Mundo digital

O que está por trás do WeChat, o aplicativo mais usado na China

Misto de WhatsApp com serviços financeiros e loja, aplicativo é verdadeiro canivete suíço para chineses – e está sujeito à influência e vigilância do governo local.

Paul Mozu - The New York Times - 20 de setembro de 2020

Pouco depois da eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos, Joanne Li percebeu que o aplicativo que a conectava a outros imigrantes chineses a tinha desligado da realidade. Tudo que ela via no aplicativo chinês WeChat indicava que Donald Trump era um líder admirado e empresário impressionante. Ela acreditou que esse era o amplo consenso em relação ao recém-eleito presidente americano. “Mas então comecei a conversar com estrangeiros a respeito dele, com pessoas que não eram chinesas", disse ela. “Fiquei muito confusa.”

Ela começou a ler mais fontes de notícias, e Joanne, que vivia em Toronto na época, começou a se dar conta que o WeChat estava repleto de fofocas, teorias da conspiração e até mentiras. Um artigo alegava que o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, planejava legalizar as drogas. Outro boato dizia que o Canadá tinha começado a vender maconha nos mercados. Uma publicação de um perfil de notícias de Xangai alertava os chineses para tomarem o cuidado de não trazer a droga acidentalmente do Canadá, correndo o risco de serem presos.

Ela também questionou o que era dito a respeito da China. Quando uma importante executiva da Huawei foi detida no Canadá em 2018, artigos da mídia estrangeira foram rapidamente censurados no WeChat. Seus amigos chineses, tanto dentro como fora do país, começaram a dizer que não havia justiça no Canadá, contrariando a experiência direta dela. “Subitamente, descobri que conversar com os outros a respeito do assunto não fazia sentido", disse Joanne. “Parecia que, se eu só acompanhasse a mídia chinesa, meus pensamentos seriam diferentes.”

Joanne não tinha muita alternativa além de suportar os defeitos em nome das qualidades. Criado para ser “tudo para todos”, o WeChat é indispensável.

Para a maioria dos chineses na China, o WeChat é uma espécie canivete-suíço dos aplicativos: permite compartilhar histórias, conversar com antigos colegas, pagar contas, coordenar as ações com os colegas de trabalho, publicar imagens das férias dignas de inveja, fazer compras e receber notícias. Para os milhões de integrantes da diáspora chinesa, essa é a ponte que os conecta ao lar, seja no bate-papo com a família ou nas fotos de gastronomia.

Entrelaçado a tudo isso, estão a vigilância e a propaganda do Partido Comunista Chinês, cada vez mais robustas. Conforme o WeChat se tornou onipresente, o aplicativo se converteu em uma importante ferramenta de controle social, uma forma de as autoridades chinesas orientarem e policiarem o que as pessoas dizem, com quem conversam e o que leem. O app chegou até a expandir o alcance de Pequim para além de suas fronteiras. Quando a polícia secreta faz ameaças no exterior, estas são frequentemente feitas por meio do WeChat. 

Quando pesquisadores militares trabalhando infiltrados nos EUA tinham que falar com as embaixadas chinesas, eles usaram o WeChat, de acordo com documentos jurídicos. O partido usa o WeChat para coordenar suas ações com membros estudando no exterior.

Como um dos alicerces do estado de vigilância da China, o WeChat é agora considerado uma ameaça à segurança nacional nos EUA. O governo Trump propôs banir totalmente o WeChat, bem como o aplicativo chinês de vídeos curtos TikTok. Da noite para o dia, duas das maiores inovações chinesas da internet se tornaram uma nova frente no amplo impasse tecnológico entre China e EUA.

Ainda que os dois aplicativos tenham sido misturados na mesma categoria pelo governo Trump, eles representam duas abordagens distintas para a Grande Muralha Eletrônica que bloqueia o acesso chinês aos sites do exterior.

Mais conhecido e voltado ao público jovem, o TikTok foi pensado para o mundo selvagem fora dos limites da claustrofóbica censura da China; existe apenas fora das fronteiras do país. Ao criar um app independente para conquistar usuários em todo o mundo, a ByteDance, proprietária do TikTok, desenvolveu a melhor aposta de uma startup chinesa para concorrer com as gigantes ocidentais da internet. Além da imensa popularidade, a separação entre o TikTok e os aplicativos de sua família na China inspirou campanhas corporativas nos EUA para salvá-lo, mesmo com Pequim potencialmente acabando com qualquer acordo ao declarar a tecnologia central do aplicativo uma prioridade de segurança nacional.

