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Janine França

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Crônica de Segunda: A linha de frente oculta da ciência.

Bióloga de Salto - 11 de maio de 2020

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Todos os dias somos atualizados sobre a situação dos profissionais que estão na linha de frente atendendo os pacientes diagnosticados com COVID-19. E onde estão os outros profissionais? É possível fazer ciência mesmo com as atividades acadêmicas das universidades suspensa?

A publicação da Portaria Nº639/2020 do Ministério da Saúde traz uma lista de profissões que estão inseridas na área da saúde (Art. 1º). Essa portaria revelou para a população a interprofissionalidade necessária para auxiliar na atenção terciária (hospitalar). A valorização de profissões que até então eram inexistentes - ou muito tímidas - ao ponto de passarem despercebidas, em alguns locais: como biólogos e biomédicos. Esses pesquisadores colocam em prática a ciência básica. Costumo dizer que a ciência básica-clínica são indissociáveis, uma não deve sobrepor a outra, devem andar juntas. Afinal, de que adianta o diagnóstico sem tratamento?

Por isso, entendam, que mesmo com as atividades acadêmicas (aulas) suspensas nas universidades, alguns pesquisadores estão com seus laboratórios a serviço para conhecer melhor os mecanismos de ação o vírus, outros estão realizando teste de diagnósticos, há também que esteja trabalhando incansavelmente para desenvolver vacinas, e outros que estão testando fármacos com mecanismos de ação já conhecidos para encontrar um tratamento mais rápido e seguro.

Larissa Vuitika UFMG para Nature

- Bióloga Larrisa Vuitika (UFMG) saiu na Nature representando os pesquisadores na busca por uma vacina para o vírus Sars-Cov2 -

Além desses, há profissionais que atuam longe dos holofotes da mídia e dos olhos da sociedade. Apesar de não usarem uma face shield para trabalhar com o vírus, eles precisam encarar diariamente uma chuva de reuniões online, participam de grupos e comissões de crise e articular com diferentes equipes soluções educativas e estratégias para ajudar a população (local ou global) e estudam bastante. Nesse período alguns pesquisadores trocaram a bancada do laboratório pela bancada (mesa) da sala de jantar e estão organizando e estudando as publicações (artigos científicos) que saem diariamente sobre as mais diferentes áreas em que o vírus tem atuado. Com esse trabalho é possível organizar revisões científicas (uma compilação histórica) do que já se conhece sobre determinado tema da COVID-19, e auxiliar no direcionamento de pesquisadores que estão na bancada (Leia AQUI para conhecer). 

Nesse período de pandemia, não se pesquisa apenas COVID-19, todas as ciências estão em profundo estudo e os pesquisadores se adaptando para realizar seus trabalhos. O home lab tem proporcionado a retomada de muitos trabalhos científicos (análise de resultados, elaboração e submissão de artigos) e isso também é uma maneira de fazer ciência. Parcerias estão sendo articuladas (as redes sociais estão há um click de distância) e durante uma live qualquer pessoa pode tirar dúvidas com pesquisadores renomados, e ainda propor novas colaborações científicas. Novos insights e articulações estão surgindo para participação em editais de financiamento a pesquisa o que demanda mais trabalho (sim, estudar é trabalho!) dos grupos que estão se unido e reunido (virtualmente) para essa construção. Com o aumento de artigos submetidos, também aumenta o número de artigos para serem revisados. É possível constatar que o trabalho não parou, na verdade esta intensificado.

A adaptação a pesquisa em home lab também permeia a ciência do ambiente familiar, dos pesquisadores (as) que são pais/ mães e dos que cuidam dos próprios pais/mães/idosos. Esses estão se reinventando para atender as demandas do lar, da família e da pesquisa. É possível encontrar dicas, atividades pela internet (CLICA AQUI). Além disso, muitos professores da rede básica estão elaborando aulas e atividades para que os alunos não percam o ritmo de estudos. Acompanho alguns perfis de professores, principalmente os de ciências e biologia, nas redes sociais e essa tem sido uma ferramenta de educação prática e eficaz para tirar dúvidas, discutir temáticas e compartilhar estratégias educacionais.

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É chegada a hora de falar com a sociedade face to face (live by live) pesquisadores e pesquisadoras compartilhem com as pessoas a sua bancada em home lab, expliquem a sua pesquisa, aprendam a organizar os seus horários, curtam os seus momentos de descanso, e também, com seus filhos (as) sem se culpar por não estar escrevendo ou lendo um artigo (esse sentimento, as vezes está presente entre nós). Esses profissionais que fazem ciências estão em uma linha de frente oculta, silenciosa, mas extremamente eficaz e que deve ser (re)conhecida e valorizada por toda a sociedade.



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