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Edmo Sinedino

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Joguei com Petita (especial de domingo)

Edmo Sinedino - 20 de setembro de 2020

Todos os dias. Lá vou eu caminhar na praia com chuva ou sol. Nos últimos dias, confesso, com medo. Já tem gente demais até mesmo no horário que costumo fazer meus exercícios - caminhada, corrida e abdominais. Essa, vocês já imaginam é mais uma historinha das tantas que já contei. Essa se passou um dia depois da decisão do Campeonato Potiguar.

O caso se deu numa segunda-feira. Caminhando a passos largos, já para que ninguém puxe assunto, o que é quase inevitável para quem vive do danado do futebol. Mesmo de cabeça baixa, notei um cara me olhando, apontando o dedo e falando algo com sua esposa, namorada ou amiga. 

Fui até o meu ponto de retorno, Praia do Meio, e, na volta,  ele solta a piada: o mequinha não tá com nada né Edmo? Sorri amarelo, respondi que ia melhorar com o novo treinador e passei ligeiro.

Outra volta, normalmente, quando a maré está cheia, faço uma doze voltas do espaço lá de depois de Iemanjá, lá nas pedras dos ratos gabirus , retornando até as barracas já perto das ruínas do hotel Reis Magos. 

Pois bem, passo de novo e o mesmo camarada me olhando, agora ele conversa com um senhor de idade que balança a cabeça ao mesmo tempo que acompanha a minha passagem. 

Ainda pensei, juro, parece que estava adivinhando, ir direrto até a Praia dos Artistas e voltar pela calçada, mas, maré cheia, atrapalha e retornei. Não teve errada . A voz do gordinho sentando na areia me chamando.

 Olhei, parei, ele pediu para que eu me aproximasse. Respirei e pensei: lá vem coisa. Me apresenta ao senhor que está em pé, ao mesmo tempo que dá minha ficha, diz que eu sou repórter e que joguei no Alecrim Futebol Clube e outros clubes.

O senhor sorrí, me olha e pergunta (tem sotaque de carioca ou parecença): o senhor conhece Canindé? Respondi que sim, mas pensei tratar-se de outro (o ponta direita do Bairro Nordeste).

 Ele negou que fosse o mesmo, o dele era ponta esquerda, e veio nova pergunta: e Petita, o senhor conhece? Pensando encerrar a conversa, fazendo sinal claro que queria continuar minha andança, respondi que sim. Pra quê?

O senhor jogou com ele ou conhece de nome? Ele insistia no papo. Respondi que de nome. E o cara completa:  pensei que o senhor tinha jogado com ele nos tempos do Alecrim, acho que do seu tempo. Por educação, se arrependimento matasse..., ainda quis saber o ano que o tal Petita tinha defendido as cores do Verdão. Final dos anos 50, começo dos anos 60, respondeu.

Ai Jesus! Sabe aquela vontade grande, quase incontrolável de você dizer assim uma braçada, um balaio de palavrões, mandar o sujeito à pqp, junto com o papudo que me fez parar, apanhar um monte de areia e jogar nos dois, foi o que senti. 

Eu olhei pra um e pra outro, não aguentei e disse: meu senhor, eu comecei a jogar futebol no juvenil do Força e Luz em 1977, em 1978 joguei no titular, no ano seguinte me transferi para o Alecrim, eu nasci no final dos anos 50, em 1958, como poderia ter jogado com esse seu Petita!?

O senhor murchou. O outro, o papudo ainda arrematou esclarecendo, mais raiva me fazendo: é, Edmo é do tempo daquele time bicampeão invicto de 1968... Cortei na hora, num tom mais irritado ainda: não meu amigo, não, em 68 eu ainda ia completar 10 anos, tinha 9, e o Alecrim não foi Bi não, foi campeão invicto, você não ouviu quando disse o ano de meu nascimento? Os dois, notando minha irritação, sorriram amarelo desbotado e encerraram o assunto.

Chegando em casa, fui direto para o espelho me olhar para ver se eu estava tão acabado e envelhecido como os papangus me fizeram crer. Ao mesmo tempo que contava esse causo fazendo se dobrarem de rir minha esposa e minha filha. O pior é que essa não é a primeira vez que me colocam nos tempos do JL ou mais pra trás.



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