Geraldo Melo: "Estou vivo politicamente e não aceito que ninguém passe mais nunca um trator por cima de mim"

Líder do PSDB no RN, o ex-senador revela ao Nominuto.com seu desejo de voltar a concorrer a um cargo eletivo, mas faz mistério sobre que cargo seria.

Marcos Alexandre,
Fotos: Vlademir Alexandre
Geraldo Melo, sobre o futuro político: "Deixa a vida me levar"
Os dois insucessos eleitorais colhidos nos últimos pleitos em que concorreu, em 2002 e 2006, não tiraram do ex-senador Geraldo Melo, presidente do PSDB no Rio Grande do Norte, a disposição para voltar a disputar uma eleição. O aviso é dado por ele próprio, nesta entrevista ao portal Nominuto.com.

Embora admita que hoje sua realidade política é outra em comparação com os tempos em que foi governador (1986-1990) e senador (1994-2002), Geraldo Melo revela que ainda deseja disputar um cargo eletivo no Estado. Só não revela qual. "É uma coisa íntima minha".

Nesta conversa, o líder tucano passa em revista uma série de outros temas políticos. Levanta, por exemplo, a possibilidade de o seu partido apresentar candidatura própria a prefeito de Natal, em 2008, e fala sobre os planos do PSDB potiguar de recuperar a antiga força política.

Geraldo Melo comenta ainda o episódio em que o PMDB trocou o apoio à sua candidatura ao Senado, às vésperas da campanha do ano passado, pela então candidata e atual senadora Rosalba Ciarlini (DEM), por uma exigência do senador José Agripino (DEM). Segundo ele, restou a lição para que "nunca mais" aceite ser "atropelado".

Ele assegura que não guarda mágoas do ocorrido, mas faz questão de dizer que o caso criou um "passivo" do PMDB em relação ao PSDB.

Nominuto — O PSDB do Rio Grande do Norte vive um momento de baixa. Quais os planos do partido para superar esse momento?

Geraldo Melo — Seria muita hipocrisia de minha parte dizer que o PSDB do Rio Grande do Norte está muito forte. Todo mundo sabe que isso não é verdade. O partido perdeu espaço, perdeu seu representante no Senado, estamos com um número modesto de prefeitos, temos vice-prefeitos e vereadores e com uma estrutura montada em quase todos os municípios. Do ponto de vista interno, administrativo, estrutural, acho até que o PSDB vai indo bem.

NM — Já em termos de densidade eleitoral...
GM — Do ponto de vista eleitoral, a nossa base popular continua intacta. Até mesmo o resultado eleitoral que eu tive, e nas circunstâncias em que eu disputei a eleição, se olharmos friamente para aquele cenário, qualquer um no meu lugar não teria tido aquela votação que eu tive. Era um empreendimento impossível e que, assim mesmo, teve a solidariedade de mais de 150 mil norte-rio-grandenses. Não estou nem me referindo ao meu desempenho, mas à postura do eleitorado do PSDB, que resistiu a tudo e ainda conseguiu reunir uma coisa dessas. Acredito também que o nosso peso no processo político é um pouco diferente do que se supõe. Muita gente olha para mim e pensa que eu já morri ou que estou fora do processo político.

NM — O que fazer para mostrar o contrário?

GM — Eu já enfrentei essa situação algumas vezes na minha vida. Vou fazer o que tem que ser feito. Cada coisa no seu momento. Agora mesmo estamos nos preparando para avaliar, município a município, qual vai ser o nosso papel na eleição municipal, se vamos disputar com candidato próprio, se vamos fazer aliança indicando candidato a vice, que tipo de coligação faremos e verificar onde não há condições de se formar chapa nenhuma. Temos que ver tudo isso com muito realismo. Claro que, dentro disso tudo, existem algumas áreas mais sensíveis, uma delas é de Natal, naturalmente a área mais importante do Estado e onde a nossa tendência, dependendo da evolução dos acontecimentos, seria discutir a aliança. Mas essa tendência, hoje, está sendo questionada pela direção nacional do partido, que sustenta a necessidade de termos candidato próprio.

NM — Esse candidato seria o deputado estadual Luiz Almir, a exemplo do que ocorreu em 2004?