Ainda que o WeChat tenha regras diferentes para os usuários dentro e fora da China, o app continua sendo uma única rede social abrangendo toda a Grande Muralha Eletrônica  da China. Nesse sentido, ajudou a levar a censura chinesa ao restante do mundo. Uma proibição interromperia milhões de conversas entre parentes e amigos, motivo pelo qual um grupo deu entrada em um processo para deter os esforços do governo Trump. Seria também uma vitória fácil para governantes americanos interessados em reagir ao alcance expandido dos tentáculos tecnoautoritários da China.

Depois que Joanne Li compartilhou uma notícia sobre o WeChat, quatro policiais apareceram no apartamento de sua família, carregando armas e escudos de choque 

Joanne sentiu o estalo do chicote do controle chinês sobre a internet quando voltou à China em 2018 para assumir um emprego no setor imobiliário. Depois de ter vivido no exterior, ela buscou equilibrar suas fontes de informação com grupos que compartilhavam artigos a respeito de acontecimentos globais. 

Com a disseminação do coronavírus no início de 2020 desgastando as relações da China com países de todo o mundo, ela publicou no WeChat um artigo da Radio Free Asia, sediada nos EUA, a respeito da deterioração da diplomacia entre China e Canadá, um texto que teria sido censurado. No dia seguinte, quatro policiais foram ao apartamento da família dela, armados e empunhando escudos. “Minha mãe ficou aterrorizada", disse ela. “Ficou branca quando os viu.”

Os policiais levaram Joanne, seu celular e computador até a delegacia local. Ela disse que teve as pernas presas a uma cadeira enquanto era interrogada. Fizeram-lhe repetidas perguntas a respeito do artigo e de seus contatos do WeChat no exterior antes de a trancarem em uma cela durante a noite.

Ela foi solta duas vezes, mas acabou arrastada novamente à delegacia para novos interrogatórios. Joanne disse que um oficial chegou até a insistir que havia proteção à liberdade de expressão na China enquanto a interrogava a respeito do que tinha dito na internet. “Não disse nada", respondeu ela. “Só pensei, como será essa liberdade de expressão? Será a liberdade de arrastar para a delegacia para sucessivas madrugadas de interrogatórios?”

Finalmente, a polícia a obrigou a escrever uma confissão e jurar lealdade à China antes de soltá-la.

Muralha

O WeChat começou como simples imitador. Sua criadora, a gigante chinesa da internet Tencent, tinha reunido uma imensa base de usuários a partir de um aplicativo de bate-papo pensado para os computadores pessoais. Mas uma nova geração de aplicativos de mensagens para celular ameaçava seu domínio da forma de comunicação entre os jovens chineses.

O visionário engenheiro Allen Zhang, da Tencent, enviou uma mensagem ao fundador da empresa, Pony Ma, preocupado com o fato de seus produtos serem superados. Esse recado levou a uma nova missão, e Zhang criou um aplicativo faz-tudo que se tornou uma necessidade do cotidiano na China. O WeChat pegou carona na popularidade das outras plataformas online da Tencent, combinando pagamentos, comércio eletrônico e rede social em um único serviço.

O produto se tornou um sucesso, e acabou eclipsando os apps que inspiraram o WeChat. E a Tencent, que lucrou bilhões com os jogos online incluídos em suas diferentes plataformas, teve então uma forma de ganhar dinheiro com praticamente todos os aspectos da identidade digital de uma pessoa — segmentando anúncios, processando pagamentos e facilitando serviços como entregas de comida.

O universo da tecnologia dentro e fora da China ficou maravilhado. A rival da Tencent, Alibaba, apressou-se para criar um produto concorrente. O Vale do Silício estudou essa mistura de serviços e seguiu o mesmo rumo.

Criado para o mundo fechado dos serviços de internet na China, o único tropeço do WeChat ocorreu fora da Grande Muralha Eletrônica. A Tencent promoveu uma intensa campanha de marketing no exterior, chegando a contratar o astro do futebol Lionel Messi como seu porta-voz em determinados mercados. Para os usuários fora da China, foi criado um conjunto de regras à parte. As contas internacionais não seriam sujeitas à censura direta e os dados seriam armazenados em servidores fora da China.

Mas, sem os muitos serviços que o WeChat oferece apenas na China, o app perdeu parte do seu poder de atração. Fora do país, sua aparência era mais prosaica, semelhante aos demais aplicativos de mensagens. No fim, seus principais usuários no exterior seriam os imigrantes chineses. A Tencent não respondeu aos pedidos de contato para esta reportagem.

Com o tempo, as distinções entre as versões chinesa e internacional do app se tornaram cada vez menos importantes. Os chineses que criam suas contas na China e deixam o país levam consigo uma conta censurada e monitorada. Se usuários internacionais conversam com usuários dentro da China, suas publicações podem ser censuradas.

