamos para marcar uma entrevista com Luís Eduardo Brandão Suassuna, mas não conseguimos falar com essa pessoa, pois ninguém na escola a conhecia. Como surgiu esse apelido de Kokinho?
Kokinho - Esse apelido surgiu ainda na alfabetização. Estudava no Internato Francisco Sampaio e um colega meu, chamado Clóvis, botou esse apelido de Kokinho. Porque naquela época a gente tinha um corte de cabelo, em que raspava e ficava aquele coco aqui em cima. E geralmente apelido pega quando a pessoa não gosta, né? E eu nunca me importei, mas ficou.

NS - O senhor já tem três décadas de ensino. O que mudou no ensino de História durante esse tempo?

Kokinho - As abordagens mudaram muito. Até porque, quando eu comecei a ensinar, era ainda no período militar, em 1978, então meu começo no ensino foi no final do governo Geisel e começo do governo Figueiredo. Eu ainda peguei uma época em que os livros de História eram censurados.

Determinados conteúdos eram castrados dos livros. E então nós tivemos toda uma abertura política. Acrescentasse a isso, as novas abordagens sobre os fatos históricos surgidas a partir da década de 1980 e, consequentemente, vai mudando o enfoque da análise dos fatos históricos.

A outra coisa também que mudou é a evolução tecnológica. Numa época em que não havia celular, não havia internet, o comportamento dos alunos nesse aspecto - e não estou me referindo ao comportamento disciplinar - era muito diferente.

NS - Então hoje é impossível trabalhar com educação sem estar acompanhando esses avanços?
Kokinho - Exato. Mesmo que os professores, por serem de outra época, não acompanhem, os alunos acompanham a evolução tecnológica.

NS - O senhor publicou um livro, Introdução à História do Rio Grande do Norte. Essa nossa história ainda é pouco conhecida pelos estudantes?
Kokinho - Ainda é pouco conhecida, ainda é pouco estudada, ainda é pouco valorizada. Embora ultimamente já está havendo um interesse maior pela história do Rio Grande do Norte. Uma das coisas que me preocupa muito é essa mudança no vestibular, do Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Eu acho extremamente salutar, mas traz esse lado negativo: a desregionalização do vestibular.

NS - Com a chegada do Enem, o que pode mudar na preparação do aluno para o ensino superior?
Kokinho - Poder mudar, pode. Agora acho que será uma mudança muito pouca. É como querer construir uma casa começando pelo telhado. A clientela que nós temos é essa. A avaliação que a pessoa criar vai ser para essa clientela. Não é a avaliação que vai mudá-la. Com o passar do tempo, pode ser que haja um reflexo, mas eu não o vejo... Agora, é claro, as provas são bem elaboradas, a abrangência... Vejo dois problemas no Enem. Um é a desregionalização.

E o outro é que ele deixa de ser um exame com fins estatísticos, para ser um exame de concurso, não é? Então aí tem uma série de questões quanto à segurança do Enem. Segurança de sigilo, de aplicação, até mesmo de correção, porque o vestibular vai sair do âmbito da universidade. E se torna uma coisa genérica. Isso é preocupante. Não a prova em si, mas a aplicação.

É diferente você aplicar uma prova para fins estatísticos e aplicar uma prova em que você está concorrendo com seu vizinho. Onde você, filho do prefeito do interior, está fazendo aquela prova lá na cidade do interior, onde os pacotes chegaram na véspera. Isso sai do âmbito da universidade.

NS - Vai ser mais complicado o Enem para o cursinho ou para a universidade?
Kokinho - Para os cursinhos pré-vestibulares? Vai ser ótimo. Foi a melhor coisa que podia ter. Porque ninguém está preparado para o Enem. Então vamos preparar para o Enem! Porque geralmente o cursinho pega pessoas que já terminaram o ensino médio. Essas pessoas não sabem nem para onde é que vai o Enem.

De imediato, para o cursinho, foi a melhor coisa que teve. Em vez de pré-vestibular, vai ser pré-Enem. E vai dar muita gente, porque o povo não sabe nem para onde vai, tem nem ideia de uma coisa totalmente diferente. Quanto aos cursinhos, ninguém precisa se preocupar com isso. Os cursinhos se adaptam à realidade.

NS - O mercado de cursinhos é consequência de um ensino de má qualidade?
Kokinho - É. Embora hoje os cursinhos estão diminuindo muito o número de alunos. Devido à grande quantidade de faculdades particulares. O aluno do cursinho hoje, em tese, é um aluno de baixo poder aquisitivo, vindo geralmente da escola pública e que crê na possibilidade de entrar na universidade federal, porque oferece algumas vantagens para o aluno proveniente de escola pública: 'Se eu estudar mais uma coisinha, eu entro'.

NS - Retomando o assunto da História do Rio Grande do Norte. Como esse desconhecimento pode ser 'consertado'?