GM — Entre as alternativas que temos, ele está em primeiro lugar na fila. O que quero dizer com isso é que não teria nenhum sentido que fôssemos cogitar ter um candidato a prefeito e não examinássemos primeiro o nome de Luiz Almir. É o deputado que nós temos, tem uma liderança reconhecida na capital, foi candidato a prefeito e teve um excelente desempenho — perdeu apenas por 3%, e no segundo turno. Ele seria um candidato altamente competitivo, mas isso depende muito do projeto político dele. Não estamos com a decisão tomada, de ter ou não candidato. De qualquer maneira, uma coisa eu posso te dizer: vamos ter uma participação nesse processo em que as pessoas vão começar a descobrir que por aqui não morreu ninguém. Estamos vivos e vamos continuar existindo no processo político do Estado com o mesmo peso e com a mesma influência.

NM — O partido teria uma outra estratégia fora a da candidatura própria?

GM — O horizonte agora pára na eleição municipal. A partir daí, é que vai se iniciar o processo das eleições estadual e nacional, que são discussões que envolvem outros ingredientes. A sucessão estadual só deve ser desencadeada mais na frente, quando começarem a se definir as variáveis que vão influir na estruturação desse processo. Não é obrigatório que se mantenham as alianças que hoje estão aí. Há distâncias entre lideranças políticas que podem aumentar ou diminuir. De forma que seria precipitado falarmos agora de planos que ficarão mais para a frente. Por ora, vamos tratar da questão municipal para preservar os espaços que temos, por menores que sejam, e tentar ampliá-los, prepararando o partido para que ele possa disputar bem essas eleições.

NM — O senhor declarou há alguns meses que o destino do PSDB nas eleições municipais estaria nas mãos da governadora Wilma de Faria. Essa posição está mantida?

GM — A nossa aliança com a governadora é sólida e não está passando por nenhuma dificuldade e nenhuma crise. Agora, se o PSDB nos coloca a possibilidade de termos candidato, é natural que o assunto passe a ser discutido dentro dessa aliança. É claro que temos que ambicionar a posição mais confortável possível. Quem sabe se isso não nos levará a conduzir para dentro da aliança o projeto da candidatura do PSDB? Não vejo motivo nenhum para que esse projeto não seja discutido numa aliança conosco, do mesmo modo que podemos ter uma aliança em torno de um candidato de outro partido. É claro que não pode haver vetos ao exame do nosso partido. São assuntos que vão começar a ser tratados sem nenhum açodamento, pois não podemos esquecer que ainda temos um ano para tratar objetivamente dessas questões.

NM — São recorrentes nos meios políticos os comentários sobre a possibilidade de uma reaproximação política entre o PSB e o PMDB. Pela sua experiência, o senhor acha essa reaproximação possível num futuro mais próximo?

GM — Possível é. Pelo menos do nosso ponto de vista, não vejo nada que torne isso uma coisa impossível. Mas é evidente que essa alteração de cenário requer a solução de muitos problemas, porque se acumulou um passivo muito grande. É natural que se veja como esse passivo vai ser resgatado.

NM — Que passivo seria esse?

GM — Eu, meu partido e meus companheiros integramos uma aliança política que está ao lado da governadora. E existe um passivo grande do PMDB em relação a nós.

NM — São ainda resquícios da última campanha?

GM — Não é nem resquício, mas o resultado da campanha passada. O que houve na campanha gerou situações que precisavam ser corrigidas. Não estou me referindo à minha pessoa, mas aos danos pelo que aconteceu ao nosso partido. Eu sei que essa conta corrente não é exata como a de uma contabilidade comum. A governadora está hoje liderando um projeto político-administrativo e todas as alianças que venham a ser feitas para fortalecer esse projeto precisam ter a participação de todos nós. Defendo o fortalecimento dessa aliança e não o seu enfraquecimento. É claro que isso representa a incorporação ao projeto político e administrativo que a governadora está conduzindo.

NM — Se o PMDB entrar na aliança, o PSDB está fora?

GM — Não, eu não disse isso. Pelo contrário, se o PMDB entrar nesse processo, sabe que existem reparos que precisam ser feitos por iniciativa dele, PMDB, para suscitar a boa vontade de todos. Agora, eu disse também que acho que a governadora lidera um projeto político-administrativo e que, se o PMDB quiser colaborar com esse projeto, todos devemos apoiar. Não disse que se o PMDB entrar, o PSDB sai. De jeito nenhum. Apenas acho que a formação de uma aliança, qualquer que seja ela, requer a discussão das pendências que possam existir. Isso não é nem imposição, nem retaliação. É uma coisa natural de um processo político. Há interesses políticos legítimos não só do PSDB, mas de outros partidos que integram o nosso arco de aliança, hoje, e esses interesses precisam ser do conhecimento do partido que vier a se somar a nós. Tudo isso faz parte de um processo normal de discussão de qualquer aliança. É como eu disse no começo: não vejo também nada que torne esse entendimento impossível.

