Entre lanternas e livros

Veríssimo de Melo - um panorama sobre vida e obra

Michelle Paulista,

VERÍSSIMO DE MELO – VIDA E OBRA

  O ano era 1921, véspera da Semana de Arte Moderna de 22, que marcaria para sempre os rumos da produção artística e literária do Brasil. Em pleno coração da Cidade alta, na Rua Vigário Bartolomeu, nascia Veríssimo de Melo, em 09 de julho. Na verdade, nascia ali aquele que se tornaria um homem de múltiplos predicativos: advogado, juiz, professor de Etnografia, antropólogo, músico, poeta, folclorista. Membro do Conselho Estadual de Cultura e da Academia norte-rio-grandense de Letras [1], Veríssimo – ou Vivi, como era chamado na intimidade – era homem inquieto e inventivo. Prestou grande serviço à cultura e à literatura, publicando inúmeros ensaios e críticas literárias, além de ter “preenchido” uma lacuna deixada por Câmara Cascudo, no que tange ao folclore infantil. Sua obra homônima é até hoje referência nacional em se tratando de manifestações folclóricas para crianças.

  Veríssimo também deixou como legado à sociedade potiguar a fundação do Museu Câmara Cascudo, antigo Instituto de Antropologia (juntamente com Câmara Cascudo, José Nunes Cabral de Carvalho e Dom Nivaldo Monte), em 04 de outubro de 1973. Segundo dados do Museu[2]·, entre os anos de 1960 a 1974, o Instituto de Antropologia foi um dos mais relevantes e produtivos centros de pesquisa do país.

  Seguindo os passos do mestre Câmara Cascudo, interessou-se, a partir do final da década de 40, pelas questões atinentes às manifestações folclóricas e populares, tendo como obra mais relevante Folclore infantil, publicado em 1981. Destacou-se, ainda, no ensaio e no jornalismo literário, tendo ainda restituído para a circulação a obra de Jorge Fernandes. Segundo Manoel Onofre Jr.:

Manuel Bandeira, em carta a Veríssimo de Melo, disse: “Cumpre promover uma reedição do Livro de Poemas, porque Jorge Fernandes falou em muitos dos seus poemas com um timbre que é só dele, falou das coisas do Brasil com um sabor que é só dele (...)”. A reedição sugerida por Bandeira viria oito anos depois, com introdução e notas do próprio Veríssimo e através da Fundação José Augusto. (ONOFRE JR, 2014, p. 83)

Veríssimo praticamente resgatou Jorge Fernandes e o poeta regional e modernista Ascenso Ferreira. Em 1970, reeditou o “Livro de Poemas” pela Fundação José Augusto.

Outra obra significativa de Veríssimo foi Xarias e Canguleiros, reunião de ensaios de sua autoria, em referência à rivalidade existente entre os moradores da Cidade Alta e da Ribeira:

O ensaio que dá nome à obra estuda um fenômeno curioso na crônica da cidade de Natal: “a rivalidade tremenda que existiu até começos do século XX, entre habitantes de dois bairros principais: Cidade Alta – onde moravam os Xarias- e Ribeira, cidade baixa, onde viviam os Canguleiros”. (ONOFRE JR., 2014, p. 163)

E ainda sobre Veríssimo, Manoel Onofre Jr. afirma:

Veríssimo de Melo sabe dizer as coisas com simplicidade e isto não é fácil, não. Somente bons escritores conseguem. A sua linguagem é aparentada com a objetividade jornalística moderna. Jargão intricado, espanta-leitor, não é com ele. Resultado: a obra, acessível ao leigo, ganha amplitude divulgativa, valoriza-se mais. (ONOFRE JR., 2014, p. 165)

  Por vezes acusado de superficialidade, Veríssimo parecia não se importar: era um abridor de caminhos. Fez isso durante toda a sua trajetória, abrindo novas possiblidades, escrevendo, compondo, registrando. Chegou, inclusive, a publicar um volume sobre o físico Albert Einstein, em 1979.

Outro evento importante na biografia de Veríssimo foi ter publicado, em 1964, Dois poetas do nordeste: Jorge Fernandes e Ascenso Ferreira. Tal obra teria funcionado como uma “redescoberta” do poeta Jorge Fernandes, que à época achava-se um tanto preterido pela crítica local. É recomendável ler a obra com certa isenção, pois teria cometido alguns equívocos em relação à ideia que Veríssimo apresenta: Jorge Fernandes, para ele, seria o precursor do modernismo no Rio Grande do Norte. Mas talvez o caráter modernista de Jorge residisse mais em suas “ousadias formais”, uso de onomatopeias e até mesmo no projeto gráfico da capa de seu “Livro de poemas”.