Em termos de notícias e fofocas, a maior parte vem de usuários do WeChat dentro da China, que espalham esse conteúdo pelo mundo. Enquanto a maioria das redes sociais tem uma série de filtros e bolhas que reforçam diferentes pré-concepções, o WeChat é dominado por um superfiltro, seguindo de perto as narrativas da propaganda oficial.

Bolhas

“As bolhas formadas pelos filtros do WeChat não decorrem de algoritmos, e sim do regime fechado do ecossistema chinês da internet e sua censura. Isso as torna piores do que qualquer outra rede social", disse Fang Kecheng, professor da Faculdade de Comunicação e Jornalismo da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Fang começou a reparar nas limitações do WeChat em 2018, quando fazia pós-graduação na Universidade da Pensilvânia, ao lecionar um curso online de alfabetização na mídia para chineses mais jovens.

De fala mansa e bem versado no eco e no ruído da mídia americana e chinesa, Fang tinha a expectativa de ser procurado principalmente por chineses curiosos dentro da China. Um grupo inesperado compareceu às aulas: imigrantes chineses vivendo nos EUA, Canadá e outros países.

“Parecia óbvio. Como estavam todos fora da China, deveria ser fácil desenvolver um entendimento da mídia estrangeira. Seria algo presente no seu cotidiano", disse Fang. “Percebi que não era bem assim. Eles estavam fora da China, mas todo o seu ambiente de mídia seguia inteiramente dentro da China, e seus canais de informação remetiam todos a contas públicas do WeChat.”

Os cursos online de seis semanas oferecidos por Fang foram inspirados em uma conta do WeChat que ele manteve chamada News Lab, cujo objetivo era ensinar aos leitores a respeito do jornalismo. Com os cursos, ele incluía artigos de veículos como Reuters acompanhados de fichas ensinando aos alunos como analisá-los, levando-os a enxergar a diferença entre comentários de especialistas e fontes primárias.

Em uma aula de 2019, ele fez um amplo alerta para os perigos dos obstáculos ao fluxo de informações. “Agora, a muralha está ficando cada vez mais alta. Está cada vez mais difícil enxergar o mundo exterior", disse ele. “Isso não vale somente para a China, mas para boa parte do planeta.”

Sem contato

Quando a mãe de Ferkat Jawdat desapareceu na vasta rede de campos de reeducação da China onde os uigures são doutrinados, seu WeChat se tornou uma espécie de memorial.

O aplicativo pode ter sido usado como prova contra ela. Mas, como muitos uigures, ele se viu abrindo o WeChat de novo e de novo. Estavam contidos ali anos de fotos e conversas com a mãe. E seguia viva ali a remota esperança de, um dia, receber uma resposta dela. Quando ela o fez, contrariando todas as probabilidades, a polícia secreta seguiu seu rastro.

Doente e cansada, a mãe de Jawdat foi solta dos campos em meados de 2019. A polícia chinesa deu a ela um celular com acesso ao WeChat. Ao ouvir o som da voz da mãe, Jawdat tentou conter uma enxurrada de emoções. Ele não sabia ao certo nem mesmo se ela estava viva. Apesar do alívio, ele percebeu que havia algo de errado. Ela fez elogios genéricos ao Partido Comunista Chinês.

Então a polícia o procurou. Eles o abordaram com uma solicitação de amizade anônima no WeChat. Quando ele aceitou, um homem se apresentou como oficial do alto escalão das forças de segurança da China na região de Xinjiang, epicentro dos campos de reeducação. O homem tinha uma proposta. Se Jawdat, cidadão americano e ativista uigur, parasse com as tentativas de chamar a atenção do mundo para os campos, sua mãe poderia receber um passaporte e permissão para se reunir com o restante da família nos EUA.

“Foi uma espécie de ameaça", disse ele. “Fiquei quieto por duas ou três semanas, apenas para ver qual seria a reação dele.” No fim, não deu resultado. Depois de recusar uma entrevista com a imprensa e faltar a uma palestra, Jawdat ficou impaciente e confrontou o homem. “Ele começou a me ameaçar, dizendo, ‘Você é só uma pessoa enfrentando a superpotência. Comparado à China, você não é nada'.”

A experiência fez Jawdat se tornar intolerante com o aplicativo que possibilitou as ameaças, mesmo sendo sua única forma de entrar em contato com a mãe. Ele disse conhecer dois outros uigures americanos que viveram situações parecidas. Relatos de outras pessoas indicam que episódios parecidos ocorreram em todo o mundo.

“Não sei se será carma ou justiça quando os próprios chineses sentirem a dor de perder o contato com os parentes", disse Jawdat a respeito da proibição proposta pelo governo Trump. “Há muitas autoridades chinesas que têm os filhos morando nos EUA. O WeChat deve ser uma das ferramentas que usam para manter o contato. Se eles sentirem essa dor, talvez consigam se colocar no lugar dos uigures.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


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