NM — E como o PMDB poderia reparar o dano a que o senhor se refere, já que ele ocorreu na campanha passada?

GM — Claro que o que já aconteceu, já aconteceu. A única maneira de ele reparar é em relação ao que vai acontecer. E nenhum de nós pode subestimar a experiência, o conhecimento e a lucidez políticas dos líderes o PMDB para imaginar que eles não sabem qual é a forma de se discutir esse tipo de assunto. Eles sabem muito bem que é uma questão de interesse e de oportunidade.

NM — Como o senhor avalia o primeiro semestre do atual mandato da governadora Wilma de Faria?

GM — Do ponto de vista político, ela continua extremamente fortalecida, com uma base de apoio bastante sólida e com uma aliança que reúne um amplo espectro do quadro político do Estado. Do ponto de vista administrativo, os primeiros quatro anos ela governou dentro de um determinado cenário local e nacional. Esse cenário passou por alterações, não apenas as que decorreram da própria reeleição dela, mas as que decorreram também do cenário nacional. Ela teve a sensibilidade de identificar onde precisava fazer alguns ajustes no seu governo e fez esses ajustes. Inclusive outros ajustes decorrentes do fato de que alguns auxiliares que tinham posições importantes na estrutura do Estado e que saíram daqui, como é o caso do deputado João Maia. Vejo que ela está tendo muito cuidado com a preservação do equilíbrio fiscal, o que é um dever e algo muito bom para o Estado. É um governo que tem e está executando projetos ambiciosos e isso é de domínio público, não precisamos nem relacioná-los aqui. Me sinto muito satisfeito de ver o desempenho que o Governo do Estado vem tendo nos últimos meses.

NM — Que cenário o senhor vislumbra hoje para 2010, para a sucessão da governadora Wilma de Faria? Os nomes cotados até agora são os do presidente da Assembléia, Robinson Faria, e do vice-governador Iberê Ferreira, pelo lado do governo, e da senadora Rosalba Ciarlini, pela oposição. O caminho será por aí mesmo, passando por esses nomes?

GM - Eu acho que esses são os agentes que estão figurando no processo no momento e não vejo nenhum sacrilégio em incluir todos esses nomes dentro das possibilidades que aí estão. Acho que no caso da senadora Rosalba, a candidatura dela ao Governo é nitidamente uma solução oposicionista. Quer dizer, pressupõe-se que ela dispute contra o candidato apoiado por dona Wilma. De qualquer forma, eu vejo que o cenário tem esses protagonistas e que não tem nada indigesto nas hipóteses que você levanta. Agora, pretender agora dizer como o cenário estará, aí seria adivinhação. Eu acho que há algumas coisas mais ou menos óbvias, porque a governadora, por exemplo, é candidata natural ao Senado. Não havendo nenhum terremoto daqui pra lá, eu acho que ela tem um lugar no Senado mais ou menos garantido, e isso tem reflexos porque há dois senadores que são políticos importantes no Estado concluindo seus mandatos, o senador (José) Agripino e o senador Garibaldi (Filho). Um dos dois, neste caso, deixará de ser senador. Aí, vai depender muito da avaliação que eles vão fazer, se algum deles vai disputar o Governo do Estado, se algum deles sairá para um outro mandato de outra natureza. Enfim, é uma coisa que é prematura se falar, mas apenas há o fato de que os dois encerram o mandato, portanto vão ter que definir um rumo.

NM - É verdade que o PSDB pretende questionar um eventual mandato do ex-senador Fernando Bezerra, caso ele consiga uma vitória no recurso que move no TSE contra a senadora Rosalba Ciarlini?

GM - Eu nunca disse isso, nunca falei sobre esse assunto com quem quer que seja. Já ouvi muita gente falar sobre isso, mas eu nunca falei.

NM - Certo, mas a pergunta é se existe uma pretensão nesse sentido.

GM - Eu nunca falei sobre isso e acho que está bem assim.