Encontramos relativa dificuldade em enumerar a obra completa de Veríssimo. Isso se deve, em parte, pelo grande alcance de sua produção, mas também pela metodologia um tanto quanto “desordenada” das publicações. É que muitas obras foram editadas em plaquetes e edições fac-similares, algumas sem referências bibliográficas. Das muitas conversas que tivemos com contemporâneos de Veríssimo, alguns listam, em média, cerca de 110 publicações (aí se incluem, provavelmente, os artigos escritos nos jornais de Pernambuco e Natal, nos quais publicava com regularidade). José Carlos Rossato[3] (1998) assinala em 116 o número total de publicações de Veríssimo, enquanto Francisco Fernandes Marinho (2010) listou 64. Fizemos uma espécie de junção das duas listas e enumeramos a seguir as obras localizadas:

Acalantos, 1969

Albert Einstein: o Humanista, 1979

Aspectos da Religiosidade Nordestina no Cordel, 1984.

O Ataque de Lampião a Mossoró, através da Literatura de Cordel, 1983

O ataque de Lampião a Mossoró, através do Romanceiro Popular., 2017.

Bambelô – Sobrevivência negra no Nordeste, 1966.

Calendário Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, 1976

Calendário das Devoções Populares no Rio Grande do Norte, 1966

Cartas de Ascenso Ferreira a Veríssimo de Melo, 1989

Cartas de Mário Andrade a Luís da Câmara Cascudo, 1991.

Cartas & Cartões de Oswaldo Lamartine, 1995

Cascudo em dois tempos: o Professor; o Epistológico, 1979

Centenário da Associação Comercial do Rio Grande do Norte:1892 – 1992, 1992

Chico Santeiro: Escultor Popular, 1961

As chuvas na tradição popular, 1986

O conto folclórico no Brasil., 1976

Contribuição do Nordeste ao Movimento Modernista, 1971

CRUTAC: “uma edificação na mente e nos corações humanos”, 1967

Discurso de posse do Acadêmico Raul Fernandes, na cadeira nº14, 1983

Dois poetas do Nordeste: Jorge Fernandes e Ascenso Ferreira, 1964

Dos grandes, um pouco. (1° pacote literário). 1973

Faça-se a luz. Contribuição à História da Energia no Rio Grande do Norte: o papel da COSERN. Natal, 1994

Folclore infantil: Acalantos, Parlendas, Adivinhas, Jogos populares e Cantigas de roda, 1985

Fundação José Augusto: São João de 1977, 1977

Garrafas de Areia de Tibau, 1962.

Natal: Nordeste, 2006.

Gestos Populares, 1960

O gigante Luiz Tavares, 2007

Homenagem da Cidade do Natal, 1990

Humanismo e tradição, 1982

Inácio da Catingueira, 1956.

Joaquim de Fontes Galvão ou o Guerreiro do Magistério Potiguar no Memorial dos Mossoroenses, 2003

Jorge Fernandes Revisitado, 1982

O livro, a língua e a Universidade na ótica de Ortega y Gasset, 1986

Livro de Poemas e Outras Poesias, 1970

Medicina popular num mundo em transformação, 1996.

Natal há 100 anos passados, 1972

Natal: Nordeste, 2007

Nilo Pereira – Cartas de emoção e de humor, 1992

A obra folclórica de Cascudo como expressão do movimento modernista no Brasil, 1989.

Patronos e Acadêmicos, 1972

Pequena Antologia do Humor Natalense, 1959.

Raul Fernandes na Academia Norte-rio-grandense de Letras, 1983

Sátiras e Epigramas de Zé Areia, 1979

Prefácio: “Zé Areia: o bufão passa a perna em Tio Sam”, 2007

Síntese Cronológica da UFRN: 1958-1988., 1991.

Superstições de São João, 1949

Tancredo Neves na Literatura de Cordel., 1986

Universidade e Humanismo. Discurso, 1987

Villa-Lobos: Centenário, 1987

Visita do papa ao Brasil, através da Literatura de Cordel, 1991

Xarias e Canguleiros, 1968. 173p.

Xico Santeiro, 1967

Arquivos do IA, 1967

Arquivos do IA, 1967

Arquivos do IA, 1966

 “Em 1961, o pesquisador...”, 2009



[1] Conta-nos Manoel Onofre Jr. que Veríssimo era uma espécie de “Primeiro-ministro” da ALRN, pois era ele quem fazia as articulações para eleger novos acadêmicos.

[2] Informações obtidas no sítio do Museu Câmara Cascudo. Disponível em http://mcc.ufrn.br/historico/, Acesso em 08/05/2018.

[3] Plaquete publicada em 1998, pela Fundação Vingt- un Rosado. 


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