Entre lanternas e livros

No dia do escritor, a chama poética de uma grande

Michelle Paulista,



Neste dia do escritor, gostaria de homenagear inúmeros nomes, especialmente aqueles que tanto me falam, como Drummond, Bartolomeu Campos Queirós, Manuel Bandeira e tantos outros. Poderia, ainda, fazer um recorte, dando um “zoom” no Panorama potiguar, em que figuram nomes como Gilberto Avelino, Jorge Fernandes, Zila Mamede e outros gigantes.  Fico nesse quadrado da província do Rio Grande, mas opto pelos nomes contemporâneos.

São inúmeros e, caso ouse citar nomes, certamente esquecerei muitos bons e muitas boas poetas. Assim, de maneira metonímica, escolho um nome a partir do qual homenageio todos os amigos e amigas poetas, que resistem bravamente nesses tempos duros com sua poesia e seu encantamento.

Jeanne Araújo.

Recebo, constantemente, escritos de toda ordem: crônicas, poemas, ensaios, romances. Uns para ler, outros para opinar, mais uns para revisar. A maior parte de excelente qualidade; outros nem tanto. Mas quem pode valorar um texto literário, senão quem o lê e nele adentra?

Desse modo, entro no texto de Jeanne. A primeira vez que li, fiquei surpreendentemente impressionada com sua poética. Forte, potente, visceral. Um arranjo de metáforas e figuras cuidadosamente descritas. A cada verso, uma surpreendente sensação evocada, habilidade de brincar com as palavras. Poesia erótica, que pinga suor; perfume exalado, sensações derramadas:

“Enquanto espero, mantenho

as pernas abertas, cálice profano

onde bebes leite e mel

enrosco-me no teu peito quente

e dito palavras obscenas ao teu ouvido

peço-te tua adaga em fúria

e te dou minha pérola em ostra viva

pescas um poema em minhas profundezas.”

Uma mulher em transe, prestes a ser sorvida, ofertando a joia forjada em dores, mar bravio. O poema vem de dentro, sulco a jorrar poesia.

Jeanne não usa de “amor/dor”, “alegria/dia”; talvez nunca tenha trilhado esse expediente. Antes, joga fora as rimas, o previsível, o que se espera. Vem de rompante, suave e incisiva. Quente, marcante, passional.

“Não me incomodo

que você se insinue

nas paredes do quarto

por entre os lençóis

divido meu prato

minha cama, o livro

carinho, castigo

escuro, faróis.

Só não divido a centelha em mim: poema é faísca.”

Os versos acima, vejo-os como a própria metalinguagem da poesia de Jeanne: fogo, chama. Poesia ígnea, embrasada.  Sua poesia aquece e ilumina.

Em seu nome, Jeanne, cumprimento e felicito todos e todas os/as poetas dessas terras potiguares. Vivam os escritores!

OBS: Os dois poemas citados estão no novíssimo “Cicuta e Cilício”.


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