NM - Sobre o seu futuro político, o senhor pretende ainda tentar algum mandato eletivo? Ao fim das últimas eleições, o senhor chegou a dar algumas declarações no sentido de que estaria se aposentando não da vida política, mas da busca por mandatos. O senhor chegou a dizer que fora mal interpretado. Afinal, quais são seus planos políticos?

GM - Eu disse uma coisa que vale ainda hoje. O que eu disse — e que ensejou todo tipo de interpretação — foi: "deixa a vida me levar". Essa foi a frase que escolhi para tratar do assunto naquele momento. Eu sou um político acostumado a fazer política sem mandato. Veja bem, eu não tinha mandato nenhum quando me credenciei politicamente a tal ponto de ter sido candidato a governador e eleito (em 1986). Depois eu fui governador, governei até o último dia, não saí do governo para ser candidato a nada e quando entreguei o governo ao meu sucessor vim para casa. Fiquei quatro anos sem mandato e, estando sem mandato, me credenciei a ser candidato a senador, fui eleito e naquele ano (1994) fui o mais votado. Então, o fato de eu estar sem mandato não me cria nenhuma aflição particular. Graças a Deus, eu não vivo da política, não recebo do Poder Público nada, coisa alguma, nem aposentadoria eu tenho, nem aposentadoria do INSS, muito menos de ex-governador, de ex-senador, de "ex-nada". Criei meus filhos sem dinheiro da política, de forma que isso (estar sem mandato) não me causa nenhuma ansiedade especial. Se você me perguntar se eu aceitaria, ainda, algum mandato, eu lhe respondo que, dependendo das circunstâncias em que essa possibilidade nasça, sim. Agora, as circunstâncias mudaram. Antes, cada vez que eu terminava um mandato eu dizia "daqui a quatro anos eu sou candidato a isso, sou candidato àquilo". Hoje, eu não quero mais fazer isso. Eu sei intimamente o que eu aceitaria, mas isso é uma coisa, como eu disse, íntima minha. Se as circunstâncias políticas um dia trouxerem aqui alguma possibilidade de eu disputar alguma coisa que eu ache que eu possa aceitar, eu aceito. Se não trouxerem, eu continuarei como um homem público do meu país, procurando servir o meu país da maneira que estiver ao meu alcance, sem mandato. Atento, acompanhando as coisas, os problemas nos municípios, no Estado, na região, no país, no mundo, procurando me manter atualizado com as coisas que estão acontecendo neste momento, com as enormes transformações que vêm se processando no mundo inteiro, no relacionamento entre povos, entre sociedades, entre países, entre governos, achando que é preciso a gente ter muita lucidez e muita informação para compreender as coisas na velocidade que elas acontecem. Mas eu acho que esse é o meu papel. Eu estou pronto, acho que estou pronto (para assumir um mandato), mas não estou com nenhum tipo de ansiedade. A única coisa que eu posso dizer é que eu estou vivo politicamente e que não aceito que ninguém passe mais nunca nenhum trator por cima de mim. Isso eu não vou aceitar. Mas que eu tenho capacidade de reagir, eu tenho.

NM - O trator a que o senhor se refere é o episódio do ano passado, em que o senador José Agripino exigiu para Rosalba Ciarlini a candidatura a senador apoiada pelo PMDB que estava inicialmente prevista para o senhor?

GM - É. Fui atropelado pura e simplesmente, com eles dizendo "saia da frente que eu vou passar por cima".

NM - O senhor se refere somente ao na época PFL, hoje Democratas?

GM - Ao PFL e ao PMDB. Mas me refiro a esse episódio como uma experiência. Eu não sou ressentido, não faço política com ressentimento e nem faço política com raiva. Apenas estou dizendo que sou uma pessoa suficientemente independente para aceitar certas coisas, ou não aceitar. E acho que a coisa melhor que existe na vida é você chegar a um ponto de se considerar uma pessoa independente. Acho também que, se esse momento do ano passado foi do ponto de vista eleitoral um desastre, tudo tem uma compensação. Hoje, eu me sinto um homem que pode transitar no Rio Grande do Norte em qualquer lugar, em qualquer ambiente, em qualquer região, e chegar de cabeça erguida sabendo que as pessoas me respeitam. Então, nessa altura da minha vida isso já é uma grande coisa.

NM - Só para encerrar, o senhor pode revelar qual o cargo que o senhor deseja intimamente?

GM - Não. Senão, não seria íntimo (risos).
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