Kokinho - Isso já vem sendo consertado. A minha preocupação agora é com esse tipo de vestibular. Porque, quer queira, quer não, o ensino médio se volta para o vestibular. A partir do momento em que o vestibular não mais exige a História do Rio Grande do Norte, talvez a universidade federal, que é a referência em vestibular, só vá pedir na segunda fase, então só para a área Humanística, o pessoal da tecnológica e biomédica não vai mais ter interesse no estudo da História do Rio Grande do Norte. Infelizmente.

NS - Qual o segredo para encarar diariamente a sala de aula durante todo esse tempo?
Kokinho - O Padre Antônio Vieira dizia que para a gente ensinar são necessárias duas coisas: gostar e saber. Quem não gosta, não quer e quem não sabe, não pode. Então, a primeira coisa, você tem que gostar daquilo que faz. Se você não gostar, não dá certo nunca. Não é?

Agora se você gostar e procurar saber, porque também ninguém ensina o que não sabe - você pode até enrolar uma aula ou duas, mas o ano todo você não enrola - se você souber e se você gostar, se torna uma coisa prazerosa. Acho que o gostar, o entusiasmo pela coisa que a gente faz é muito importante, seja ela qual for a profissão.

NS - E pelo outro lado, qual o segredo para motivar o aluno dentro da sala de aula?
Kokinho - Primeiro segredo para motivar o aluno é ser motivado. Se o professor não for motivado, se ele chegar na sala com ar de desânimo, reclamando da vida, dizendo que tudo é difícil...

O primeiro ponto é a motivação do próprio professor. Se o aluno sente confiança no professor, no gosto pelo que ele faz, naquilo que ele externa - porque quando a gente gosta, a gente externa. Não precisa dizer, as pessoas notam.

Quando você está fazendo uma coisa que você gosta, as pessoas notam. E isso é contagiante. E segundo, é saber. Se você souber do conteúdo, pode trabalhá-lo das mais diversas maneiras. Você tem, como a gente diz, panos pras mangas. É uma coisa mais atrativa, uma coisa mais pitoresca, para tornar a aula mais agradável.

NS - Além da sala de aula, o senhor se tornou empresário do ramo da educação. Quais são os desafios para quem é empresário dessa área?
Kokinho - Os desafios são os do mercado. As constantes mudanças, uma crise econômica, que repercute na inadimplência, na evasão de alunos. A gripe do porquinho, que está aparecendo, não é?, na verdade dizem que é uma gripe como outra qualquer, é apenas para desviar a atenção dos grandes problemas, inclusive da crise econômica internacional.

Tanto que ela começa pelo México e Estados Unidos. Então são esses os problemas do dia a dia. Principalmente os problemas de mercado, porque uma empresa ela vive do que arrecada. E a queda de arrecadação preocupa. Principalmente numa folha de pagamento grande. A escola não vive daquilo que ela compra, mas do serviço que ela paga. Se você compra, pode até dizer: 'Não, essa mercadoria vou comprar daqui a dois meses'. Mas o salário dos professores, que é o grosso da escola, você tem que ter todo mês.

NS - E o mercado específico de cursinhos, é muito competitivo?
Kokinho - Hoje não é mais competitivo. Hoje nós só temos praticamente dois cursinhos: o CDF e o Contemporâneo. Na verdade, meu ramo não é o cursinho, é o supletivo, apenas ensino no CDF.

Não é mais competitivo como quando comecei a ensinar. Tinha Dinâmico, Delta, Ferro Cardoso, CPU, tinha uns oito a dez cursos. Isso acabou com o grande aparecimento das faculdades particulares. Quem pode pagar cursinho, não vai fazer cursinho, vai fazer uma faculdade particular.

NS - Até que o ponto o supletivo é válido para a formação do aluno?
Kokinho - Ninguém pode falar do supletivo sem falar da heterogeneidade da clientela. Por exemplo, tenho aqui alunos que vão dos 14 aos 65 anos. Você tem as mais diversas faixas etárias. Você tem pessoas altamente preparadas, mas que não tiveram como certificar seus estudos.



E que vêm aqui e tiram 10, dão show, num instante terminam. E você tem alunos que não querem nada, que foram reprovados não sei quantas vezes, estão atrasados. O pai bota pra ver se acelera os estudos. O supletivo tem essa função de atender a essa parte da sociedade que ficou fora dessa regra da faixa etária. Dentro dessa regra, você tem uma diversidade de clientela.

Agora, o interessante é que o supletivo em alguns pontos é extremamente estimulador em alguns alunos que até então, no ensino regular, não queriam estudar. Por quê? Quando ele vê o tempo perdido e a possibilidade que ele tem, de num curto período de tempo, recuperar, até porque o supletivo lida apenas com as disciplinas do núcleo comum, aquelas que são obrigatórias em nível nacional - você não tem aqueles penduricalhos de outras matérias - isso muitas vezes motiva alguns alunos. Temos alunos que vão bem, que passam para a federal... A heterogeneidade da clientela é a característica maior do ensino supletivo.
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