Entre lanternas e livros

Na esquina da infância

Michelle Paulista,


Recebi, com tristeza, a notícia do fechamento da Casa Cabral, esquina da praça da Bíblia. Poderia parecer uma notícia de cunho econômico – encerramento das atividades de uma empresa. Mas, pra mim, é mais que isso.

Morei na esquina da Princesa Isabel durante toda a minha infância e início da adolescência, em Macau.  À noite, a calçadinha (como eu carinhosamente chamava o batente da loja) era meu point, junto com a prima Aleuda, enquanto ríamos e falávamos sobre os mais diversos assuntos.

Eu vivia na Casa Cabral. Quando não estava na escola, lá estava. Era lá de onde eu usei um telefone pela primeira vez, luxo a que eu tinha acesso, devido à liberdade que sempre me fora dada.

A loja, sempre cheia de amigos de Marcos, era um verdadeiro laboratório de ciências sociais. Por lá, transitavam bêbados, “loucos” e muitos outros tipos humanos. Lembro-me de Ivan, que vivia a cantar “Se eu pudesse conversar com Deus”. Posso garantir que, se fechados os olhos, posso ouvir nitidamente JIC (como era chamado), um homem ébrio a cantar.

Lembro, de igual modo, de personagens pitorescos: Elizier e seus trejeitos;  de um senhor que andava numa carroça e ficava indignado se dissessem que um tal forno iria cair; de Gil com seu impagável “vou me escorar por aqui”; de Francisco das paquitas e sua lendária viagem a pé pra Guamaré.

Eu sempre observei que Marcos Cabral tinha um faro especial pra contratar bons funcionários; dos que eu lembro: Jailson (Pitu), Berguinho (admirado pelas moças da região, tocava baixo no carnaval), Marcelo e Aldair. Este último, vascaíno, que vivia a cantarolar Bezerra da Silva, foi quem primeiro me despertou o interesse pelas pautas da esquerda. A ele, devo minha verve progressista, ainda nos primórdios do Partido dos trabalhadores no nordeste, enquanto Marcos expressava sua admiração por Leonel Brizola.

Alguns nomes me vêm agora à mente... Ausimário (não sei a grafia), João Maria (de quem furei a orelha, certa vez), Deusimar, Aurino e o querido Aldo, o entregador de mercadorias, figura de quem só tenho boas lembranças, não fosse a promessa não cumprida de me ensinar a andar de bicicleta.

As pessoas falavam mal de mim. Eu vivia numa loja cheia de homens. Eu era uma menina-adolescente no meio deles. Contudo, longe de me justificar, a gente só falava basicamente de futebol. Nada mais que isso. Os assuntos e risadas nunca alcançavam o que imaginavam as mentes mais conservadoras e maliciosas. Foi assim que comecei a ouvir a Rádio Globo, o Panorama esportivo à noite, num radinho a pilha, a apreciar o narrador José Carlos Araújo (o garotinho), Gilson Ricardo, Luís Mendes, Sérgio Noronha, Rui Fernando, Edson Mauro. Sou capaz de distinguir cada uma dessas vozes ainda hoje. Presenciei muitas reuniões do Santos F.C., time amador, cuja sede era a Casa Cabral. O cúmulo da felicidade foi testemunhar a conquista do Campeonato Brasileiro de 1992, pelo Flamengo, capitaneado por Júnior e com nomes como Nélio, Jr. Baiano, Gilmar; Charles Guerreiro, Gottardo, Rogério, Piá,, Uidemar, Marquinhos, Zinho, Paulo Nunes, Nélio e Gaúcho, Fabinho, Gélson Baresi,  Marcelinho Carioca, Djalminha, Júlio César. Não “pesquisei” no Google esses nomes; estão na minha memória afetiva.

Era um tempo bom, inocente. Nunca fui assediada, abusada, em qualquer aspecto. Antes, pelo contrário, sempre fui tratada com muito afeto e delicadezas. Havia amor no ar, em sua melhor acepção. Amor fraterno, risadas, levezas.

Marcos, sempre anuente, certa feita, permitiu que eu levasse uma cadeira de rodinhas pra que ficasse brincando em casa. Dispôs-se a me levar pra um jogo do Flamengo, coisa que Mainha não permitiu.

São inúmeras histórias, todas coloridas e perfumadas, como tudo que é bom na vida. Embora tenha morado muito tempo longe da Casa Cabral, só agora, com seu fechamento, me sinto apartada dela. Foi uma janela no tempo das minhas reminiscências que o vento acaba de bater e fechar violentamente.



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