Entre lanternas e livros

Tião Maia, poeta com sangue de sertão e mar

Michelle Paulista,




  - Por  Horácio Paiva -

  Tenho Tião em meu coração. C’est-à-dire: na tradição familiar. Os nossos avôs, Agostinho Alves de Paiva e Luiz Antônio Alves de Paiva, eram irmãos. Oriundos de Catolé do Rocha, alto sertão paraibano, chegaram em Macau no final do século XIX.

  Diz Cláudio Guerra, em crônica memorável, referindo-se ao meu avô, Luiz Alves de Paiva, e à saga dos Paivas, relembrados no relato de minha tia Hilda:

   “Eram tempos da Macau da areia. Vento e areia. E nas noites de cruviana e frio, o pai contador de histórias, contava. Ele e os irmãos Paiva do Catolé do Rocha na Paraíba cruzaram todo o Rio Grande do Norte margeando o Piranhas e Assu tangendo o gado que restara da grande seca dos oitenta. Seguiam o conselho dos capuchinhos: “Caminhem, caminhem… até encontrarem as bandeiras verdes!” Ajoelharam e se benzeram ao avistarem os manguezais. O gado estava salvo. Mangue e água das cacimbas do porto.

 Depois, construíram tudo. Casa, curral, roçado: algodão, feijão, milho, melancia, melão. E o porto ficou do Roçado e a rua dos Paivas. Marchante, vendia no mercado a varejo e em grosso para os vapores da Cia Comércio e Navegação. Não enricou, mas criou os filhos, quinze ao todo.”

  Saga extraordinária, cinematográfica. Mas calculada e com propósitos comerciais firmes. Eles e os demais irmãos venderam suas terras, conservaram o gado e o trouxeram para Macau - importantíssimo porto do Rio Grande do Norte -, para criar e vender. E na cidade, que se fez madrinha e mãe e os acolheu, deram início a um bairro, o Porto do Roçado, hoje Porto de São Pedro.

  Herdamos, assim - eu, Tião e, creio, os demais descendentes macauenses desses pioneiros  -  esta aliança telúrica e talássica, este encontro permanente que há em nossas almas, em nossas culturas, de sertão e mar.

  E agora chega Tião com este livro cujo título, “Solidez do Âmbar”, já é poesia e guarda a essência sutil de sonhos cristalizados. Do passado que sobrevive no presente.

 

  A linguagem, rebelde, ou pós-moderna, como queiram, desrespeitando limites, obsoletos ou não, traduz a inquieta procura da originalidade. Um personagem à procura de um autor, artista à procura da arte, ou de Deus.

  Tensão existencial e estética presente nesses versos de seu poema “Sampa Varredura”:

  “só que estou tenso. Varredura só.

  quero construir algo como um fio vivo.

  vinde. numa só renovação.  Padrão.

  teus aços e concretos jamais derreterão.

  na terra da garoa o tempo passa sutil e

  brilhante por nós. Por um lado e por outro.

  São Paulo não espera. vai paulatino

  carros. fábricas. prédios. gente. multidão.

  trabalho. serviço. emprego. escola. tem?

  velocidade. De repente, não tem ninguém.”

  (E aqui lembro o poeta português Antônio Gedeão, em seu poema “Sós”: “Sós/ irremediavelmente sós/ como astro vazio que arrefece:/ todos passam por nós/ e ninguém nos conhece.”)

  Mas contrapondo-se ao rigor social aí encontrado, à intranquilidade gerada pela continuidade mecânica e veloz dos fatos, que afasta o contato humano e prenuncia a solidão, o poeta Tião Maia não se dispersa e traz o argumento-resíduo lírico do âmbar na beleza da “memória salva”:

  “o vento brando que

  sopra constantemente

  e enruga o leito morno do rio deslizante no

  fim daquela melancólica

  tarde vermelha,

  são

  os elementos

  da memória salva

  rio sonoroso e

  sorrindo, escoa

  com uma lâmina d’água lenta e preguiçosa

  que vai lambendo as raias de pedras,

  que bordejam

  garças brancas e esbeltas espreitam nos

  troncos calados, os peixes de cada dia

  raminhos verdes de mangues

  acenam inquietos.

  há! eu queria uma canoa!

  ah! eu queria água doce

  meninos algazarrando

  alegres a brincar

  caldos, pulos, lamas.

  barcos barulhentos transladam pecantes

  barcos silenciosos atracam no cais

  desembarcando água doce e

  levando mercados de frutos salgados

  tempo. memória. entonação.

  um vento

  conhecido que sopra e

  um gole de água

  salgada no chão.”

  Não tenham dúvidas: a divisa é Macau, nossa ilha. Deusa, arara ou alagadiço - a polêmica do nome não importa. A solidez do âmbar traz lirismo e memória, e nos defende do caos incontrolável da impermanência.


A+ A-