Ceará recua sobre flexibilizar quarentena e Estado pode ser 1º a ter pico da epidemia

Auge das contaminações na região deve ocorrer a partir de 20 de abril, segundo projeções.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Divulgação/Governo do Ceará
Governador do Ceará, Camilo Santana, durante reunião com outros governadores da região Nordeste.

SELO-CORONA-100O Ceará deve ser o primeiro Estado a atingir o pico de infectados pelo novo coronavírus, segundo estudo da CoVida, iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal da Bahia. O grupo prevê esse ponto máximo a partir de 20 de abril, quando o Estado deve ultrapassar a marca de 3 mil casos. O governador Camilo Santana (PT) chegou a anunciar uma flexibilização da quarentena no domingo, 5, mas depois recuou e estendeu o isolamento pela terceira vez. O Estado também segue com as dividas fechadas.

Segundo Juliane Oliveira, do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde da Fiocruz, o estudo leva em conta o número de testes realizados e, consequentemente, o de confirmações. "É um modelo usado para dar uma ideia do cenário em geral, da pandemia", diz ela, doutora em Matemática.

"Pode ser que no Ceará o sistema de saúde esteja mais atento, com realização de mais exames laboratoriais, o que pode ser uma diferenciação com os números de outros Estados. Então, baseados na curva desses dados, ajustamos um modelo e observamos esse crescimento no Ceará”, acrescenta. O Ministério da Saúde já apontou que o Estado - além de São Paulo, Rio, Distrito Federal e Amazonas - tem registrado avanço preocupante da doença.

O governo cearense confirmou, até segunda-feira, 6, que 1023 pessoas testaram positivo e 31 pacientes morreram. Conforme Santana, o alto número de confirmações é resultado da quantidades de testes realizados. Para especialistas, o baixo número de exames disponíveis pelo País dificulta um mapeamento mais preciso sobre o avanço da doença. Pesquisas já estimaram total de casos nove vezes maior do que os oficialmente registrados no Brasil.  

Medidas rigorosas estão sendo adotadas pelo governo, como forma de promover o isolamento social da população. Santana estendeu o isolamento até 20 de abril, com um decreto que proíbe atividades não essenciais. Nos dois decretos anteriores, os prazos haviam sido até 29 de março e, depois, até 5 de abril. No último domingo, ele chegou a anunciar a liberação de algumas atividades de parte da indústria, do comércio das áreas de limpeza, higiene e material de construção, além de feiras populares, mas recuou após críticas.

Nesta semana, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foi outro a estender o isolamento. Diferentemente do presidente Jair Bolsonaro, que fala em receio de uma crise econômica e sugere reabrir o comércio, os governadores têm defendido o isolamento social como forma de frear a covid-10. A quarentena também tem sido recomendada por autoridades de saúde em todo o mundo.

Com o novo decreto de Santana, ficam proibidas de abrir para o público lojas, assim como bares, lanchonetes e restaurantes, que só podem funcionar por serviço de delivery. Além disso, divisas com outros Estados foram fechadas e todos os eventos foram proibidos no Ceará, incluindo os religiosos, como missas e cultos.

A Socicam, empresa administradora da Rodoviária Engenheiro João Tomé, em Fortaleza, informa que as atividades estão 100% paralisadas. No aeroporto da capital cearense, é realizada hoje uma média de 7 voos diários, redução de 96% no movimento. Confome a Fraport, empresa que administra o aeroporto, outras medidas também foram adotadas, como a distribuição de álcool em gel e máscaras aos funcionários.

Em Fortaleza, com o decreto do governo, muitas empresas adotaram o sistema de home office e revezamento de funcionários. Lojas, para driblar a queda no faturamento, investiram em vendas online e entrega de mercadorias. E, apesar da norma, fortalezenses formaram grandes filas em casas lotéricas e agências bancárias nesta segunda, 6, desobedecendo a ordem de isolamento e distanciamento social.

Dona de um salão de beleza, Naiana Paiva resolveu abrir o espaço para atender um cliente por vez, com medidas reforçadas de higiene, com uso de aventais e máscaras descartáveis, além de álcool em gel. “O movimento caiu de 70% a 80%. O que está pagando as despesas são os pacotes promocionais e a fidelidade dos clientes, que fecharam serviços antecipados". Naiana adotou também a estratégia de dividir os atendimentos por horário.

Já a empresária do ramo de gastronomia Vivian Van Belle nunca havia oferecido o serviço de delivery, mas teve de adotar o modelo para tentar movimentar o caixa do restaurante. "Está sendo bastante desafiador. Estamos oferecendo voucher com desconto para o cliente usar em outubro. Estamos com 5% do nosso faturamento normal, então tanto o delivery quanto o voucher de descontos estão sendo usados pra tentar suprir nossas necessidades. Apesar da crise financeira, sou muito a favor do isolamento social", conta.

Tags: Ceará Covid-19 novo coronavírus pandemia quarentena recuo da flexibilização
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