Casamentos aumentam 27% no Brasil com avanço da vacina e flexibilização da quarentena

Levantamento foi realizado de janeiro a outubro com dados dos cartórios do País; expectativa é de alta ainda maior nos últimos dois meses do ano.

Da redação, Estadão Conteúdo ,
Pixabay
De janeiro a outubro, foram 683.855 matrimônios, frente a 535.823 selados no mesmo período de 2020. A tendência de alta começou em março.

A analista financeira Aline Melo, de 25 anos, foi pedida em casamento em 2018 e logo marcou a data da união: 15 de novembro de 2020. O avanço da covid-19 no início do ano passado forçou o cancelamento da celebração e ainda resultou na sua demissão. No último dia 15, a jovem finalmente selou a união com o professor Rodrigo Sanches, de 27, num festão que reuniu 180 convidados humanos – todos devidamente vacinados – e o cão salsicha Rodolfo, responsável pelas alianças. A lua de mel em Gramado (RS), com friozinho de 9ºC em pleno novembro, foi o complemento perfeito.

“O casamento foi tudo e muito mais do que eu esperava. Foi um sonho sonhado por muita gente, por muito tempo”, disse ela, que em uma semana “devastadora” de 2020, foi demitida na terça e adiou a festa dois dias depois. Agora, ela já tem novo emprego e está recuperada. “Foi a primeira vez que reencontramos muitas pessoas da família: emoção em dobro, pelo casamento em si e pelo reencontro de todo mundo.”

Aline não está só nessa retomada. Levantamento feito pelos cartórios de todo o País, aponta crescimento de 27,61% das uniões só nos dez primeiros meses do ano, ante o mesmo período de 2020. É uma amostra simbólica da volta à normalidade após o isolamento social. Novembro e dezembro, tradicionalmente o mês com o mais celebrações, ainda nem entraram na conta - sinal de que o aumento deve ser ainda maior.

De janeiro a outubro, foram 683.855 matrimônios no País, frente a 535.823 selados no mesmo período do ano passado. A tendência de alta começou em março. Os dados são do Portal da Transparência do Registro Civil, base gerida pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil (Arpen), que reúne os 7.654 cartórios de registro civil.

Em outros casos, a união no cartório já até ocorreu, mas restou a vontade de celebrar o momento com festa. A fisioterapeuta Stéfany Beluci Floriano, de 27 anos, e o professor Jeferson Floriano Junior, de 28, se casaram no cartório em junho de 2020. Foram só duas testemunhas: a irmã e o primo da noiva. “Durou cerca de três minutos. Foi muito frustrante. Zero emoção, zero tudo", diz ela. 

A cerimônia com festa ocorreu só no último dia 13, em Mairiporã, na Grande São Paulo. Só o casal e os padrinhos ficaram sem a máscara. Entre os convidados, a maioria já tinha o esquema vacinal completo e alguns, até dose de reforço. 

Inicialmente, a data era abril do ano passado. Poucos dias antes do casamento e com metade da conta paga - cerca de R$ 20 mil -, o sonho foi adiado por causa da necessidade de isolamento. “Fiquei desestabilizada, tinha uma expectativa muito alta. Já tinha feito todas as provas do vestido, me vesti de noiva três vezes", conta ela. 

O casal remarcou, então, para julho. Mas o meio do ano chegou e os casos de covid-19 ainda estavam altos.  Como o imóvel na zona norte de São Paulo já estava pronto e mobiliado, decidiram oficializar a união no cartório, mas a celebração ficou para depois. 

A cerimônia religiosa foi mudada para março de 2021 - ainda não era possível saber que nesta época começaria no Brasil justamente o auge da pandemia. Resultado: novo adiamento. Conciliar os oito serviços contratados (bufê, assessoria, carrinho de brigadeiro, cabine de fotos, fotógrafo, músicos, maquiadora e cabeleireira), lembra ela, não foi tarefa fácil. A burocracia era tanta que Stéfany cogitou desistir - as multas a serem pagas, todavia, a desencorajaram.

A retomada dos casamentos ocorre após forte queda no ano passado. Levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado na semana passada, revelou que o total de casamentos teve queda entre 2019 e 2020, de 26,1% - a maior redução dessa série histórica, iniciada em 1974. “Muita gente evitou as cerimônias no ano passado, por mais simples que fossem, por conta das aglomerações”, destaca a gerente da pesquisa do IBGE, Klívia Bryner. “Foi um efeito direto da epidemia.”

“A vacinação ajudou muito na flexibilização do número de convidados", diz a cerimonialista Fabiene Aparecida da Silva, da Fabs Eventos, empresa carioca que ficou fechada durante boa parte do ano passado. Desde maio de 2021, conforme as leis do Rio, as festas estavam liberadas, mas ainda com restrição no número de convidados. Essa norma caiu no início deste mês. “Basicamente todos os casamentos que não aconteceram no ano passado estão sendo feitos este ano”, diz Fabiene.

“Conforme a vacinação avança e o número de doentes diminui, as pessoas vão tomando coragem de retomar os sonhos que tinham antes da pandemia” afirma o presidente da associação dos cartórios, Gustavo Renato Fiscarelli . “Naturalmente, nos cartórios, a gente continua seguindo protocolos de segurança; essa é uma combinação importante para a retomada.”

Cerimônia híbrida vira opção

Já o servidor público Leonardo Dantas Teixeira, de 44 anos, e a engenheira Anália Meira Spinelli, de 42 anos, que também se casaram na semana passada, preferiram reduzir o número de convidados presenciais a 40 pessoas. Mas outros 80 acompanharam a cerimônia: a distância. 

“Sou uma pessoa muito festeira, da celebração, mesmo que não desse para ser totalmente presencial, queria que tivesse algum marco”, contou Anália. “A gente percebeu que existia um significado além da festa e se propôs a fazer caixas para levar às pessoas nosso sentimento em relação ao casamento.”

Quem acompanhou o casamento online recebeu dos noivos uma caixa com vários mimos, entre eles uma garrafinha de champanhe e um bem-casado (doce). A estudante de jornalismo Jhennifer Melo, de 24 anos, e o analista de sistemas Willian Melo, de 29 anos, casaram-se no fim de semana retrasado, em uma igreja em Jacarepaguá, na zona oeste. Foram cerca de 80 convidados, mas os noivos pediram que as máscaras fossem usadas.

“Só nós dois ficamos sem máscara”, contou Jhennifer. “E também preferimos não fazer um bufê, distribuímos sacolinhas com bolo, doces e outras lembrancinhas. A gente sabia que muitos convidados ainda estavam com medo de sair de casa e quisemos garantir essa segurança para todos.”

Tags: Brasil casamentos vacina
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