Entre lanternas e livros

Porque chove

Michelle Paulista,


Toda ela tremia, um tremido diferente. Não aquele tremor literário, frenético, novelístico. Era um tremor ainda não catalogado, não escrito e não constante nos contos literários. Ela tremia por dentro, sofreguidão única de quem acalenta reincidentes dissensões.

Ela criava suas próprias sinestesias, mobilizava sentidos que outras células jamais experimentariam. E a cabeça pesava, os cabelos doíam-lhe. As manchinhas que lhe turvavam a vista formavam um desenho etéreo, customizando os objetos do ambiente, formando uma visão particular do quarto. Cama, armário, cobertor. Copo d’água e comprimidos encaravam-na.  Uma sombra de fechadura fazia as vezes de expectador.

E subiam. Como subiam seus ombros preocupados, ensimesmados nas agruras que o corpo emprestava. Não precisavam do tremor das pálpebras para dar sua dose de angústia.

Que havia de novo naquele ato? Não se achava metáfora capaz de ilustrar o instante vivido. Um sonho é só um sonho quando se perde nas descargas elétricas do cérebro. Um sonho que não percorre o corpo inteiro, que não passeia pelas artérias e não é sentido por cada lote epitelial é apenas um conglomerado de fragmentos fantasiosos.

Sim, ela tremia. O sono, a sede, a fome, o afã de morrer uma vida. Vida morrida, morte vivida. Pela janela do lugar, ela criava seu quadro, imaginando sensações para cada matiz: encanto.

De súbito, uns versos lhe ocorriam, frouxos, pobres, incapazes de literariar. Também a poesia às vezes chora, às vezes cura, às vezes fustiga. Entorpece, morde e extasia: enlevo de maçã no invólucro da fronteira entre o fúcsia e o solferino, fisgada de cajá na bochecha inundada de saliva.  Dizia aos ares do lugar: não cito sensações, eu as fabrico. Modelo, rechaço, abraço, rejeito; mastigo como se cada siso fosse um facão a rasgar o galho verde.

Assim, em cada instante de evolação, um pedido ao tempo: conserte-me ou corra comigo, já é tempo e o hoje se faz. 


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